Mestres da resistência
Redação DM
Publicado em 2 de agosto de 2023 às 23:37 | Atualizado há 2 anosMestres da resistência
Mestre Vermelho luta por mais fomento à capoeira em Goiás
Rariana Pinheiro
Mistura de luta e dança, de música e estratégia, de resistência e ancestralidade. Assim, a capoeira, que é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), da escravidão chegou aos dias atuais, graças aos mestres espalhados pelo país que apresentam essa cultura para as novas gerações e a levam para diversos cantos do mundo. Eles são os capoeiristas, cujo dia é celebrado na data de hoje, vivem e respiram a capoeira na luta contínua por sua valorização.
Um dos nomes importantes da capoeira angola de Goiânia é Vanderly Francisco de Oliveira, 60 anos, o Mestre Vermelho. Ele conheceu a capoeira regional através do mestre Zumbi, da Academia Cordão de Ouro, na década de 80, mas depois se encantou com a capoeira Angola de Pastinha, com Mestre Boca Rica.
Depois disso, foi para Salvador, onde morou e jogou capoeira. De volta a Goiânia, criou, juntamente com outros mestres e mestras, a Associação de Capoeira Angola do Estado de Goiás e o Grupo Só Angola/Ponto de Cultura Buracão da Arte. Sendo assim, se dedica exclusivamente à capoeira Angola, dá aulas, confecciona instrumentos e ensina a tocá-los.
Em conversa ao Diário da Manhã, ele explica que ser capoeirista, apesar de haver uma data, é uma missão de todos os dias. “Os mestres vivem da capoeira e deveriam ser criados mais fomentos para a modalidade, como a criação de editais específicos. Tem alguns mas são poucos”, explica.
Nas escolas
Outra reivindicação de Mestre Vermelho é o uso da capoeira na educação. “A capoeira é um prato cheio de educação, cultura e saúde”, explica.
A mesma opinião tem o Mestre Fábio Rodrigues, 45 anos. Ele conheceu a capoeira ainda na infância, no final da década de 80, na região perto da Santa Bárbara, da Cidade de Goiás.
“Tinha um grupo formado por capoeiristas como Café, Xandó, Leninho, Chuluca e toda meninada que morava na região se empolgou com a Capoeira Regional. Depois, Chuluca e Leninho conheceram a capoeira Angola e passaram para gente”, recorda o capoeirista, que desde então é encantado pela Capoeira Angola.
Ele conta ainda que a capoeira ajudou a lhe dar uma direção na vida em uma época de perda, sua mãe morreu quando ele era muito jovem. “A capoeira tem uma função social, não adianta, é política por si própria e tem o dom de unir pessoas diferentes. Quando perdi a minha mãe, comecei a perder a cabeça e a capoeira me deu um estilo de vida e uma razão para viver”, argumenta.
Para ajudar outros jovens, criou a Ucapra – União da Capoeira Angola Pró Adolescente, escola de capoeira que atende 22 alunos – e também têm vagas sociais -, na Cidade de Goiás. Porém, acredita que a capoeira deve estar também dentro das escolas e ser mais divulgada, inclusive pela mídia.
“Tem que fazer valer a Lei nº 10.639, em que temática afro-brasileira se tornou obrigatória nos currículos do ensino fundamental e médio. Hoje é difícil um capoeirista que dê aulas na grade curricular das escolas e dentro do horário da escolar”, afirma.
Capoeira nas Olimpíadas
Quanto à chegada da capoeira nas Olimpíadas, Mestre Vermelho, como Mestre Fábio, também têm opiniões semelhantes. Como ambos são da Capoeira Angola, não veem o esporte dentro de uma disputa.
“A capoeira é a arte de se defender, e, como disse uma vez o mestre João Pequeno, não pode cair nas mãos do opressor”, argumenta Mestre Fábio.
Já Mestre Vermelho, acredita que a Capoeira Regional e contemporânea poderia se encaixar nos jogos, mas, não a capoeira Angola. “Ela é música, dança, teatro… Muita coisa que não dá para ser julgada. Como vai julgar a ancestralidade?”, questiona.
