Tragam-me um lápis
Redação DM
Publicado em 17 de janeiro de 2016 às 21:41 | Atualizado há 10 anos
No auge do falso crescimento monetário brasileiro, inúmeras pessoas – com pouco ônus – iam para a América, Miami era o destino habitual. Eu os via pedindo coisas entre si. Encomendas. Nunca o fiz. Porém um verdadeiro amigo perguntou-me se eu queria algo, uma lembrancinha, sei lá. Respondi:
– Traga-me um lápis.
Confesso aqui que coleciono-os por onde passo. Já foram dezenas de países. Deslocando-me de ônibus, barco, moto, avião, camelo, bicicleta, à pé. E o desejo de conhecer mais e mais me encanta. Escrever sobre aquele lugar, relatar minhas descobertas e pequenas aventuras. Essa é uma das razões do grafite.
Meu tórax quase explode nas montanhas, mas aquele pequeno objeto não seca, não perde tinta, e você vê quando está acabando. Apontar é uma arte, pode ser com canivete – meu ato literário predileto – ou apontador. Sou encantado por aqueles que fixam na borda da mesa e você os gira. E os que têm um reservatório de cascas? Já reparou como são belas as cascas dos lápis coloridos?
No meu ninho, em casa, existe uma caixa enorme, cheia deles. Cada um, um lugar, uma pessoa, uma experiência. Ao lado, um caderno escolar, do MEC-Fename, bem antigo e encapado no plástico. Nele escrevo o nome das pessoas que lembraram-se de mim e puderam em sua viagem parar um pouquinho e trazer-me aquele momento, para que eu um dia o passe para o papel. Nem precisa ser um Moleskine, mas se for, eu gosto. Meu atlas gentemocional já está quase cheio de tantos riscos e rabiscos.
Existem milhares de modelos, como numa ópera, são todos variações de um mesmo tema. Ou seja, madeira envolvendo o diamante descomprimido. Meus óculos perscrutam cada detalhe. O tamanho, se é fino ou grosso, se a madeira é leve, a cor dela. Tudo. Empunhar um lápis é uma responsabilidade imensa. E a folha em branco à sua frente pode caber tudo que você deseja ou sonha.
E aí, sem pena ou dó, eu escrevo. O mundo pode estar acabando lá fora e eu concentrado fico. Ouvindo Toquinho e Vinícius. Bebendo um chá, olhando para o pires. Mirando as palavras tomarem vida e nem de mim mais elas precisarem. Já que uma vez que a palavra é escrita ela torna-se palavra lançada.
Podem até perguntar o que faço com as várias canetas de ponta fina que adornam minha escrivaninha. Eu diria que elas compõe o clima. Quanto mais finas, melhores para escrever ideogramas. As alemãs são ótimas. Mas assim como correr de tênis e descalço, o lápis vence por sua nudez explícita. Pela possibilidade de perder a ponta, por sua pretensa fragilidade, por sua falibilidade intrínseca. Vai entender… lápis é pura poesia.
E com toda tranquilidade posso dizer que praticamente não existe um momento de escuridão criativa. De ausência do furor em colocar algo, em plantar. É como se fosse o pênis ancestral que não pára, não vê e nem mede desculpas, apenas quer, deseja, possui e faz. Semente que fecunda a terra e vê árvore crescer.
Por falar em árvore, se em algum momento ou dia nada vier – de inspiração – ou tudo me faltar, basta entalhar na resma um coração com as suas iniciais e as minhas, ali. Juntinhos. E a planta crescerá aos píncaros com seu tronco marcado por nossas letras embaralhadas. E assim é o texto sincero e apaixonado – idêntico ao amor – um vírus cravado no peito de quem lê e a ponta mágica de um lápis de quem escreve.
JB Alencastro é médico e escritor)