Um cachorro amigo
Redação DM
Publicado em 5 de outubro de 2015 às 23:14 | Atualizado há 11 anosDuas da madrugada, mais ou menos. As ruas da cidade estavam desertas e um silêncio profundo casava-se à brisa fresca que me acarinhava a fronte cansada do labor. Eu ia para casa àquela hora, depois do meu serviço no jornal. O trecho em que eu passava estava bastante claro, graças às luminárias públicas. Eu estava despreocupado e caminhando lentamente, como sempre.
Mas, em certo momento, da esquina próxima, surgiu um bando de cães vadios. “A rua não está tão deserta, assim…” Pensei. Os animais brincavam entre si. Eram uns 15, acho. Quando notaram a minha presença, danaram a rosnar, caminhando em minha direção, fechando-me num círculo que me assustava. Fiquei parado, cerrando os punhos para qualquer eventualidade. Os bichos rosnavam apertando o cerco, de cabeças baixas.
Eu girava em torno de mim, no meio deles, tentando defender-me do primeiro ataque, que seria naturalmente seguido pelos demais. Meu coração batia forte e eu já antevia uma catástrofe. No entanto, estava disposto a lutar, claro. Mas quando os cachorros estreitaram mais o cerco, dificultando os meus movimentos, um cão agigantado, de pelo esverdeado e luzidio, saído não sei de onde, saltou no meio, rosnando como uma fera bravia, fazendo-os sair em fuga célere, surpresos e amedrontados.
Fiquei a observar aquele canzarrão de porte vigoroso, supondo pudesse ele também se investir contra mim. Mas ele se pôs ao meu lado e ficou a olhar altivamente para os outros cães que se espalhavam pelas ruas e esquinas. O belo e forte cão tinha espertos os olhos, muito alvos os dentes e as patas grandes. Olhava os cães da altura do seu porte avolumado, como se fosse um líder que inspirava medo a todos os animais da sua raça. Confiei naquele salvador inesperado, tranquilizei-me, embora não conseguisse conter o meu espanto. Depois ele olhou-me e eu comecei a andar, olhando para trás, de distância em distância. E sempre via o animal a fitar-me, como se pretendesse escoltar-me com o olhar. Antes de virar a esquina, olhei de novo para o cão e lá estava ele, a mirar-me. Acenei-lhe a mão, nesse instinto que a gente tem de agradecer por um préstimo recebido, e foi aí que o cão se moveu, caminhando rua acima…
Inspirados no pensamento de Belmiro Braga, dizem por aí que “se entre amigos a gente encontra cachorros, entre cachorros a gente encontra, também, amigos”. Muito lindo isso. Mas eu digo que, graças a Deus, entre cachorros ou amigos, onde quer que eu vá ou esteja, sejam lá quais forem as condições ou circunstâncias, talvez por muito acreditar nos homens, nunca encontrei, entre amigos, um cachorro, nem entre os cachorros – um só que não fosse amigo…
(Iron Junqueira, escritor)