Transcender
Redação DM
Publicado em 3 de fevereiro de 2016 às 22:57 | Atualizado há 10 anosNoite escura chuva mansa e contínua, a vida segue, não importa o tempo, tudo se repete, o mundo écíclico.
O ser é passageiro em suas múltiplas jornadas.
O andarilho se abriga em uma pequena área de um supermercado, nessa noite ali é sua casa.
O lugar não é grande, a chuva molha quase todo o espaço, mas não importa, não é preciso de muito, só o suficiente para jogar a coberta, velha suja e rasgada.
É uma noite como outra qualquer, é só mais um abrigo, um lugar que possa se manter seco.
O andarilho ouve um latido, uma velha surge do nada, o andarilho não ouviu seus passos se aproximarem, o seu cão já está ao lado do viajante.
Ela se aproxima e pergunta ao andarilho.
O que está fazendo em minha casa?
O andarilho não sabe o que responder, pois imaginou que ali fosse só mais um abrigo.
Ela fica parada na frente do viajante, e diz é só brincadeira, e que costumo passar as noites por aqui, sempre espero o supermercado fechar.
Sabe como é né, se chego mais cedo me colocam para correr daqui, todos acham que vou roubar ou pedir.
Mas não quero nada de ninguém, só quero um lugar para dormir.
O andarilho se desculpa.
Olha, minha senhora, não sabia que aqui já tinha dono, não quero tomar o lugar de ninguém.
Ela, sorrindo, lhe fala.
Só to brincando, aqui cabe nos dois, só preciso de um lugar para mim e meu cão.
O andarilho se encosta mais para o canto e deixa um pequeno lugar que ainda está seco.
Ela se senta e coloca o pequeno cão no colo e encosta a cabeça na parede.
O andarilho dá um sorriso, e fala que não se preocupe e só por essa noite, depois a senhora não me vê mais, aí poderá dormir tranquila.
Ela olha para ele e lhe diz.
Eu não durmo, passo a noite indo e voltando, só consigo cochilar, tenho medo.
O andarilho se compadece da pobre mulher, e pergunta sobre a família.
Ela baixa a cabeça e lhe diz.
Eles estão bem.
Não precisam mais de mim.
Formaram-se, e se casaram.
E hoje sou motivo de vergonha, procuro manter distância, não quero prejudicá-los.
O andarilho não entende o verbo prejudicar, e lhe pergunta.
Como assim?
Criei todos eles sozinha, lavando roupa e fazendo faxina, mas parece que foi pouco, eles sentem como se eu não tivesse feito nada.
Não foi fácil formar minhas duas filhas e meu único filho homem, mas fui pai e mãe, tínhamos pouco, mas era suficiente para sobreviver.
Mas minha missão eu cumpri.
O andarilho não entende como podem ter feito aquilo com uma pessoa tão simples e sem maldade, e pergunta.
Por que te colocaram para fora de casa?
Ela acende um cigarro e responde.
Não fui colocada para fora de casa, eu é que sempre ouvia sem querer o que eles falavam de mim.
E um dia resolvi ir embora. Eles viram a hora em que saí, senti o alívio em seus olhos, e desde então ando de um lugar a outro.
O andarilho se cala, não tem mais o que conversar.
Mas a mulher começa a divagar sobre a vida.
Olha viajante, a mente e o corpo são duas coisas diferentes, a mente acompanha o espírito, enquanto que o corpo fica preso a esta terra.
Não se pode conhecer a realidade de outras mentes, consigo conviver com meus próprios problemas, mas os problemas dos outros só nos servem de experiências a serem avaliadas, servindo de base para solução dos meus próprios problemas.
Uma ideia pode vir a transformar o mundo exterior, vai depender de como essas mentes vão fazer essa exposição mental.
Nossas verdades são realidades presumidas, o abstrato pode se tornar concreto, vai depender do momento e da forma.
O andarilho a tudo ouve.
Mas prefere simplesmente ouvir.
A senhora continua.
Sua realidade é única, você é fonte criadora da sua própria vida, por isso não culpe a Deus ou ao mundo por nada que acontece.
A vida pode não ser mágica, mas é sua vida, nem sempre temos respostas para todas as perguntas, mas a cada dia surgem novas perguntas em busca de respostas, isso nos faz mover.
O principal objetivo da vida é ser feliz, e torná-la melhor a cada dia, e assim os anos passam.
No início os objetivos são em sua maioria materiais, casa, carro, dinheiro, e tudo mais que nos seduz.
Mas o tempo passa, e ao final os objetivos se transformam, passamos a buscar a paz espiritual, a família, amor, segurança, aconchego, carinho.
No início, quando somos jovens e sonhadores, vivemos no mundo de competição, onde cada ser tenta superar o seu próximo, mesmo em coisas ínfimas, é uma vida de sonho e fantasia.
O andarilho só balança a cabeça concordando.
Ela sente que está sendo ouvida e continua.
Tudo neste plano se comunica em uma perfeita sintonia, mesmo que no silêncio da solidão cósmica, por muitas vezes podemos estar em meio a multidões, mas mesmo assim estaremos sozinhos.
O importante é sempre estarmos conectados ao Criador, para vivermos a verdade real.
Não podemos passar uma vida inteira dormindo acordados, e por mais que o corpo se desligue, a mente continua sua trajetória em busca da luz suprema.
E olhe, viajante, encante-se com o que faz, por mais ínfimo e insignificante que seja, e assim estará conectado com a força da criação.
E com essas últimas palavras a mulher se desliga do mundo real, passando para a irrealidade que a mantém viva.
O andarilho faz sua prece antes de dormir, pedindo aos anjos de luz que acolham aquele ser sofrido sob o manto sagrado da mente criadora.
Com aquele pensamento de fé, o andarilho dorme, sentindo sua caridade a outro ser com aquela simples prece.
O dia mal amanhece, ainda está escuro, a chuva continua seu som junto com a orquestra do universo, pois o barulho da chuva traz paz e harmonia a todos os seres.
Quando de repente se aproxima uma mulher de meia-idade e passa a observar aquela humilde senhora, que dorme sentada encostada em uma parede.
E diz a uma mulher e um homem que a acompanha, vejam e ela, do mesmo jeito que vi em meus sonhos.
A senhora acorda, olha fixamente aquelas pessoas e diz:
– Meus filhos, como é bom ver vocês. Passei a noite inteira sonhando com esse momento. Não queria abrir os olhos, senti minha alma vagar e visitar a cada um nessa noite.
Ao dizer isso, ela olha ao lado, o andarilho já não está mais ali, ela se lembra do sonho, e do andarilho segurando em sua mão durante sua jornada, fora do corpo, um dos filhos ,sorrindo, diz:
– Então foi um sonho coletivo. Estávamos na mesma frequência vibratória.
E dali saem a mulher e sua família, todos sorrindo, como se o passado nunca tivesse acontecido.
E junto a eles um pequeno cão que parece entender a tudo que se passa, pois pula e balança seu rabinho como se estivesse em família, e conhecesse a todos que ali estavam.
E ao longe o andarilho observa toda aquela cena, que já havia sido traçada antes do momento da criação, para que todos pudessem rever seus atos e mudar os seus destinos.
(Paulo César de Castro Gomes, graduado em Direito pela Universidade Salgado de Oliveira Goiânia, pós-graduado em docência universitária pela Universidade Salgado de Oliveira Goiânia, pós-graduando em Criminologia e Segurança Pública pela Universidade Federal de Goiás – Email: [email protected])