Uma análise psiquiátrica da mente dos terroristas em Paris
Redação DM
Publicado em 17 de novembro de 2015 às 00:46 | Atualizado há 11 anosNota-se, por este e outros atentados, uma situação de “guerra” por parte do mundo muçulmano contra o Ocidente. Esse, de fato, em muitos casos – como por exemplo o dos EUA e dos países da Europa Ocidental – muitas vezes tenta ingerir desastradamente em suas ex-colônias ou pólos de interesse. Os “valores ocidentais” não coadunam com os do Islã, sendo esses últimos baseados na “autoridade de Deus”, na “autoridade do sexo masculino”, na “autoridade do pai”, na “autoridade vertical”, na força da arma, na “autoridade moral”. O Ocidente vive uma agenda oposta a esta : rebaixamento de Deus, rebaixamento do sexo masculino, rebaixamento da autoridade, da força econômica, da força política, da força armada, da força impositiva, da força moral, enfim , uma busca da igualdade “horizontal” de todos. O exemplo típico desta “revolta ocidental contra a autoridade “ é aquela cena ocorrida no Brasil, na vigência da visita do Papa ( “símbolo” de Deus, autoridade, moral, sexo masculino, etc ) : mulheres e homens nus na rua, masturbando-se analmente com um crucifixo ( algo completamente impensável face ao respeito exigido pelo Alcorão, por Maomé, por Alá, no mundo islâmico ). Como já dizia o cientista político Samuel Huntington, é um verdadeiro “Choque de Civilizações” ( ele tem um livro muito interessante sobre isso ). O mundo do Islã ainda vive a vigência da “autoridade divina”, sobretudo neste momento onde só sobra à “autoridade divina” a luta contra as corruptas “autoridades humanas” que dominam a geopolítica muçulmana há séculos. O fator de coesão político contra a “autoridade corrupta dos homens” , no mundo islâmico, não é a “comunidade geral” , como no atual mundo ocidental, herdeiro da “democracia grega” e do “anarquismo bárbaro-germânico” . A coesão no mundo islâmico, marcado pelo forte patriarcalismo, dá-se pela via da religião. Eles buscam, em Alá, uma “autoridade maior” longe da autoridade corrupta dos homens. Sobretudo os jovens muçulmanos – que são muitos por causa do estímulo à natalidade – revoltam-se contra os “homens corruptos” mas, ao contrário dos ocidentais, não se fixam na “autoridade da coletividade”, mas sim na “autoridade de Alá”. Os jovens muçulmanos – hoje turbinados pela era da internet no celular – estão revoltadíssimos com suas condições de vida, vivem na pobreza, entre muitos outros irmãos ( sofrem carências psicológicas inerentes às famílias muito numerosas ), sem empregos, em locais superpovoados e carentes de recursos, tecnologia, instrução, trabalho. Sem perspectiva, sem empregos, sem estudo, sem motivação familiar-afetiva adequada, premidos pela política opressiva e pela economia cambaleante, entregam-se à “solução final”, ao suicídio, ao martírio, ao terrorismo.
No Ocidente, suas comunidades , seus valores, fecham-se em “guetos”, sua cultura insere-se mal à ocidental. Passam a discriminar e serem discriminados. Também albergam em suas fileiras aqueles jovens ocidentalizados, “muçulmanizados”, jovens em busca de um “sentido trágico”, um “sentido guerrilheiro”, à vida. A vida no mundo ocidental, sobretudo no hemisfério norte, fixou-se numa certa “acomodação”, não há mais “grandes lutas” pelas quais a juventude possa animar-se. O comunismo-socialismo mostrou-se inviável, a religião morreu, a mobilidade social-econômica é cada vez mais difícil , pois a “social-democracia” engessou a classe média em uma “vida comum, igualitária” sem ambições ( é cada vez mais difícil – e inútil – empreender ) , ao mesmo tempo que fixou a classe rica em ganhos cada vez maiores ( vide T. Piketty – O Capital no Século XXI ) . A “energia jovem”, no mundo ocidental, já não tem mais onde buscar saída : na “esquerda” não há mais justificativa técnica ( não funcionou ) e na direita não há mais justificativa moral ( “somos contra a autoridade” ). Sobra, entre os jovens ocidentais mulçumanizados o recurso à “autoridade de Deus”, uma “autoridade acima de todas as outras”. Pensam, então, estarem encetando uma “guerra santa”, a mais “fanática de todas as guerras”, contra os valores autoritários do mundo ocidental ( “eles ainda nos vêem como colônias”, “nos usam para seus interesses”) e , paradoxalmente, também contra seus valores anti-autoritários ( “não queremos a imoralidade na qual eles se afogam”).
