Super El Niño pode causar 13,3 mil mortes por calor no Brasil, aponta estudo
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 23 de setembro de 2026 às 10:28 | Atualizado há 1 hora
Super El Niño pode intensificar as temperaturas e provocar milhares de mortes relacionadas ao calor | Foto: Douglas Schinatto
O Brasil pode registrar cerca de 13,3 mil mortes adicionais provocadas pelo calor durante o atual episódio de “Super El Niño”, de acordo com uma projeção do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. O país aparece entre os cinco que devem concentrar o maior número de mortes associadas às temperaturas elevadas e aos efeitos climáticos provocados pelo fenômeno.
A estimativa faz parte de um estudo publicado em setembro que calcula os impactos do El Niño sobre a mortalidade em diferentes partes do mundo. Os pesquisadores consideraram as condições climáticas de cada território, o nível de vulnerabilidade da população e a capacidade dos países de se adaptar a períodos de calor extremo.
No cenário analisado, os países do chamado Sul Global devem sofrer os efeitos mais intensos. A projeção considera não apenas as temperaturas elevadas, mas também consequências relacionadas à alteração no regime de chuvas, como períodos de seca, incêndios florestais e inundações.
Mais de 450 mil mortes são projetadas
Para os próximos meses, o levantamento estima 451 mil mortes relacionadas ao calor intensificado pelo Super El Niño. Somente no intervalo de setembro de 2026 a fevereiro de 2027, seriam aproximadamente 239 mil mortes adicionais em todo o mundo.
A África aparece entre as regiões com maior impacto previsto. Apenas no Sahel, faixa que atravessa países ao sul do deserto do Saara, são estimadas 66,8 mil mortes. A Nigéria concentra a maior projeção, com 31,4 mil óbitos, seguida pelo Sudão, com 17,5 mil, pelo Níger, com 10 mil, e pelo Chade, com 8 mil.
Na Ásia, as projeções também são expressivas. Filipinas, Vietnã, Tailândia e Camboja podem somar 19,4 mil mortes. A Indonésia aparece com outras 19,3 mil, enquanto a Índia tem uma estimativa de 15,8 mil óbitos.
Na América do Sul, o Brasil apresenta a maior projeção, com 13,3 mil mortes adicionais. O levantamento coloca o país entre os territórios mais afetados pelo impacto do calor no período analisado.
O número global estimado pelos pesquisadores é aproximadamente 65 vezes superior às 6,8 mil pessoas que, segundo estimativas citadas no estudo, morreram ou desapareceram durante as recentes inundações repentinas no Nepal.
Michael Greenstone, cofundador do Laboratório de Impacto Climático, afirmou que a pesquisa amplia a possibilidade de antecipar os efeitos das temperaturas extremas sobre a mortalidade. Segundo ele, a estimativa pode ajudar a identificar a dimensão do risco antes que os impactos ocorram.
Alertas e adaptação podem reduzir impactos
Apesar da projeção, o estudo aponta que os efeitos do calor extremo não são inevitáveis. O Laboratório de Impacto Climático reúne medidas que podem ser utilizadas para aumentar a proteção das populações expostas às temperaturas elevadas.
Entre as estratégias estão a criação de sistemas de alerta antecipado para ondas de calor e a instalação de centros de resfriamento. Medidas voltadas a trabalhadores que permanecem expostos ao calor também aparecem entre as possibilidades de adaptação.
Os pesquisadores defendem que os dados sobre mortalidade sejam incorporados ao planejamento de preparação para episódios de El Niño, juntamente com ações voltadas à segurança alimentar e à redução dos riscos provocados por eventos climáticos extremos.
O estudo também apresenta um cenário de longo prazo relacionado às mudanças climáticas. A pesquisa utiliza projeções de temperaturas para aproximadamente 20 anos e avalia como seriam os impactos caso não sejam realizados novos investimentos em adaptação.
Nesse contexto, os autores tratam as condições atuais como uma espécie de “cartão-postal do nosso futuro”, em referência à possibilidade de que temperaturas semelhantes se tornem mais frequentes nas próximas décadas.