Brasil

Um guarda-chuva ao luar

Redação DM

Publicado em 29 de novembro de 2016 às 00:51 | Atualizado há 10 anos

Recebi de Bento Fleury um presente precioso: uma coletânea das crônicas que publiquei na Folha de Goyaz, entre 1949 e 1953. Com sua sensibilidade e amor aos arquivos, esse querido amigo vem dedicando seu tempo e aplicando seus conhecimentos ao trabalho de salvar da destruição o antigo jornal, que integrava os Diários Associados (de Assis Chateaubriand) e foi um dos mais importantes da imprensa goiana, nas décadas de 1930 a 1970.

A valiosa coleção acha-se sob a guarda do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, que providenciou sua informatização; agora, cuida-se de salvar os próprios exemplares impressos, ameaçados pelo tempo, pela umidade, pelos ácaros e fungos. O que vem sendo feito com dedicação e competência pelo incansável pesquisador e (no bom sentido) rato de arquivo – o professor, escritor e pesquisador Dr. Bento Alves de Araújo Jayme Fleury Curado, que reúne em seus sobrenomes algumas das mais distintas  famílias de Goiás.

Em 1949, eu contava 18 anos de idade e acabara de chegar de mudança do Rio de Janeiro para Goiânia, então uma jovem capital que se autodenominava “Cidade Brotinho”. Não tenho certeza, mas creio que foi Aluízio Sá Peixoto – diretor da Folha de Goyaz – quem me franqueou espaço para escrever uma coluna semanal sobre o movimento bandeirante, ao qual me filiara. Daí, comecei a abordar outros assuntos, inclusive – que Deus me perdoe! – colunismo social. E assim foi durante anos. O jornal passou a ser dirigido por Theomar Jones, que veio a tornar-se “persona non grata”, por criticar os poderosos de plantão. Deram-lhe uma tremenda surra, ele baixou hospital, quase morreu… e foi-se embora, para nunca mais voltar. Curiosamente, há alguns poucos anos recebi uma carta dele, que me “achou” na Internet, lembrando aqueles tempos temerários, quando éramos jovens, desassombrados e felizes.

Folheio com emoção as crônicas redescobertas pelo amigo Bento – ali estou eu e também está Goiânia, naqueles anos recuados. Durante quatro anos, fui estudante na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, embrião da atual PUC-GO. Frequentava aulas pela manhã; trabalhava à tarde no Iapi (Instituto dos Industriários); dava aulas à noite, no Colégio de Aplicação da FFCL. Mas achava tempo para escrever minha crônica semanal – como hoje o faço, mais de 60 anos depois.

Compartilho o reencontro comigo mesma e com a cidade que me acolheu generosamente, transcrevendo uma das crônicas – datada de 8 de abril de 1953:

 

UM GUARDA-CHUVA AO LUAR

“Foi numa dessas noites passadas de luar claro e suave. Através dos flamboyants formavam-se desenhos caprichosos no asfalto e a cidade silenciosa parecia espreguiçar-se para adormecer gostosamente, repousada e calma. Algumas estrelas no céu; de longe em longe, um farol de carro, uma bicicleta serpenteando – e o vento soprava, carinhoso e manso dos lados do Sul.

Eu ia descendo pela Avenida Tocantins e mergulhava em cismas – e nessas noites assim enluaradas há um mundo de coisas emboscadas à espreita pelos desvãos do pensamento. Ouvia meus passos que ecoavam e me perdia em nuances de ideias. Foi quando vi, além, uma figura que se aproximava. Um homem alto, magro, vagaroso. E sobre ele um guarda-chuva aberto. Um grande e negro guarda-chuva, na beleza sem nuvens daquela noite de verão.

O homem andava lentamente. Lentamente chegou-se. Lentamente passou. Sorri – teria medo da lua, aquele homem? Ou seria um caso de simples alergia ao luar? Amor à sombra? Excentricidade? Um louco, certamente…

E concluindo sumariamente o meu juízo, outras coisas me vieram á mente: onde estará o limite entre o certo e o errado? A insânia e o equilíbrio? O bom e o mau? Em nós mesmos – quando podemos afirmar quem somos, o que somos, como somos? O que sentimos e queremos? Tantos são os caminhos da alma, tão complexas e múltiplas as faces do coração humano, que na bondade há muita vez uma réstia de egoísmo, e na desproporção um toque de beleza. Lembrei-me de uma velha frase: “Ninguém é essencialmente bom, ninguém é essencialmente mau.”

Um coquetel de sentimentos, eis o que somos – uma profusão de doses, nem sempre bem medidas e proporcionadas, agitadas, misturando-se umas às outras, sabendo diferentemente conforme os paladares. Em alguns, predominando o adventício uísque escocês; em outros, a pinga nacional – a Pitu, a Quiboa… Doces, amargas, acres  soluções instáveis, onde assomam por turnos sabores estranhos, assim como a vontade de abrir um guarda-chuva e passear com ele numa límpida noite de luar.

O homem – grande, negro, silencioso – foi-se, desapareceu. Foi uma sombra apenas, que mergulhou além no rendilhado dos flamboyants. Que despertou pensamentos obscuros e trouxe algumas bolhas à minha taça de coquetel. Sombra da vida que se perdeu nas sombras do pensamento.”

 

(Lena Castello Branco, escritora. E- mail: [email protected])

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