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Teologia (II): mais que um objeto, um objetivo

Redação DM

Publicado em 21 de fevereiro de 2016 às 22:54 | Atualizado há 10 anos

A despeito do sentido literal do termo teologia, que quer dizer “discurso (ou palavra) sobre Deus”, não podemos afirmar que se trate de uma ciência cujo objeto seja a própria existência divina. Deus não pode ser tomado como objeto, senão através de suas manifestações na história e na criação. E a este fenômeno pelo qual a realidade divina se dá a conhecer pelos homens damos o nome de Revelação. Compreender esta se tornará um dos principais objetivos da teologia.

Nós, cristãos católicos, entendemos que, ao longo dos séculos, Deus quis se revelar ao homem, dando-se a conhecer por ele. O primeiro passo nessa iniciativa de amor e gratuidade, portanto, foi do próprio Deus que, gradualmente, deu a conhecer de seu mistério por meio de palavras e ações. A revelação da Palavra, dessa maneira, concretiza-se como uma extensão daquela revelação efetivada por meio da Criação do mundo. É Deus quem fala ao homem através dos acontecimentos. É Deus quem elege uma nação, cujos domínios alcançariam a universalidade de todos os povos. É assim que nos deparamos com a figura de um Deus que é, simultaneamente, mãe e pai de seu povo, acompanhando-o e protegendo-o.

Mas isso não foi tudo. Tendo estabelecido sua Aliança, novamente por sua livre e primeira iniciativa, Deus enviou o seu Filho único, por meio do qual a humanidade seria redimida de todo o mal. É interessante notar o jogo das palavras inscritas no prólogo do evangelho joanino. O logos de Deus se faz carne e vem habitar entre os homens. A Palavra torna-se concreta, constituindo-se como a plenitude da revelação de Deus. Daí que o primeiro objeto de estudo da teologia seja a Revelação, e, por ela, a Palavra. A Palavra revela um Deus que, já estando sempre próximo de seu povo, fez-se, ele mesmo, pessoa entre pessoas, a fim de resgatar a humanidade rumo ao seu sentido mais autêntico: ser amor, à semelhança Daquele que a criou.

Nada obstante, há, ainda, outro elemento fundamental para a reflexão teológica que, aliás, foi e continua sendo objeto de grandes debates, sobretudo nos séculos XX e XXI – quando parecia dispensado da teologia, caso esta fosse compreendida, stricto sensu, como ciência hermenêutica. Trata-se da fé. Especialmente para a teologia de herança tomista, fé e Revelação são dois itens indissociáveis. Se, por um lado, asseguramos a iniciativa divina como primeiro passo para a revelação do mistério da salvação, por outro, devemos reconhecer que isso não implica anular o livre arbítrio dos seres criados. A fé, por isso, é uma via de mão dupla: tanto fruto de um movimento da vontade que orienta a razão ao objeto da crença, quanto um exercício racional capaz de fundamentar a própria crença. Na esteira desta interpretação, fé é adesão. Isso significa que a fé não apenas se torna objeto para a teologia, mas o seu próprio conteúdo. O conteúdo da fé é o que mais propriamente se constitui como o ponto de interesse da investigação teológica, e trata-se de uma fé articulada em dois âmbitos: o coletivo e o individual.

Ademais, também é importante ressaltar o papel do homem como objeto da teologia. Fé e revelação somente coexistem na medida em que consideramos o homem como o pólo dinamizador da atividade teológica. E aqui não nos referimos apenas ao fato de que Deus se revelou aos homens, mas consideramos os próprios homens como produtores de investigação teológica. Como sabemos, o propósito de neutralidade científica não foi muito além da modernidade. Em qualquer ciência, enquanto integrante do conjunto maior a que denominamos natureza, o homem deve ser tomado como ser de relações, causais e não causais. Fazer teologia, por isso, significa desenvolver um estudo sistemático da revelação manifesta na Palavra, à luz da fé, e aqui encontramos o homem. Na medida em que o homem desenvolve tal investigação, torna-se, ele mesmo, parte dela.

Ao ressaltarmos o ser humano como “parte” do objeto que constitui o mote da investigação teológica, queremos, contudo, enfatizar que não estamos nos referindo a um sujeito como polo dominante em todas as mediações de conhecimento. A centralidade da Revelação, como dissemos acima, está depositada sobre a figura de Cristo, a Palavra Eterna do Pai. Cristo revelou-nos a face amorosa de Deus, sendo, simultaneamente, o canal por excelência da revelação do Criador e o próprio conteúdo desta revelação. Daí que se articulam os conceitos de Palavra, Fé, Homem e Revelação, frente à temática de um Deus que, sendo um, é trino, que, criando o universo, o redime na cruz e o salva, forjando-se télos da criação. Em suma, este é o objeto da teologia, e por isso nos familiarizarmos tanto com a definição de Granat: a teologia deve ser definida como uma ciência sobre Cristo Criador, Salvador, Sacerdote, Distribuidor de Graças e Realizador da fé. Tudo isso a partir da cooperação da razão humana com o pensamento divino revelado em Cristo.

Mas estes objetos almejam, por sua vez, objetivos bastante concretos. A cultura da fé poderia ser apontada como o primeiro desses objetivos. A construção de um saber teológico coopera na edificação da fé e dá continuidade à tradição. Além disso, também visa ampliar o bojo da sabedoria cristã, herdado desde os primeiros discípulos do Senhor, estando, nesse sentido, simultaneamente a serviço do povo de Deus e do anúncio da Palavra. Para tal, se baseiam na experiência das pessoas e comunidades cristãs, relacionando o ser humano e a fé como fontes autênticas da teologia.

 

(José Reinaldo F. Martins Filho é mestre em Filosofia (2014) e mestrando em Música, ambos pela UFG. Doutorando em Ciências da Religião pela Puc-Goiás)


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