Um tiro saindo pela culatra
Redação DM
Publicado em 11 de maio de 2016 às 02:32 | Atualizado há 10 anosSabe aquela crise econômica que desde 2008 devasta economias europeias? Aquela crise intensificada pelas ditas e chamadas medidas de austeridade e que sepultou de vez e eternamente o chamado “Estado de Bem-Estar Social” marca da requintada vida pomposa dos europeus? Então, sabe aquelas altas taxas de desemprego que fazem grande pressão sobre os custos de vida no velho continente? Pois é… Todo aquele quadro de desagregação social e econômica da Europa será transplantado automaticamente para este triste trópico tupiniquim.
Aos entusiastas do golpe é preciso deixar claro que a saída de Dilma é a saída de um projeto de governo e como todo projeto é, em si, uma aposta. Jamais fora uma certeza e sempre fora possibilidade e era exatamente no circulo destas mesmas possibilidades que movimentos sociais operavam em torno de pautas sociais, públicas, republicanas e de modernização deste país de casas-grandes.
A “ponte para o futuro”, documento-eixo do bem provável governo Temer é o “El ladrillo” chileno. O texto de política econômica que orientou toda a economia de livre mercado do governo genocida de Augusto Pinochet a partir de 1973.
Como assim? Bom… Depois da Segunda Grande Guerra (1939-1945), sobretudo, a partir da criação da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal/ONU) as orientações de desenvolvimento para o subcontinente contemplavam medidas nacionalistas como a substituição de importações, o fortalecimento da indústria e do mercado nacional, o controle de preços, a restrição a produtos importados, etc.
Com o golpe que derrubou o governo da Unidade Popular (UP) do presidente Salvador Allende (1908-1973) um grupo de economistas, muitos dos quais formados pela Universidade de Chicago (daí a alcunha de “chicago boys”) fortemente influenciados pelo pensamento novo liberal de Milton Friedman (1912-2006) emplaca as políticas do “El ladrillo” e que, linhas gerais, eram exatamente proposições contrárias às recomendações da Cepal para o fortalecimento da economia nacional.
“El ladrillo” propunha, dentre as quais: a abertura abrupta do frágil mercado chileno; fim do controle de preços e de subsídios; privatizações de setores estratégicos para o país como serviços de portos e aeroportos.
O resultado era o esperado! O falimento sistemático das empresas nacionais, a desnacionalização da economia, a perda de possibilidades de elaboração de políticas econômicas tendo-em vista a redução dos limites estatais e, sob o viés social, o que se verificou no período foi muito desemprego, precarização do trabalho em todos os quadrantes, aumento da miséria, da exclusão e a piora dos indicadores sociais.
Por alguma razão a propaganda entreguista e neoliberal nos fez crer em dado momento que o Chile era a “joia da coroa” o “crème de la crème” dentre as periferias do cone sul. Nunca foi! Pura e refinada propaganda que nos inculcou símbolos, impressões e sensibilidades, evidentemente, falsas. O Chile é um país pauperizado, de péssimos indicadores sociais e de enorme dependência internacional.
O “ponte para o futuro” do golpista PMDB pós-PT é a expulsão das ainda válidas e pertinentes teses da Cepal para o fortalecimento econômico mas é também, o aprofundamento da dependência nacional que se dará pela ampliação do desamparo social, da precarização dos serviços públicos e da piora da qualidade de vida neste quase-país. É do que se trata!
(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG),campus Itumbiara)