Sobre necessidades e estímulos
Redação DM
Publicado em 10 de janeiro de 2018 às 00:07 | Atualizado há 9 anos
Certa vez, quando falava sobre educação de filhos numa das palestras públicas que proferi, em cidades do interior de Goiás e Minas Gerais, uma senhora me interpelou:
– Gostaria de saber o que esse educador González Pecotche, citado nesta palestra, ensina sobre a ajuda dos filhos em casa. Tenho dificuldade em fazer que meus filhos assumam algum trabalho, por menor que seja, com responsabilidade e boa disposição.
Como a resposta dada pode ser útil a muitos pais, resumo aqui o que eu disse àquela mãe. Ela se referia à parte em que falei sobre o livro Deficiências e Propensões do Ser Humano, onde o autor escreve sobre a falta de vontade e nos diz que a vontade responde a dois fatores: a necessidade e o estímulo. Falemos primeiramente da necessidade.
Trocar pneus, enfrentar filas, tomar injeção, fazer dieta, pagar imposto, pechinchar preço, mostrar documento, sair da cama com sono… Eis algumas coisas que fazemos por estrita necessidade, tenhamos ou não algum gosto em fazê-las. Mas… qual a saída? É uma necessidade, e ponto final. Se não fizermos, as conseqüências – ruins, e às vezes desastrosas – não se farão esperar. Pais e mães têm um monte de necessidades numa casa.
Que tal, então, criar necessidades para nossos filhos? Arrumar a cama pelas manhãs, lavar o carro uma vez por semana, cortar a grama ou varrer o quintal de vez em quando, manter limpo o canil, lavar pratos e talheres que utilizam, e tantas outras tarefas, apropriadas a esse aprendizado… E então?
Há famílias pobres em que pai e mãe saem cedo para o trabalho. Os filhos, pequenos muitas vezes, tomam conta de tudo. É uma necessidade vital, que nesse caso não dá espaço para desculpas nem reclamações.
Já nas famílias mais abastadas, a maré costuma ser mais mansa. A figura da empregada doméstica, da faxineira e a própria presença constante da mãe apagam a visão da necessidade. Os filhos crescem como verdadeiros príncipes e princesas, que nenhuma tarefa querem assumir. Que fazer?
Muitos pais, então, criam necessidades pedagógicas. Após explicarem o sentido e o valor da colaboração, vinculam o seu cumprimento ao desfrute de passeios, mesadas, presentes e outros direitos que os pequenos tanto valorizam. Mas a luta vai ser dura, dia após dia. Sem descanso. Depressa se descobre que dar trabalho para os filhos dá trabalho também para os pais – e como! Por isso, muitos desistem. E seguem reclamando dos filhos vida afora.
O outro fator é o estímulo. Há pais que sabem ser estimulantes. Em vez de ficarem sempre xingando, mostram e valorizam os acertos, incentivam os esforços, realçam os pequenos avanços. Os filhos sentem prazer em cumprir tarefas. E têm razão. É ótimo ajudar pessoas assim, estimulantes!
O espaço de um artigo é menor que o tempo de uma palestra e não permite abordar esse tema com mais profundidade. Um estudo mais detido deste assunto só fará bem; o livro citado está ao alcance do leitor, gratuitamente, no site www.logosofia.org.br.
(Dalmy Gama, escritor, professor, docente de Logosofia)