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ELEIÇÕES 2022

As últimas fake news

Avalanche de notícias falsas nas eleições presidenciais obrigou TSE a implantar medida emergencial.

Em plena era da informação, nestas eleições presidenciais de 2022, as fake news é que fizeram história. E nessa reta final da disputa entre o ex-presidente Lula (PT) e o atual presidente Bolsonaro (PL), as notícias falsas são disparadas à revelia nas redes sociais e até por influenciadores e artistas. Mentiras, desinformação e factóides sobressaíram ao debate de ideias nesses pleitos, considerado um dos mais importantes dos últimos anos.

De acordo com levantamento da Palver e do NetLab, da UFRJ, além de dados das redes sociais coletados por Crowdtangle, o número de fake news envolvendo valores cristões, gênero e família aumentou 253%. As mentiras referentes a essa porcentagem envolvem as chamadas pautas de costume, com fake news que dão conta de que: Lula vai fechar igrejas, criar banheiro unissex ou Bolsonaro seria adorador do anti-cristo.

Levantamentos feitos por institutos e jornais sobre fraude eleitoral, inverdades sobre as urnas eletrônicas e notícias falsas apontam que houve um acréscimo de até 224% nessa última semana das eleições no segundo turno.

Para combater a guerra das fakes news, o Supremo Tribunal Eleitoral (TSE), aprovou uma resolução, na quinta-feira (20), em que conteúdos considerados falsos pelo próprio tribunal já poderiam ser retirados do ar imediatamente, sem a necessidade de abertura de nova ação ou julgamento.

Com a decisão do TSE, o fenômeno das fake news chamou a atenção do mundo. O jornal estadunidense, New York Times publicou uma matéria sobre tal resolução, que considerou “uma das ações mais agressivas tomadas por qualquer país para combater informações falsas”.

A matéria, que foi assinada pelo jornalista Jake Nikas, aborda a decisão como um teste, para controlar as fakes no mundo e também analisa o complicado contexto político, embaçado ainda mais pelas mentiras. Conforme a publicação, dos dois lados há alegações de que os candidatos seriam satanistas, canibais e pedófilos, sempre com distorções, falas tiradas de contexto ou mesmo montagens e adulterações de áudios e imagens.

Estratégias

As fakes news, para o cientista político, Pedro Célio, alteraram tremendamente o modo político no Brasil em que estão evidentes as estratégias de propagandas, as estruturas jurídicas montadas pelos candidatos. E, a grande marca desta estratégia no Brasil, para ele, foi a própria vitória de Jair Bolsonaro em 2018, com uso recorrente da força das fakes news.

“Naquela época, a desinformação nas redes sociais surpreendeu tanto opositores do Bolsonaro, como a Justiça Eleitoral. Agora, políticos, a opinião pública e a justiça estão mais vacinadas e criaram antídotos para as fakes. A Justiça Eleitoral está intervindo nas campanhas políticas, tentando um controle mínimo”, argumenta ele, ressaltando que pensa ser impossível controlar 100%, o chamado “gabinete do ódio”.

Atualmente, ele nota que a campanha de Lula também entrou na guerrilha nas redes sociais, com uma estratégia mais defensiva de antecipar as fake news.

“Se cria uma situação, seja nos palanques, debates ou campanhas, para que aquilo repercuta nas redes e, a própria forma de repercussão já é uma montagem, uma manipulação da verdade. Nesse aspecto, as trocas de inverdades são mais intensas: de um lado como estratégia principal, do outro como defesa mesmo. Foram mais intensas até que os debates de propostas”, esclarece.

De acordo com Pedro Célio, os eleitores também ficam na iminência de acontecer algum evento inesperado, os chamados factóides “O factoide é uma modalidade de fake news: um determinado candidato, ou campanha eleitoral, inventa uma situação para direcionar a atenção da opinião pública, ou mesmo para criar uma situação de tumulto na eleição”, explica.

O cientista destaca como exemplo de factoide recente, o caso da prisão do ex-deputado e presidente de honra do PTB, Roberto Jefferson. Na ocasião, que aconteceu no último domingo (23), ele disparou 50 tiros de fuzil e arremessou três granadas contra quatro policiais federais, que foram cumprir um mandado para levá-lo novamente para o regime fechado de detenção.

“O que aconteceu com Roberto Jefferson foi de uma estupidez sem tamanho, mas foi um fato que tentou desviar o debate eleitoral, de seu curso natural. Felizmente não deu certo para ele e para o esquema eleitoral do qual faz parte”, argumenta, Pedro Célio, que acha que uma das maiores fake news dessas eleições, o ex-candidato a presidente padre Kelmon, no último debate do primeiro turno, na TV Globo.

