Xícara de asa quebrada no ano novo
Redação DM
Publicado em 2 de janeiro de 2016 às 22:15 | Atualizado há 10 anos
Não sou supersticioso nem receio a influência maligna de coisas fantásticas. Gente há que, ansiosa de prosperidade, crescimento, dinheiro no bolso nos próximos 12 meses, já fez seu prato de lentilha, senão colheu já a sua romã (símbolo de abundância na cultura hebraica) ou suas uvas, quer temperou a sua carne de porco.
Há os que apreciam, na virada do ano, amoitar a sua folha de louro e também varrer a casa do fundo para a entrada.
Tais neuroses, porque são decididamente neuroses, não param aí não.
Nas culturas asiáticas, o macarrão simboliza uma longa vida, talvez porque é longo. É importante, na passagem, não cortá-los em tamanhos menores. A gente deve tentar ingerir fios inteiros dele e, assim, terá mais sorte.
Culturas creem que uma travessa de ervilhas atrai bonança.
Os suecos, por exemplo, comemoram a virada do ano com fartura de frutos do mar, incluindo conservas.
Eu, por minha vez, repito não ser nem um pouco supersticioso.
Mas, mas, ainda assim, não me senti nem um pouco inclinado a tomar café naquela xícara de asa quebrada. Afastei-a de mim como algo ruinoso e peguei outra chávena na bandeja da cozinha. Pra quem ainda acalenta mais sonhos, ideais de alçar voo, beber em xícara de asa quebrada?
Nem pensar.
(Pedro Nolasco de Araujo, mestre, pela PUC-Goiás. Em Gestão do Patrimônio Cultural, advogado, membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI)