Somos aquilo que mobiliza nossos sonhos
Redação DM
Publicado em 22 de dezembro de 2017 às 22:33 | Atualizado há 9 anosEm geral, nas sociedades dos mortos vivos, os que dão grandes saltos de qualidade, e fazem avançar as fronteiras da criação artística, são tidos como criaturas inúteis, sendo vistas como personas de lamentável existência, ou palhaços de triste figura.
“Eu preciso que seus lábios movam-se para o centro onde se encontra o desejo”. (Booth Turner, genial pintor de marinhas, tido como um grande inútil por quase todos do seu lugar e seu tempo).
Estando pobre e doente, como foi por toda sua existência, certa vez recusou vender toda sua obra a um potentado comerciante. Alegou que não a venderia, pois já a daria de graça, para ser vista por todos, no Museu de Londres.
Em vez de embolsar papel moeda, escolheu que toda pessoa interessada em beleza pudesse ver suas obras – aqueles a quem sua obra imortal foi legada.
A maioria das pessoas morre aos trinta anos, e são enterradas aos setenta anos, ou um pouco mais. O que acontece entre um evento e outro, só com muita bondade se pode chamar de vida.
O oblívio pode vir como alívio.Pode representar o esquecimento de antigos sofrimentos, ou de futuras tormentas, no itinerário do existir.
Vastas solidões do Brasil profundo
O mesmo roteiro, da mesma viagem,tantas vezes realizada, pode nos parecer mais longo ou curto, mais agradável ou mais sofrido – a depender das emoções que nos habitam, e da qualidade de alma em que estejamos viajando.
Tudo se altera, conforme a tensão ou a leveza com que se faz a jornada.
À Chapada Diamantina muitas vezes cheguei, rumo à esquina da América, no rincão potiguar onde Omar lambe as barrancas do sertão.
Cheguei e segui, com meu ferral rodante – muitíssimo longe de ser uma Ferrari último tipo.Quase viajando a trote de animal trepidante, cheguei vivo e segui respirando, por estradas federais ou carreiras,deste Brasil profundo que a maioria dos brasileiros desconhece – e se sabem da sua existência, sequer imaginam como é de verdade.
Beleza agreste de sertões habitados por gente sofrida, que alegra-se só em ter alguma chuvica vasqueira, que mais falta do que vem – e água de beber e banhar, que não seja salobra.
Montanhas da chapada, com seus vales cerradenses, por onde andou desbravando rincões bravios a velha ambição diamantina e aurífera – sonhos de riqueza fácil que em muitos casos o que fez foi aumentar a pobreza.
Chapada do Araripe, por onde andou o ancestral humanóide americano – serras negras do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte – há tempos imemoriais foram erguendo-se em levantes tectônicos – muitíssimias eras antes de chegarem os humanóides.
Vastas solidões do Brasil profundo que a maioria dos brasileiros não conhece.
(Brasigóis Felício, escritor e jornalista. Ocupa a cadeira 25 da Academia Goiana de Letras)