“Aquilo foi a maior fake news que poderiam inventar. Algo ridículo, o próprio padre foi uma fake e o modo que atuou no debate, desmoralizou os estrategistas do Bolsonaro e até a ideia que eles fazem de usar a eleição como arma eleitoral”.

Disputa entre influenciadores


		As últimas fake news
Felipe Neto (à direita) e Nikolas Ferreira (à esquerda) discutem nas redes por Lula e Bolsonaro, respectivamente.. Rariana Pinheiro

Alguns youtubers entraram de cabeça nas eleições mais digitais da história. Felipe Neto, por exemplo, bateu hoje 200 milhões de views em vídeos em que desmente notícias falsas espalhadas por bolsonaristas e defende Lula.

Em um de seus vídeos, Felipe Neto, desmente fake news sobre o ex-presidente não ser cristão, Brasil virar Venezuela, entre outros clichês da campanha. Mas ele foi rebatido pelo também youtuber Nikolas Ferreira (PL-MG), recém-eleito deputado federal em Minas Gerais, que por sua vez, considerou fake, as justificativas de Neto.

Porém, Nikolas foi obrigado a divulgar em sua conta no Twitter um direito de resposta a Lula da Silva (PT) após determinação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A publicação ressalta que: não consta (nem nunca constou) na proposta de governo Lula projeto de legalização de drogas ou aborto, que perseguirá cristãos ou que censurar redes sociais.

Depois do post, com parte da decisão, Nikolas, que foi o candidato a deputado mais votado do país, postou diversas vezes uma imagem que seria, supostamente, do presidente do TSE, o ministro Alexandre de Moraes, com uma orelha do personagem infantil Mickey.

Uma das primeiras fake news: a Carta Brendi


		As últimas fake news
Falsa carta falava do projeto de formação de uma “República Sindicalista”, por meio de movimento armado... Rariana Pinheiro

Em artigos publicados no DM, o historiador Rogério Lustosa já abordou que as fakes news já habitavam há muito tempo o território das eleições no decorrer da história política brasileira. No artigo “A Carta Brandi e a eleição de 1955”, ele contou os detalhes dessa publicação, que pode ser chamada de uma das primeiras fake news da política brasileira.

O caso aconteceu nas eleições de 1955, em que estava instaurada uma crise política, após Getúlio Vargas aumentar em 100% o salário mínimo e estatizar a Petrobrás. A oposição o acusava de corrupto, e que a economia não sustentaria tais condições.

“O desenlace da crise política que se viveu naquele último ano do governo Vargas todos sabemos: atentado da rua Toneleros, República do Galeão, suicídio do presidente, estado de choque da nação e posse do vice-presidente, Café Filho, que disse que apenas conduziria as eleições presidenciais do ano seguinte, previstas para 3 de outubro de 1955”, escreveu.

Nas eleições, os candidatos eram: o general Juarez Távora (UDN), Plínio Salgado (Partido de Representação Popular), Adhemar de Barros (Partido Social Progressista) e o Partido Social Democrático (PSD), o mais poderoso partido brasileiro à época, lançaram Juscelino Kubitschek. “Além da força do PSD, o partido do então finado Vargas, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) saiu em apoio à candidatura JK e lançará apenas o candidato à vice-presidente, João Goulart”, diz o historiador.

No dia 16 de setembro de 1955, o jornalista e deputado federal pela UDN, Carlos Lacerda, leu, na recém-fundada TV-Rio, a Carta Brandi, que foi publicada no Tribunal da Impresa. A carta, segundo o artigo, era um documento datado de 5 de agosto de 1953, escrita em papel timbrado da presidência da Câmara de Corrientes, cidade argentina, assinada pelo deputado peronista Antonio Jesús Brandi e dirigida à João Goulart, na ocasião ministro do Trabalho de Vargas e, agora, candidato à vice-presidência da República.

“Ela versava sobre a articulação sindical entre Brasil e Argentina, a criação de brigadas operárias e a compra de mercadorias na Argentina, as quais Lacerda interpretou que seriam armas para as brigadas. Enfim, era o projeto de formação da tal República Sindicalista por meio de movimento armado, numa associação Perón, presidente da Argentina – Vargas/Goulart”.

