Brasil

Uma visão revolucionária da assistência psiquiátrica no governo Marconi

Redação DM

Publicado em 30 de junho de 2016 às 21:39 | Atualizado há 10 anos

Quando era coordenador de Saúde Mental do Estado de Goiás, segundo Governo Marconi, fui demitido sumariamente, motivos “políticos” que nunca me foram revelados (também não quis saber, pois não sou político e não tenho interesse na máquina pública; só me contento de não tê-lo sido por incompetência técnica ou desvio moral). Então,  eu teria muitos motivos para ser “contra o Governo Marconi”, né? Pois é, não mais pisei lá, politicamente, e já estamos no quarto Governo Marconi… No entanto, se não por idoneidade moral, pelo menos por idoneidade intelectual, não posso atacar coisas que julgo corretas neste Governo. Critico, até  publicamente coisas que julgo inadequadas, mas temos de ser honestos e elogiar as corretas. É importante dizer isso nesta época de exigência de transparência, para justamente evitar o epíteto de “interesseiro puxa-saco”. Marconi vem-se insurgindo heroicamente, em algumas frentes, contra a política esquerdista/estatizante anti-médica anti-hospital anti-iniciativa-privada instalada no Ministério da Saúde há décadas (…E sem nenhum apoio institucional de Entidades Médicas… aliás, a maioria parece mais “pelega do esquerdismo/estatismo” federal…) Vejamos um exemplo abaixo.

O governo do Estado de Goiás inaugurou um hospital psiquiátrico muito bem aparelhado para o tratamento de toxicomanias graves (Credeq) – sobretudo aquelas relacionadas a outras doenças mentais, que são muito comumente associadas à dependência química, tais como doença bipolar, hiperatividade, distúrbio de conduta, distúrbio de personalidade borderline, antissocial, lesões cerebrais, esquizofrenia, etc.

A assistência às toxicomanias requer uma rede assistencial complexa, com ambulatórios psiquiátricos, hospital-dia, “casas de recuperação” (estas sobretudo para casos sem grande gravidade psiquiátrica ou sem outras co-morbidades clínicas e psiquiátricas, além da drogadição em si).

Há alguns pacientes que conseguem sair das drogas com tratamento médico-psiquiátrico ambulatorial, ou indo para uma instituição tipo hospital-dia, centro-dia, Caps AD, ou ficando alguns meses longe das drogas (“casas de recuperação” – algumas delas dispõem de médicos, ou mesmo psiquiatras, semanalmente ou quinzenalmente, algumas estão se organizando para tê-los até diariamente). No entanto, há uma gama muito grande de pacientes que não conseguem a recuperação com esses dispositivos institucionais listados acima, e irão precisar da internação psiquiátrica hospitalar especializada em toxicomanias. Aí entra instituições como o Credeq (“Centro de referência em dependência química”). Mesmo os pacientes toxicômanos “mais leves”, os que ficam, p.ex., em fazendinhas, chácaras, casas de recuperação, comunidades terapêuticas, precisam de atendimento médico-psiquiátrico adequado, tanto durante a internação, quanto após o fim do isolamento terapêutico. Sem um diagnóstico/tratamento corretos, muitos recaem logo após o primeiro dia de colocarem o pé na rua. Por exemplo, um paciente depressivo, ansioso, fóbico, pode até passar 9 meses isolado numa casa de recuperação sem usar drogas; no entanto, sem diagnostico/tratamento adequados, tão logo ele volte para um ambiente estressante, ou para um ambiente onde haja disponibilidade da droga, ele pode voltar a deprimir, a ficar ansioso, impulsivo, compulsivo, e então volta para a droga, e todo o trabalho feito vai por água abaixo. A compulsão intensa da drogadição também faz com que muitos não consigam ficar livres dela enquanto estão em ambiente aberto, seja no ambulatório, seja no hospital-dia.