O jovem, pressionado pelos hormônios agressivos, hormônios anti-autoridade, já são necessariamente propensos à violência. A isto se junta seu vazio afetivo ( famílias muito numerosas geralmente não dão afeto), econômico, político. Este “desespero existencial” encontra uma saída moral : “Deus” ( Alá ). Em muitos locais do mundo muçulmano, ou mesmo do mundo ocidental muçulmanizado, a “bomba psicológica” está armada : são meio que “Meninos Perdidos na Terra do Nunca”. Estão sem o “doce afeto da mãe” ( premida por muitas obrigações, sofrimentos, responsabilidades, prole numerosa ) e sem a “amorosa autoridade do pai”. Um pai adequado pode bloquear a agressividade de um filho com uma junção de amor e disciplina. Apenas disciplina, frieza, obrigação, autoritarismo, sem o correspondente amor, podem canalizar a agressividade juvenil contra “a autoridade paterna ressentida como asfixiante” e projetá-la nas autoridades externas ( EUA, Ocidente ). O Alcoorão, o mundo emocional, psicossocial, familiar, psicopolítico, muçulmano, impedem a “revolta contra o pai”, daí esta revolta é projetada contra o “outro”, aqui no caso contra o mundo ocidental e seus valores ( ou anti-valores ). O sexo masculino muçulmano ainda é uma figura de grande autoridade, tem forte ascendência sobre a mulher, daí talvez a despreocupação com a poligamia, com a prole numerosa, com o grande número de filhos que podem servir de exército em uma psicológica guerra santa, política, econômica. No entanto, esta “explosão demográfica” juvenil, masculina, em tempos de internet, volta-se contra as figuras de autoridade. Acontece que as figuras de autoridade do próprio mundo muçulmano ( “homem”, “pai”, Alá, sacerdotes, poder do sexo masculino, valorização da força, etc ), assim como suas figuras de afeto ( família, camaradagem, “grupo dos homens”, etc ), não podem ser desafiadas, justamente porque o mundo muçulmano, por definição, as criou e as protege. Sem poder desafiar as figuras de autoridade dentro do próprio mundo muçulmano, os seus jovens projetam esta insatisfação sobre a “autoridade opressora e imoral do outro”, aqui, no caso, estando o outro consubstanciado no Mundo Ocidental.
Um exemplo típico do que foi dito acima é a constelação psicológica da família numerosa : ao mesmo tempo é “fria” ( de modo geral a mãe não tem tempo, o pai não tem amor ) e é “quente” ( o jovem se une aos irmãos, se une a outros jovens, como os “Meninos Perdidos na Terra do Nunca” da história do Peter Pan ). Esta “união” no “clube do bolinha” gera uma “grande intimidade” do homem com seu próprio mundo masculino, aí incluso o mundo do seu próprio pai. O pai, portanto, não é visto como ausente, autoritário, frio, justamente porque comunga do “mundo masculino” dos demais filhos, aquele dos “Meninos Perdidos”. É visto não como opressor, mas como “igual”. Não há, no mundo muçulmano, como acontece no mundo ocidental, uma ruptura entre o mundo dos adultos ( autoridade ) e o mundo dos jovens ( os esmagados pela autoridade ). Essa dicotomia, ao contrário daquela do mundo ocidental, que se ataca a si mesmo ( nossos jovens geralmente são contra os pais ) , é projetada para fora, gera uma “luta contra o outro”. O “outro” é exatamente o Ocidente. Mas, o Ocidente não é também “anti-autoritário” ? Sim, e é aí que a mente do jovem muçulmano promove uma nova reviravolta : “sou contra o desrespeito que eles têm pela autoridade , por Alá, e também sou contra a autoridade que eles “exercem sobre nós”, querendo nos controlar como colônias”. De fato, esta “reviravolta psicológica” expõe uma falha moral do mundo ocidental: ao mesmo tempo em que este se diz “anti-autoritário” para o consumo interno, mostra-se “autoritário” quando é para ingerir , por motivos econômicos e geopolíticos, no Oriente Médio.
(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra, escreve às terças, sextas, domingos – E-mail : [email protected])