Zero X Zero
Redação DM
Publicado em 31 de janeiro de 2016 às 23:11 | Atualizado há 10 anos
A revanche trazia-lhe à boca um gosto de sorvete de jaca com mel de engenho toda vez que relembrava daquele massacre. Uma bomba, como tinha sido a bomba dos 7×1 ocorrido antes do escore teuto-brasileiro, hecatombe que nos fizera espichar o beiço e que ensejou qualquer portenho orêia-seca a jactanciar-se de que o camisa 10 deles foi e continua sendo melhor do que o nosso.
Quando me falam daquela tunda, de pirraça, faço de conta que sou um figurão sobranceiro e digo que não vi nada e que não sei de nada. Mas Nico, o dono e técnico do time, continua entalado com o desaforo engolido quando o time de lá quis tomar-lhes as chuteiras, a bola, a camisa, meias e calção e os de cá, argumentando choroso que a lei só permite tomar as coisas do perdedor caso o placar atinja ou ultrapasse 11×0, e os vitoriosos – descendo a mutamba sem dó – contra-argumentando que fossem queixar ao bispo, por que o nosso esquadrão matador não quer esse troféu de guerra fedorento; com essa mulambeira toda, – denotavam eles– vamos fazer uma fogueira dessa altura aqui ó, e ademais, 7×1 ou 11×0 não altera a ordem dos fatores porque lá no âmago das coisas o que vale mesmo é o intento, isso já dizia Platão a um monte de alunos e quem quiser ir pro xilindró – continuavam a matraquear – que se descumpra a lei de talião e aháiháihái daquele que jogou sem cueca porque vai ter que desfilar a buzanfa branquela por esse mundo afora.
Nico não entendeu bulhufas daquela xaropada, mas teve a leve desconfiança de que estavam gozando com sua cara ao citarem coisas sem pé nem cabeça como Platão, bastião e coisa e tal; que fossem xaropar o colarinho do palhaço e dos deputados, a meta agora era tirar o dele da reta e chupar o sangue daquela cambada enfiando, no mínimo, dez a zero no subaco daquele timeco ronquifuça.
Dia aprazado chegando, treinamento puxado, muito pirão de mocotó pra evitar branqueira na hora de peitar aqueles fí de quenga, nada de salto alto, humildade sem humilhação e aquele que tivesse pensando uma nesguinha, um fiapim de nada em amarelar e entregar a rapadura na hora do pegapracapá é só pedir licença pra ir cagar e de lá memo ó, zup, zunir no mundo pra não ter o gogó masgaiado por essas duas mãos aqui, tão vendo? – Enfatizou Nicodemos, mostrando umas mãozonas de segurar boi pelos chifres.
Dia D chegado, preces ascendentes aos céus evocando bênçãos divinas, matula nas capangas, cabaças cheias d’água e de Serra Dourada, ô pinga boa, caminhão buzinando, mulheres e filhos chorando na despedida, votos de vá e volte com Deus, e se embeiçar com alguma bunduda vai ter troco, óia lá hem!
Sol estalando mamona o jeito era engarguelar uma pra acalmar os nervos e assoprar o calor. Uniforme nos trinques com a logomarca NCSC, ou seja, Nic Corporation Sport Club, muito mais chique do que Nicodemos Corporação Esporte Clube, trem de jeca que não acompanha a evolução dos séculos.
De repente o apito espocou junto ao foguetório e teve início mais uma peleja no Coliseu do cerrado entre os gladiadores sedentos de sangue. A plateia, na beira do campo destorcido de retângulo para um paralelogramo, tecia elogios desairosos às mães dos adversários e do juiz. O placar seguia furioso em zero a zero, ninguém agüentando correr mais pra lado nenhum até que o juiz, numa ressaca desgraçada, não deu conta de desviar duma bicuda não sei de quem e paf, cai desmaiado e o inspetor de quarteirão (naquela época existia) querendo prender o atirador sob a acusação de tentativa de homicídio e o juiz, já acordado, mas meio zorocobó, encerra a perlenga e a coisa fica assim, com gosto de cabo de guarda-chuva pros dois lados.
Nico, esperando a tristeza chegar, entra no caminhão e buzina e buzina e após redige o seguinte telegrama prometido para a mulher-esposa aflita por notícias devido ao pavio curto que carregava.
“Viemo e cheguemo.
Joguemo.
Num ganhemo e nem perdemo.
Impatemo.
Vortemo.
Abracemo.
Nicodemo.”
(Alcivando Lima, escritor – [email protected])