Brasil

Um dia de infâmia

Redação DM

Publicado em 19 de abril de 2016 às 03:28 | Atualizado há 10 anos

O vício engoliu a virtude porque os meios de tão asquerosos e abjetos perverteram integralmente os fins roubando-lhes sentido e razão. Fomos submetidos a trágico e lancinante processo de pauperização da própria dignidade humana e que ao fim, não era possível, não se sentir mal, melancólico e esvaziado da necessária vitalidade que dá entusiasmo, corpo e vida para a atividade política.

A votação pelo impedimento da Presidente Dilma Rousseff foi a pior experiência política da minha vida. Fora o espetáculo mais degradante que tive o dissabor de testemunhar. Jamais me senti tão mal, tão esgotado e espiritualmente decaído ante cenas tão dantescas e saídas da já muito ruim política brasileira. O que se viu foi um ajuntamento de bestas humanas urrando ininterruptamente contra a dignidade da Presidente, diga-se de passagem, livre de qualquer investigação, sem qualquer processo que lhe envolva e reconhecidamente honesta, inclusive, por medalhões da oposição.

Todos nós testemunhamos o pior da baixeza política e que, tal qual verificamos, se realizou; a tristeza, a grande tristeza não foi somente porque esse injusto processo avançou. O trágico dessa lógica é identificar o nível desse congresso, seus atributos, sua lógica e seus valores. Algumas coisas são de fato, únicas e singulares. Foi necessário que uma confluência de fatores se somassem para termos esse lastimável e subterrâneo quadro político.

Este é apenas um ato da grande peça que começou com a re-territorialização global dos capitais; com o padrão governista-conciliatório lulo-petista evidentemente superado; com a sanha golpista de uma oposição magoada por derrotas sistemáticas; com a crise econômica planetária de 2008 e que, como se bem sabe, atingiu de fronte, países dependentes e periféricos como o Brasil cuja base econômica é a exploração e o comércio de commodities agrícolas e minerais; com a eleição de um gângster como Eduardo Cunha para a presidência do Congresso Nacional e por fim; com o eficiente articulado midiático-judiciário-rentista em favor da construção de consensos sociais e políticos assumidamente reacionários e, em sua medida, fascistas.

É um engendramento específico sem qualquer precedente na história política brasileira; são aspectos e episódios que violentamente avançam sobre nossa debilitada democracia porque as instituições se perverteram violentamente em todo este curso histórico que culminou no picadeiro de horrores e que todo o país acompanhou.

Tivemos de tudo, menos daquilo a que a sessão se propunha: analisar o inepto relatório do desprezível deputado goiano Jovair Arantes. De prosaicas lembranças em nome e favor da família, da filhinha, da neta ainda não nascida e do povo desta ou daquela cidade passando por homenagens de triste memória de criminosos e torturadores da sangrenta ditadura civil e militar brasileira… Viu-se de um tudo.

Ao fim, emplacou o resultado tão sonhado pela Fiesp, pela rede globo de televisão, pelo sistema bancário, por latifundiários de todo naipe, pelo submundo ortodoxo e contraventor do neo-protestantismo de prosperidade que tanto sucesso faz nesse país de analfabetos, mal-formados, indiferentes e apáticos políticos.

E uma nova unidade é refeita no Brasil. Uma unidade político-ideológica assentada no moralismo de ocasião, cimentado por valores tradicionais requentados por um patriotismo de quinta categoria e integrados pelo mais evidente e nevrálgico ódio de classes já acontecido por aqui.

Sinceramente, penso que isso não fica assim… Estou seguro que as ruas vão dar novos recados porque a luta… A luta continua e como disse Suzanne da Silva, aquela moça negra e que faz Medicina: “Pra senzala… Eu não volto!” Sem desanimar meus caros… Temos um amplo horizonte pela frente e seguimos de pé.

 

(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)

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