Venda nos olhos
Redação DM
Publicado em 29 de fevereiro de 2016 às 00:06 | Atualizado há 10 anos
Dona Ranulfa, enceguecida pelo fanatismo religioso, e dominada por dogmas e formalismos arcaicos, passara a odiar encarniçadamente a própria filha tão somente porque esta fora desvirtuada sem ter se casado, e sua religião, embora falasse do Cristo e do seu grande amor por todos nós, jamais soube compreender e perdoar as adúlteras, como fez o próprio Mestre da Bondade, recuperando Madalena e apontando-lhe o caminho apertado da redenção.
Sua filha lhe dera um netinho que passou a ser, não sabemos por que mistérios, o alvo de sua veneração, embora não aceitasse, nem mesmo, qualquer alusão à filha que, para ela, “já estava irremediavelmente perdida”; devotava-lhe tamanho ódio que a expulsou do lar, retirando-lhe o filhinho. De nada valeram os veementes apelos da filha, rogando-lhe o perdão e o filho de volta.
— Suma daqui, mulher imunda! E espumando de cólera, acrescentava: Mulher de Lusbel! Só desejo que as labaredas do inferno a castiguem para todo o sempre.
A jovem era escorraçada da casa de sua mãe qual cão leproso, toda vez que ia ali visitar o seu filhinho e, de coração lanceado, retornava à residência de uma parenta onde então vivia, sem ao menos ver o rebento que tanto adorava.
Certa vez o garotinho — de 5 anos — estava na rua em companhia de sua avó, quando avistou sua mãezinha. A criança exultou de alegria e gritou: “mamãe!” Queria correr até onde ela estava, mas foi impedido por Dona Ranulfa, que lhe deu umas boas palmadas, dizendo-lhe:
— Se você caminhar um passo ao encontro de sua mãe, ou se disser mais uma palavra, eu lhe darei uma surra que jamais se esquecerá!
Foi então que vimos um quadro aterrador: o menininho, fitando a mãe, sorria de felicidade, mas ao mesmo tempo chorava de medo da avó; queria correr para junto dela, mas a custo retinha os impulsos, retesando os próprios braços e as pernas, como se tentasse paralisar qualquer passo em direção à mãe tamanho era o receio que a matrona lhe inspirava.
— Vamos menino! Gritava Dona Ranulfa, puxando– o pelos braços. Mas as perninhas da criança, trêmulas, não obedeciam. Ele estava imóvel, braços e pernas retesados, ora rindo ora chorando, fitando a mãe que se aproximava também, de olhos inundados de pranto.
— Meu filhinho! Disse a jovem reclinando-se para abraça-lo. Mas foi violentamente esbofeteada pela mãe que espumava de ódio.
— Não o toque, mulher asquerosa! Víbora! Eram as palavras de Dona Ranulfa, cujos olhos pareciam soltar chispas de fogo e revolta, cólera e maldição.
— Acalme-se, mamãe… Só quero beijar o meu filhinho.
— Não, não!
E para que a genitora não sofresse outra de suas habituais crises de nervos em plena via pública, a jovem foi se retirando cabisbaixa, a soluçar, e com as mãos nos olhos, pois não queria que seu filhinho a visse chorando; mas o garotinho quis acompanha-la e, ao vê-la ainda tão perto, lançou-se para ela, gritando:
— Mamãe, eu quero ocê! Eu quero ocê!
— Filhinho — Explicou a mãezinha — você sabe que a vovó não vive sem você.
— Mas ela disse que vai viver lá no céu com Jesus e que a senhora vai morar no inferno. Ela não precisa de mim porque vai ser feliz com os anjinhos. A senhora vai precisar de mim lá no inferno. Eu quero ir com a senhora, mãezinha! Não deixe o seu Betinho não, mamãe! Eu vou morar no inferno com a senhora, tá mãezinha? Tá? Heim, mamãe, tá? E a sacudia pelo braço.
A pobre Dona Ranulfa, escutando isso, gritou desesperada, receando perder o netinho:
— Meu Deus! O Demônio já o dominou também! Venha com a vovó, Betinho… Assim, Jesus não gosta de você…
— Num faz mal… Se ele não gosta da mamãe, eu também não gosto dEle!
— Betinho, disse a vovó em tom de bondade — o que você quer p’ra vir comigo?
— Eu quero a mamãe. E ficando alegre de repente, como se tivesse encontrado a solução para o problema, propôs:
— Vovozinha, vamos levar a mamãe conosco, vamos? Vamos, vovó, vamos! Vaaaamos, vó!
— O que é isso, menino? Ela tem o diabo no corpo!
— Nois reza p’ra ele, vó… E ele acaba ficando bonzinho e nóis tudo fica morando junto. Esclareceu a criança.
Nem assim a fanática tirou a venda que lhe obscurecia o espírito; vendo que perdera o netinho e acreditando que sua filha jamais alcançaria a “salvação”, saiu a correr pela rua, gritando, gesticulando, chorando, completamente louca.
O fanatismo
é treva na alma,
e não o caminho
para o céu…
Jesus amou a todos,
mesmo os criminosos,
os próprios verdugos
e os adúlteros,
ensinando-nos,
a todos,
que a todos
devemos
também
amar.
Ninguém,
que ama a Jesus,
tem o direito
de julgar…
Só a Ele competia
fazer qualquer julgamento,
porque só Ele
é Perfeição,
Justiça
e Amor…
No entanto, disse
que não cabia,
a Ele,
julgar a ninguém.
E com que autoridade
nos arvoramos
em juízes dos outros?
Parece que os Índios Sioux,
embora a sua condição
de selvagens,
pensavam melhor
que muita gente,
pois oravam assim:
“Pai, ajuda-me
a nunca julgar o próximo
antes que eu tenha andado
sete dias
com as tuas sandálias.”
(Iron Junqueira, escritor)