Vitória da mandioca
Redação DM
Publicado em 19 de outubro de 2016 às 00:50 | Atualizado há 10 anosNárcia Kelly, prefeita eleita de Bela Vista de Goiás, sofreu todo o tipo de preconceito durante sua campanha: por ser jovem, mulher e ter origem numa comunidade de pequenos produtores rurais que se dedicam à plantação de mandioca para a produção de polvilho.
Ao contrário de São Paulo, onde o caviar ganhou as eleições, em Bela Vista quem ganhou foi a mandioca. A mandioca, ou melhor, o polvilho, é uma das marcas fortes e consolidadas do município, que inclusive projeta o nome da cidade regional e nacionalmente. Quem não conhece, ou já ouviu falar do Polvilho do Cará?
A mandioca é um alimento riquíssimo no Brasil, base da alimentação em várias regiões e responsável pela produção de vários alimentos importantes no território nacional, como a farinha, a tapioca e o polvilho, além de ser consumida de várias formas: quem não gosta de um delicioso churrasco com mandioca cozida?
Ao falar de mandioca e, principalmente de polvilho, vem à mente o maravilho pão de queijo, consumido e apreciado no país inteiro e que fez de Minas Gerais o seu berço. E a farinha de mandioca, apreciada de norte a sul, base da alimentação e da economia de várias cidades no norte, nordeste, centro-oeste e sudeste. Então estamos falando de um produto extremamente importante para a seguridade alimentar do Brasil. Essa é a querida mandioca.
Discriminação
Mas a mandioca, com exceção de alguns produtos que hoje estão na mesa da elite brasileira como a tapioca e o pão de queijo, sempre foi vista pelos abastados como um alimento de animais e de pessoas pobres, das regiões afastadas e tradicionalmente pobres, esquecidas, abandonadas e largadas à sorte. Apesar da sua importância econômica para o país, produzir mandioca e seus derivados ainda não é uma atividade chique como produzir soja, milho e criar gado. Ainda é vista por muitos como uma subatividade, sem valor, desprezível. Coisa de pobre e pequenos agricultores sem muita opção.
Esse preconceito, essa discriminação ficou clara durante a campanha eleitora na cidade goiana de Bela Vista, distante 45 km da capital, Goiânia. Lá uma moça de origem rural, filha de pequenos agricultores, que já se formou nos bancos da faculdade de direito, resolveu enfrentar a elite política e econômica da cidade e saiu candidata a prefeita. Na verdade, para alguns, uma ideia absurda, onde já se viu uma pessoa de origem humilde, filha de plantadores de mandioca, jovem e ainda mulher querer ser prefeita numa cidade onde a economia é totalmente agropastorial, baseada na pecuária leiteira (produção e agroindústria), na criação de gado de corte e plantação de lavouras, principalmente soja. Essa decisão dessa jovem não entrou na cabeça de muita gente e a disputa eleitoral foi o ambiente ideal para aflorar todos os preconceitos que perpetuam em nosso país, deste às capitanias hereditárias, onde quem sempre dominou foi o dono das terras e do dinheiro.
O modelo é sempre o mesmo: quando não se tem argumentos, propostas e soluções, a saída é ir la no baú das maldades e trazer para fora os preconceitos que alimentam o atraso por esse Brasil afora. E foi assim em Bela Vista. Quando perceberam que essa jovem estava ganhando a simpatia do eleitorado local a passos largos, a elite política local lançou mão do preconceito como marketing político e passou a referir-se à jovem como “aquele mandioqueira”, uma referência à sua origem rural e trabalhadora. Como que dizendo, além de ter essa origem pobre, essa mulher não vai conseguir administrar nossa cidade. Além do preconceito à atividade econômica da família da jovem, um claro preconceito e discriminação à mulher, como um ser incapaz na sociedade. Mas os tempos são outros. A população não aceitou a discriminação e passou a usar a expressão mandioqueira como uma referência de garra, de luta, de honestidade e de resistência. O povo resistiu e deu o troco nas urnas. Os endinheirados perderam a eleição e agora estão proibidos de comerem farinha, pão de queijo e mandioca cozida.
Polvilho do Cará
Mas o que é preciso informar que a região do Cará, em Bela Vista, que dá o nome ao Polvilho mais conhecido no Estado de Goiás e de melhor qualidade, é uma comunidade rural de pequenos produtores e trabalhadores rurais, organizados em uma cooperativa e que produzem o excelente “Polvilho do Cará”, uma das marcas fortes do município. Essa comunidade, sabiamente descobriu um nicho de mercado e com as habilidades de produtores de polvilho (amido do mandioca), ao longo do tempo se organizaram, formaram uma cooperativa e hoje são grandes produtores de polvilho. Essa comunidade é um exemplo de resistência rural no Brasil, pois estão produzindo no campo, transformaram suas vidas, vivem com qualidade em suas pequenas propriedades, desenvolvem uma atividade que agrega valor à mandioca e criaram uma marca para esse produto, além de terem o controle da comercialização do Polvilho com marca própria. É bom a elite política de Bela Vista abrir o olho, por que além de polvilho, a comunidade do Cará também aprendeu a produzir lideranças políticas: nessas eleições eles elegeram a prefeita da cidade e um vereador para a Câmara Municipal. Vejam o que um trabalho organizado não é capaz de fazer.
Rosimar Silva, jornalista