Um caso de maldade ou de loucura?
Redação DM
Publicado em 6 de julho de 2017 às 00:44 | Atualizado há 9 anos
Quando fiz a análise psiquiátrica desta mulher, no último artigo, muitos se revoltaram e vieram até mim dizendo que eu estava “psiquiatrizando” uma questão de pura maldade, uma questão moral.
Após 36 anos de psiquiatria, ininterruptos dentro de um hospital, vendo e estudando casos os mais graves possíveis, eu tenho uma visão um pouco diferente do que é “maldade”.
Às vezes temos “instintos” que nos “levam para a maldade”, por exemplo, o instinto sexual poligâmico de um homem casado, com filhos para criar, que dá em cima da secretária e destrói a família desta. Destrói também a própria família, um filho vai para a droga, outro não estuda ou trabalha, etc. Esse homem casado poderia muito bem deter seu instinto sob uma base moral, portanto praticou uma “maldade”. Mas o que ocorreria se ele tivesse um tumor cerebral na área temporal ou frontal, um tumor que estivesse aumentando sua sexualidade e diminuindo suas inibições? Ele seria mau? Supondo que ele tivesse um amor muito forte pela família, supondo que ele tivesse uma formação religiosa muito forte, esse tipo de moral poderia deter a doença cerebral. Mas como exigir isso dele? O limite da moral é o limite da normalidade; a sociedade não cria regras morais que a maioria das pessoas não consegue seguir biologicamente. Se a maioria das pessoas não tivesse instinto sexual, o que seria “moral” seria ser casto, celibatário, abstinente; essa seria a “moral”, essa seria a “bondade”.
Nós temos uma organização biológica, hormônios, oxitocina, neuropeptídeos, imprints etológicos, lobo cerebral da ínsula, etc, que nos fazem ter amor por uma criança. Desarranjos biológicos podem nos fazer perdermos esse amor; isso vai ser “maldade”? Poderíamos exigir dessa mãe que vencesse sua doença biológica, com um amor infinito, com uma religiosidade infinita, e deixasse de “pecar”?
Quando há uma força biológica maior do que a normal, já não se pode falar em “maldade”. Só pode existir maldade quando temos a plena liberdade de decidir entre o “fazer e o não fazer”. Se algum processo doentio biológico perturba essa decisão, já não se pode falar em uma “maldade normal”. Se a pessoa, dentro de uma circunstância normal, familiar, religiosa, social, não consegue deter uma força biológica, e se essa força biológica tem raízes patológicas, não se pode falar em “maldade” no sentido estrito da palavra. No meu último artigo, nesse sobre essa mãe de Piranhas, eu mostrei que havia indícios de que ela tinha uma perturbação doentia, biológica, psiquiátrica, que poderia estar afetando sua capacidade de decidir entre o bem e o mal.
Cada pessoa tem uma biologia e cada pessoa tem um contexto social, familiar, diferentes. No entanto, a “moral”, o julgamento da “maldade”, é algo que é feito pela sociedade tendo-se por base uma média de nossas biologias e uma média de nossos contextos sociais. Dentro dessa “média”, se a pessoa “opta” pela maldade, isso sim seria uma “maldade normal”, não patológica. Nisso estão inclusos ambição desmedida (ou seja, além das necessidades), desejo de poder , gula, luxúria, ciúmes, orgulho, prazer na agressividade, etc. A maioria das pessoas consegue controlar estas instâncias biológicas dentro de seu contexto social; no entanto, algumas, ou por um problema biológico, ou por um contexto social muito pejorativo, irão ter dificuldades nisso. Nesses casos não se pode falar, tecnicamente, em “maldade”. Toda vez que a pessoa coloca o “prazer” de realizar esses atos biológicos acima das inibições morais a esses atos, aí se pratica um ato de “verdadeira maldade”: por exemplo, para citar o caso acima, um homem que não tem assim tanto desejo sexual pela secretária, e está muito bem com sua família, amor da esposa e dos filhos. Porém, mesmo assim ele decide que quer ter uma “aventura”, um “prazer maior”, uma “coisa boa na vida, pois a vida a gente só tem uma”. Aí, este pai, este esposo, mesmo sem ter um desejo sexual patológico, desviante ou muito exacerbado, vai realizar o seu “prazer”, lesando assim, afetivamente, muitas pessoas. Ele não tinha aquela “necessidade biológica”, mas a criou, e a criou apenas para o seu prazer, apenas para aumentar um prazer que ele já tinha, mas queria mais. Aí residiria a verdadeira “maldade”.
(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra (hospitalasmi[email protected]). Artigos no Diário da Manhã, Goiânia (gratuito em impresso.dm.com.br) as terças, quintas, sextas, domingos)