Um estranho que passou por aqui
Redação DM
Publicado em 16 de fevereiro de 2016 às 00:19 | Atualizado há 10 anos
Meu avô nos relatou, certa vez, estranho episódio:
– Naquela cidadezinha do interior, muitas pessoas lotavam a casa do moço que havia morrido, e que, no esquife, se encontrava coberto de flores, cercado pelos parentes, amigos e conhecidos que o choravam. Dentro de alguns minutos iam levá-lo para o campo santo, onde receberia o adeus final de todos.
O ambiente era o mesmo que todos conhecem: sobriedade, respeito, tristeza, silêncio; havia luto na sala e nos corações.
A figura desconhecida, de alto magro e louro senhor se destacou, de repente, no meio da sala, vinda não se sabe de onde. Tinha o semblante calmo e todas as características de um estrangeiro. Havia muita seriedade naquele homem, desde o cinza do terno ao modo polido de falar. Ficou parado aos pés do esquife; tinha os braços pendidos e olhava tranquilamente para o rosto do morto; depois examinou o ambiente e seu olhar claro e doce alcançou um par de velas acesas; tomou-as nas mãos e disse, com voz serena, mas firme:
– Na minha terra só sepultam os mortos…
E retirando os pés do cadáver do interior da câmara mortuária, aqueceu-os com as chamas fumegantes das grandes velas de cera. E o homem, no esquife, abriu os olhos…
Na grande confusão que se verificou no ambiente, ninguém mais viu o estranho visitante; e quando alguém perguntava: – O que houve? Só se escutava a resposta:
– Um estranho que passou por aqui…
Que dedução tiram os senhores desse relato? Catalepsia, não? Ou outra coisa qualquer. O que, todavia, acho de muita importância, é uma providência séria das autoridades junto aos irmãos do interior, advertindo-os quanto às facetas enganosas de certas doenças, não é mesmo? Se eu sofresse uma doença dessas, e se por engano me enterrassem vivo, eu queria que deixassem um bilhetinho dentro do meu caixão, dizendo: “Você está morto”, assim quando eu acordasse, não teria problemas: já sabia não estar vivo…
(Iron Junqueira é escritor)