Valorização do real
Redação DM
Publicado em 23 de setembro de 2016 às 02:19 | Atualizado há 10 anosNo primeiro dia de 2016, o dólar estava cotado a 4,03 reais, no Brasil, e esse era um fator de descontentamento político por parte de uma camada da sociedade brasileira. Oito meses depois, no final de agosto do mesmo ano, a moeda estadunidense fechou com uma cotação 20% mais baixa (3,20 reais). Se esse cenário satisfaz um aspecto dos anseios de parte da camada média, qual sejam as frequentes viagens ao exterior, por outro lado, a situação macroeconômica brasileira sofre com a referida situação.
A grande questão dessa valorização do real é que a economia brasileira vive um decréscimo de crescimento desde 2014, após o aumento de 3,02% do PIB, em 2013. A forma mais viável de reversão desse cenário é por meio do aumento das exportações, que deveriam ser estimuladas pela política cambial do governo. Exportações são um importante fator de crescimento econômico, além de serem geradoras de emprego.
No entanto a forma como o governo trata o câmbio é política. A valorização do real beneficia claramente o grupo que atua no mercado manual de câmbio — tendo como principal fim viagens internacionais — e os investidores estrangeiros que colocam dinheiro no Brasil. Enquanto Alexandre Tombini ainda era presidente do Banco Central do Brasil (BCB), sempre que o dólar começava a desvalorizar-se demais, contratos futuros eram realizados com o mercado, com o objetivo de manter-se a taxa cambial e, consequentemente, protegerem-se as exportações. Porém, com Michel Temer nomeando Ilan Goldfajn para a presidência do BCB, essas operações acabaram. Essa não intervenção encoraja a injeção de dólares por parte de estrangeiros e, por conseguinte, desvaloriza a moeda.
No cenário econômico brasileiro atual, o combate à inflação como um argumento à valorização do real é altamente questionável, pois o Brasil tem uma economia indexada. Para tanto, mesmo com baixo crescimento econômico, com taxas de juros bastante altas, em relação a qualquer outro país, e com o dólar desvalorizado, o combate à inflação atual dá pouquíssimos resultados. A título de comparação e entendimento dessa indexação, tem-se como exemplo a Grécia: após a recessão e a crise econômica no país, houve um período de deflação que começou em 2013, com previsão de fim em 2017. No Brasil, contrariamente, após crescimento praticamente nulo, em 2014, e decrescimento em 2015, teve-se o aumento da inflação de 6,87% para 7,97%, nos mesmos períodos, respectivamente, e um aumento acima de 8% em 2016. E acrescenta-se a isso o aumento constante e sem sucesso da taxa de juros nesse período para combater-se o índice de preços. Dessa forma, tais políticas de combate a uma inflação indexada fazem com que o endividamento do País aumente e, igualmente, o fornecimento de oportunidades para investidores estrangeiros ganharem diante da situação do Brasil.
Tomando como exemplo a relação entre taxa de câmbio e juros atuais no Brasil, a situação é preocupante. Os juros de 14,25% atuais atraem capital estrangeiro para comprarem-se obrigações do governo. Com o dólar a 4,03 reais, essa situação era mais estável para o País, visto que, para tirarem o dinheiro que haviam usado nessas obrigações, investidores tinham que arcar com um custo maior. Com a valorização do real, contudo, o governo abre espaço para que esse capital saia de forma menos dispendiosa, fazendo com que investidores ganhem nos juros e na taxa de câmbio — dois fatores econômicos que, na nossa atual situação econômica, deveriam ter como finalidade o combate à inflação. Mas, como isso não é feito, acaba-se gerando mais dívidas ao governo. Essa situação é clara na balança de pagamentos brasileira, com um aumento de 1.093,67% do déficit da renda de investimento em carteira de junho para julho deste ano. Além do mais, essa taxa altíssima de juros estimula o investimento de empresas brasileiras em obrigações do governo ao invés de investirem no seu desenvolvimento. Outro fator importante a ser considerado é o aumento da expectativa de déficit na balança de pagamentos brasileira em relação ao PIB por meio do estímulo à importação, que já teve um aumento de 31,4% de janeiro para junho deste ano.
Essa política tem semelhança com o aumento da taxa de juros do governo Fernando Henrique, de outubro a novembro de 1999. Em um momento em que o País sofreu um aumento inflacionário de 13,29% (de 7,5% para 8,65%), a taxa de juros aumentou 36,46% (de 25,49% para 40,18%) e fechou o ano a 19%, com a inflação ainda sofrendo um aumento de 8,94%. Tais políticas atraem capital externo, porém às custas do aumento dos gastos do governo e da maioria da população.
Enfim, pode-se afirmar que, para a maioria da população, essas políticas não são benéficas, pois ela sofre com a inflação e, ainda, elas promovem considerável concentração de renda.
(Vítor Neves, estudante de Relações Internacionais na Universidade Católica de Brasília)