Os parlamentares do PTB solicitaram a abertura de um inquérito para apurar a autenticidade do documento. No dia das eleições, o telegrama ao ministro da Guerra, general Henrique Lott, afirmou ser “sumamente provável” a autenticidade da assinatura de Brandi no documento investigado. Porém, semanas após o pleito, no final de outubro, o general Maurell tornou público o relatório final que concluía a falsidade da carta Brandi. Mas, mesmo assim, JK venceu o pleito com 35, 68% dos votos.

Veja algumas fake news e direitos de respostas nas eleições:


		As últimas fake news
Mentiras, desinformação e factóides inundaram as redes sociais nesta eleições. Agencia Brasil.. Rariana Pinheiro

Lula vai fechar as igrejas
A fake é baseada em um print de um suposto Twitter do ex-presidente. Porém, trata-se de montagem, já que tal post não foi feito. A assessoria de Lula também nega tal informação.

Bolsonaro e o orçamento secreto

A ministra Isabel Gallotti, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ordenou direito de resposta para Jair Bolsonaro na campanha de Lula. O petista acusou Bolsonaro de ser o autor do Orçamento Secreto, promover cortes na educação e em investiment


		As últimas fake news
youtuber Casimiro declarou voto em Lula na publicação após montagem falsa compartilhada por Flávio Bolsonaro. Rariana Pinheiro

os no país.

Lula teve mais votos nos presídios

Campanha do ex-presidente Lula ganhou direito de resposta na acusação feita pelas pílulas de Bolsonaro. Presos não votam.

Rádio teriam feitos menos inserções para Bolsonaro

É falsa a denúncia da campanha de Bolsonaro sobre inserção maior de propaganda eleitoral do candidato Lula em rádios do Nordeste e Norte. O presidente do TSE, Alexandre Morais, arquivou a denúncia e abriu inquérito. O encaminhamento das inserções eleitorais não é de responsabilidade do TSE e a fiscalização deve ser feita pelos próprios partidos e veículos de comunicação.

Bolsonaro vai cortar 25% dos salários e pensões

Campanha de Bolsonaro ganhou direito de resposta no trecho que apresenta a mensagem que o candidato à reeleição não disse que cortará 25% dos salários e pensões. Na verdade, ele se referia a um projeto da Câmara dos Deputados, em 2020, para ajustar as contas dos estados e municípios, após a perda da arrecadação devido à pandemia.

Lula em liberdade provisória

Não é verdade que o ex-presidente Lula (PT) esteja em liberdade provisória e que essa condição o teria motivado a se candidatar à Presidência da República, como é dito em postagens. Ele foi absolvido pela justiça.

Funcionário do TSE fiscaliza jornalistas

É falso o vídeo que circula nas redes sociais de uma gravação de um programa da rádio Jovem Pan onde o locutor, que grava o programa pela tela do computador com a transmissão da atração, afirma que um homem que aparece andando durante a gravação é um funcionário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e que a rádio está sendo censurada.

Jean Wyllys vai assumir Ministério da Educação

Circula uma montagem em que Lula teria confirmado o nome do ex-deputado federal, Jean Wyllys, para o Ministério da Educação. A imagem imita a estética do portal G1, que negou a publicação de tal informação.

Cerveja muda rótulo para estrela verde e amarela

A imagem da cerveja Heineken com garrafas com número 22 e estrela verde e amarela, onde está escrito Brasil não foi produzida pela marca, que disse não apoiar nenhum candidato.

Youtuber Casimiro com o número 22

A imagem, que foi publicada também no Instagram do senador e filho de Bolsonaro, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), foi manipulada. O youtuber Casimiro segurava um balão com o número 29. Ele fez aniversário na última quinta-feira (20), desmentiu a foto e declarou voto a Lula.

Censo 2022 e imóveis para os sem-teto

Fake news informa que agentes do IBGE, que trabalham no Censo 2022, fazem perguntas sobre quantidade de cômodos, para que, no futuro, o imóvel seja compartilhado com as famílias sem-teto, dependendo do resultado da eleição. IBGE desmente informação.

Como evitar Fake News

Se atente à fonte: veja se o veículo é confiável, pesquise se grandes veículos de comunicação trouxeram tal informação.

Observe a escrita: as fake news tendem a apresentar erros e excesso de adjetivos, o que não corresponde ao padrão de reportagem

Preste atenção na data: a informação pode estar desatualizada e não ser relevante fora do contexto em que foi publicada


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youtuber Casimiro declarou voto em Lula na publicação após montagem falsa compartilhada por Flávio Bolsonaro. Rariana Pinheiro

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