Então, a toxicomania, como qualquer outra condição médica, tem graus de gravidade, e alguns necessitam a hospitalização, assim como outros irão melhorar no ambulatório, outros no hospital-dia, centros-dia, Caps AD, outros em comunidades terapêuticas. Parece tão óbvio… mas não é. Por exemplo, tanto o próprio Ministério da Saúde, quanto algumas unidades de saúde mental públicas, são contrárias à hospitalização psiquiátrica, inclusive para tóxicomanias… Mas isso acontece não por motivos técnicos-científicos, mas sim por motivos políticos (“valorização preferencial e exclusiva do que é estatal/governamental”, “ataque ao hospital psiquiátrico capitalista não-estatal”, ataque ao “truculento empresário da saúde”, “ataque às fanatizantes/proselitistas entidades filantrópicas/religiosas”) ou por motivos profissionais-corporativistas (“defesa de empregos no governo” – que tem mais é ambulatórios , centros psicológicos-sociais; “luta contra o poder médico-autoritário dentro de hospitais”; “luta contra a “medicalização” de problemas psiquiátricos”– ditos como “problemas sociais”; “luta pela liberdade e pelos oprimidos”, etc). Evidente que, quanto mais uma corporação profissional não-médica ataca uma corporação médica, politicamente melhor para ela… Inclusive até me disseram que alguns centros ambulatoriais não-medicalizados do governo estariam tentando boicotar o Credeq, “abominável entidade médico-hospitalar”, para a qual “não mandariam pacientes”, “não precisamos de hospital”, “não vamos mandar para lá gente para ser presa”, “gaiola dourada”, “estrutura comandada por médicos”, “estrutura nas mãos de organizações sociais”, “estrutura ligada à Igreja”, “vai que funciona e a gente acaba ficando sem emprego aqui no Governo…”, etc . O Credeq não precisa ter medo nenhum de boicotes desse tipo : o que funciona aparece, conhece-se a árvore é pelos frutos; laranjeira carregada é que leva pedrada…

É claro que o bom hospital, como acho que o Credeq é, e o será, tem de ter também dispositivos adequados de pós-alta, tais como ambulatórios especializados, psicoterapia, centros-dia (unidade intermediária entre a internação e o ambulatório), etc.

O Governo Marconi inova porque dá para a população algo que é “tabu”, execrado, no seio do Governo Federal, no seio da esquerdização/estatização dos serviços públicos de saúde. Inova também ao ceder a administração e manejo técnico-científico da unidade para uma entidade sem fins lucrativos, organização social. Por tudo isso vem sendo intensamente atacado em alguns meios, sobretudo porque não querem que seja uma “vitrine do que funciona” para o resto do Brasil. Infelizmente, ao meu ver, nossas estruturas públicas de saúde federais, algumas municipais, ainda padecem de uma visão “estatizante exclusivista” da assistência médico-hospitalar (sistema “Único” de saúde), assistência esta que, como mostram as estatísticas (suicídios, drogados nas ruas, doentes encarcerados), não vem sendo eficiente – entre outros motivos, porque, oportunisticamente, por motivos políticos-corporativos, demoniza a figura do médico (“autoritário”, “orgulhoso”, “carceireiro”, “castrador”, “reducionista”, restritor de liberdade), abomina a estrutura do hospital (“empresa de saúde”, “segregador”, “manicômio”, “assassino de liberdades”).

É por isso que, em minha opinião, Marconi teve a atitude visionária de ver além de preconceitos políticos e corporativo-profissionais, abrindo, pioneiramente, uma nova frente na assistência psiquiátrica no Brasil.

Manifestação de conflito de interesses: não sou ligado de modo algum, política, financeiramente, ao Governo Marconi, aliás, já fui até demitido de cargo público comissionado, tendo, então, até motivos personalísticos para ser, em certo sentido, “antigoverno”. Portanto, não tenho motivo político nenhum para estar defendendo Governo nenhum. Não tenho vinculação políticoeconômica nenhuma, com o Credeq, inclusive, sendo eu diretor de hospital filantrópico que também atende toxicômanos, e deveria é estar com inveja, despeito, e medo do Credeq me retirar pacientes… Manifesto esta opinião, neste caso “pró-Governo” (assim como em outros casos já fui “opositivo-Governo”) porque tenho visto muitas injustiças com o Credeq e sua filosofia de atuação. É uma importantíssima instituição, que prestará serviços enormes para nossa população.

 

(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra)

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