Taego Ãwa, o genocídio e o direito ao futuro
Redação DM
Publicado em 13 de maio de 2017 às 03:19 | Atualizado há 9 anosO primeiro plano de Taego Ãwa, que estreou no dia 11 de maio no Cine Cultura (Praça Cívica), inscreve os nomes próprios Henrique e Marcela numa voz indígena ainda sem nome, que recorda o momento em que os dois irmãos iniciaram o processo de devolução de imagens que desencadeou a realização do filme. O documentário articula imagens de arquivo e registros de situações do presente, nas quais as evidências da vida comum convivem com a fabulação da memória e da encenação. Parte de sua contundência decorre da densidade dos nomes que o assombram. O título, por exemplo, evoca a memória de Taego, o nome da mulher de Tutawa, que assumiu na história do grupo o papel de líder da resistência ao genocídio, mas também o nome da terra reivindicada, na Ilha do Bananal, da qual foram retirados à força na década de 1970.
O relato contado pela voz indígena no decorrer do plano inicial narra a memória do encontro que desencadeou a realização do filme: Henrique e Marcela visitam os índios Ãwa, conhecidos como os Avá-canoeiros do Araguaia, e mostram-lhes imagens contidas em fitas de VHS que tinham sido descobertas por Marcela na Universidade Federal de Goiás, na antiga Facomb, atual FIC, em 2003, assim como fotografias e outros materiais de arquivo. É a relação com as imagens de arquivo, iniciada com sua devolução ao olhar indígena, que desencadeia o processo do qual resultou o filme.
A exploração do arquivo e a abordagem da memória convergem na tentativa de suplementar as imagens que faltam da história dos Ãwa do Araguaia: a violência do primeiro contato, forçado por uma Frente de Atração da Fundação Nacional do Índio, em 1973; os deslocamentos forçados que terminam por conduzir os Ãwa para o território de antigos inimigos, os Javaé, diante dos quais os Ãwa aparecem como derrotados e inferiores, condição que se resume em sua designação como “índios negros”; as inúmeras formas do estado de sítio constante em que precisam encontrar, apesar de tudo, formas de resistência para continuar a existir, depois de terem sido reduzidos a menos de uma dezena de pessoas.
A relação singular dos Ãwa com o arquivo participa de uma história mais ampla de resistência indígena, que Taego Ãwa procura apresentar por meio de depoimentos de Tutawa (o pai da família, que faleceu durante o processo de finalização do filme), de Kawkamy/Kaukama (sua filha com Taego e a mãe da primeira geração nascida após o contato) e de toda a família Ãwa da Ilha do Bananal. Ao mesmo tempo, além das imagens que faltam do passado (em meio às imagens que restam), Taego Ãwa cria uma imagem que falta do presente, que se projeta sobre o futuro: a imagem da terra comum, Taego Ãwa, ainda não reconhecida no momento em que o filme foi feito. Enquanto a relação com o arquivo desencadeia um processo memorial, os modos de encenação e de montagem propostos por Henrique e Marcela Borela desencadeiam um processo imaginativo.
Ocorre um movimento entre a representação dos índios como espectadores de si mesmos – que corresponde ao impulso que desencadeou o filme e à singularidade irredutível da história que representa: os Ãwa diante das imagens que lhes foram devolvidas por Henrique e Marcela; os Ãwa diante das imagens da luta indígena no Brasil – e a representação dos índios como espectadores do mundo – que corresponde ao transbordamento da singularidade da história dos Ãwa e à sua inscrição num contexto mais amplo de disputa política e simbólica: os Ãwa diante do arquivo do genocídio; os Ãwa diante de imagens da mídia dominante, da política institucional e da luta pela invasão e pela apropriação de seus espaços de poder; os Ãwa diante da terra comum Taego Ãwa.
O belo plano da criança que assiste ao desenho animado na televisão equivale a uma nova inscrição da figura do índio como espectador do mundo, que deve ser compreendida não como uma representação da perda de uma identidade (um argumento essencialista que supõe uma identidade pura que nunca existiu e que permaneceria alheia à história), mas como uma representação da possibilidade de continuidade na transformação. O olhar da criança Ãwa que assiste ao desenho animado talvez se abra para um mundo que permanece por vir, mas cujos traços se insinuam nos demais planos da vida comum que encerram o filme, sobretudo no último, em que duas garotas brincam num banco de areia à beira do rio. As fotos que abrigam os créditos finais parecem indicar a necessidade de buscar no passado, na memória e na história dos Ãwa, o impulso em direção a essa abertura para um mundo por vir, cujo nome ainda não foi inventado.
O Autor
Marcelo Ribeiro é pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e coordenador do Cineclube Culturama, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos na UFG. Uma versão mais longa desse texto foi publicado na Revista Janela e, em seguida, no site Incinerrante.com, em 2016, quando o filme “Taego Ãwa” circulava em diversas mostras e festivais nacionais e internacionais. O filme foi selecionado pela Sessão Vitrine Petrobrás e será distribuído pela Vitrine Filmes em 20 cidades brasileiras.
Exibição do filme TAEGO ÃWA com debate
Onde: Cine Cultura (Praça Cívica)
Quando: Amanhã, às 19h30