Todo pinguço é gente boa
Redação DM
Publicado em 26 de janeiro de 2016 às 21:00 | Atualizado há 10 anos
Não conheço um só cachaceiro que não seja encrenqueiro, inoportuno, inconveniente e chato. Cheio da verdade e que nunca se dá por vencido. Se você conhece um me apresente, porque quero prestar uma homenagem especial ao próprio por se tratar de raridade.
Toda confusão que se preza em um boteco tem de ter um pinguço no meio. Isso, quando ele mesmo não é o pivô. Ainda que terminada a pendência, ele continua aborrecendo, puxa um pra cá, puxa outro pra lá, com a sua mão pesada; tropeça nas mesas, cai no colo dos outros, abraça qualquer mulher que apareça pela frente, um chato.
O mais interessante no pinguço é que ele fora da carraspana é um sujeito, via de regra, introvertido, calado, não se mete em briga, ou seja, chega a ser um chato às avessas. E jamais acredita que tenha sido capaz de fazer o que contam que ele fez durante a bebedeira, além de jurar que nunca mais coloca uma gota de bebida alcoólica na boca.
Muito tempo mais tarde é que fui matar a charada de o porquê da gota de bebida: é que não se bebe em gotas, mas aos copos, e de preferência bem cheios. Pelo menos os que conheço são assim.
Não sei por que cargas d’água alguns bebuns adoram um velório. Talvez seja porque antigamente havia a tradição de servir uma cachacinha aos presentes. Outros é porque são solidários mesmos. Choram com as viúvas, com os filhos, são sempre íntimos conheçam o morto ou não. Em todos os velórios aos quais fui sempre encontrei um pinguço.
Disseram-me que foi verdade. Como se trata de bebum acredito. O sujeito passou uma noite e parte da manhã seguinte entornando. Como acabou o dinheiro que levara, saiu do boteco e se pôs a descer uma rua de ladeira.
Andou um pouco e notou que acontecia um velório. Entrou. Era a casa de um figurão da cidade. Ao notarem a presença do bêbado retiraram-no meio aos empurrões, ao que ele reagia em voz alta: “Calma, calma, ou, ou!”, mas terminou no olho da rua.
Cambaleante, metros abaixo, encontrou outro velório. Desconfiado, parou na porta, quando foi recebido por uma jovem senhora: “Vamos entrar moço, o senhor também era amigo do papai? O senhor fique a vontade que daqui um pouco vou trazer uma cachacinha e mais tarde tem almoço. Por enquanto, o senhor aceita um cafezinho? Ele aceitou.
Com a chegada da bandeja com os copos de cachaça o bêbado disse: “Peraí um tiquinho, moça”. Saiu e voltou à casa da qual havia sito expulso. Antes que notassem a sua presença, foi logo falando alto: “Ceis pode ficá com esse difunto pobre do ceis, que ali em cima tem um veloro mil veis mio que este aqui”.
Iram Saraiva é ministro emérito do Tribunal de Contas da União)