Cotidiano

As dificuldades para ter um grande amor

diario da manha

Pesquisas revelam as complexidades das relações modernas: produção da proteína da paixão tem existência breve e sua diminuição motiva a revelação do amor ou o fim de um definitivo de relacionamento

 Elpides Carvalho e Beto Silva,Da editoria de Cidades

Entre o eterno e o efêmero, muitas pessoas se queixam de não conseguirem esquecer um amor. E quanto tentamos não olhar no “retrovisor”, uma gama de sentimentos como tristeza, abandono, raiva, dúvida e rancor nos invade e dilaceram nossas almas.

Mas como entender ou seguir a vida quando uma relação amorosa chega ao fim? Ainda mais numa sociedade que prega o pronome possessivo: “Meu carro, minha casa, minha vida, meus sonhos, meu namorado ou namorada, aonde tudo é meu!”.

De acordo com Izadora Martins Barros, psicóloga especialista em comportamento humano, o primeiro passo é desapegar desse amor, aceitar o término e seguir em frente. “O tempo de consertar a relação e de conviver é enquanto o casal está junto. Depois que ela (a relação) acaba, é hora de se conectar consigo mesmo e viver a sua vida. Precisamos aprender a não depender de um grande amor para sermos felizes. Caso contrário, ficamos dependentes dele, querendo sua permanência”, aconselha.

 

Dificuldade

Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, um dos intelectuais mais respeitados da atualidade, autor do livro Amor Líquido, romper sem dor e com a consciência limpa não é uma tarefa fácil. “Não há uma resposta fácil a essa pergunta, embora ela precise ser respondida e vá continuar sendo feita, à medida que os habitantes do líquido mundo moderno seguirem sofrendo sob o peso esmagador da mais ambivalente entre as muitas tarefas com que se defrontam no dia a dia”, analisa o sociólogo em seu livro.

A psicóloga Izadora Martins concorda que esquecer quem participou de nossas vidas talvez não seja tarefa fácil, mas é preciso tocar a vida, ainda mais quando a outra parte desinteressa da relação. “Claro que não podemos apagar uma história de amor da nossa vida. Somos feitos de várias histórias entrelaçadas, interconectando pessoas e sentimentos. Mas não podemos cair na armadilha de achar que as lembranças refletem a realidade. Vale ressaltar que esquecer a pessoa e deixar de amá-la são processos diferentes”, explica.

A pessoa quando deixa de amar, geralmente não tem segundas intenções com a outra parte, mas ainda gosta dela, tem certo carinho, respeito, porém não apresenta o sentimento ardente do início da relação. “Deixar de amar é mais rápido do que esquecer aquele amor do passado. Já esquecer é um pouco mais complicado, pois as relações sociais, amorosas fazem parte de nossas vidas. Quando distanciamos fisicamente de uma pessoa, essa lacuna faz com que o sentimento diminua e, aos poucos, percebemos que ao invés do amor temos apenas a lembrança desse sentimento”, diz Izadora.

 

Paixão no laboratório

Uma pesquisa finalizada pela Siemens Festival Nights mostra que a paixão só acontece de verdade no máximo duas vezes na vida. O amor muito forte, portanto, conforme a investigação quantitativa com duas mil pessoas, tem um número limitado de ocorrências.

Outras pesquisas têm avaliado a química do amor e da paixão e revelam, em sua maioria, que ocorre uma forte alteração na secreção de hormônios.

Em outro levantamento, a psiquiatra italiana Donatella Marazziti, da Universidade de Pisa, revelou que diversas substâncias cerebrais são liberadas quando estamos apaixonados.

Com uma nova relação, ocorre produção abundante da proteína neurotrofina – responsável por provocar outros hormônios cuja função é motivar o desejo. Se o relacionamento não se acaba pela intercorrência de outra paixão, a neurotrofina reduz drasticamente em um ano.

Antes, existe apenas a dependência de querer ficar junto da pessoa.  O típico suor nas mãos e frio no estômago (ou como dizem os apaixonados, borboletas no estômago) são as manifestações da neurotrofina que vicia uma pessoa na outra.

Após um ano, caso o relacionamento crie laços, começa a superprodução de  ocitocina – responsável  por consolidar o amor. Outra pesquisa mediu a paixão no sangue de 39 casais. A conclusão é de que existe um prazo de 18 a 30 meses que ocorre entre paixão e consolidação do amor. O prazo serve para se conhecer, aceitar-se, copular e reproduzir.

Neste sentido, os filósofos gregos há tempos já tinham a resposta para o amor, que é radicalmente diferente da paixão. Em o Banquete, obra de Platão, o autor coloca a profetisa Diotima de Mantinéia (supõe-se que ela tenha sido uma filósofa e também existido) para falar com o filósofo Sócrates. Ela corrige o famoso filósofo: “O amor não se dirige ao belo, como você pensa; dirige-se à geração e ao nascimento no belo. Amar é querer. Gerar e procriar. O amante busca e se ocupa em encontrar a coisa bela na qual possa gerar”.

Assim, pelo antigo ensinamento da filósofa Diotima de Mantinéia a pessoa vê na pessoa amada não uma paixão carnal nem a beleza da amada, mas a produção do belo. O produto do amor é que interessaria e não o sexo, como na paixão.

Entender essa diferença é que é o desafio de quem ama ou se apaixona.

Origem incerta do amor

Uma das principais lendas sobre o amor veiculada na Grécia antiga diz que o amor, como todas as coisas, teve origem dentre os deuses gregos – de certa forma, diferentes do Deus abraâmico e que funda as igrejas cristãs.

A origem do amor cristão é diferente e bem mais aceita, evidente, como a origem de tudo. Mas antes destes relatos, a história dos gregos era mais presente nas civilizações antigas.

No passado remoto, diz a lenda recontada pela filosofia, que todos os humanos foram andróginos um dia: ou seja, os corpos eram a junção dos dois sexos. O poeta Aristófanes reuniu a lenda e a ordenou para os gregos: como todos os seres eram unos e duplos em si, evidente, não existia necessidade de se completar. Antes de humanos, logo, éramos seres de duas cabeças, quatro braços e pernas, um sexo de cada lado.

Além da união homem-mulher, ocorria na Terra também a existência de duplas de homem-homem e mulher-mulher, o que poderia ser interpretado como a origem da homossexualidade.

Estes seres passaram a ser chamados de “andróginos”. Naquela época, todos eram felizes ao extremo, pois não precisavam de ninguém.

Os deuses do Olimpo não gostavam da felicidade e independência destes seres. Aristófanes, no Banquete de Platão, explica melhor: “É então de há tanto tempo que o amor de um pelo outro está implantado nos homens, restaurador da nossa antiga natureza, em sua tentativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana. Cada um de nós, portanto uma téssera complementar de um homem, porque cortado com os linguados, de um só em dois e procura cada um o seu próprio complemento”.

Com a ira dos deuses gregos, as metades foram abruptamente separadas e distanciadas. A alegoria grega diz que os seres andróginos se achavam muito fortes a ponto de querer desafiar os deuses, pois a configuração de seu corpo e mente levavam a a se achar imbatíveis a ponto de querer enfrentar os deuses.

Diz a lenda que os antepassados andróginos chegaram a construir torres para alcançar os deuses nos céus. A ira divina ocorreu quando entidades fortes foram enviadas para a terra. E aqui – som dos gritos de horror e violência – elas separaram à força as duas partes. E cada um ficou mais fraco e dependente do ‘amor’.

Portanto, a dor da humanidade seria esta eterna busca. Como os homens passaram a sofrer de solidão, eles só voltavam ao estado de felicidade quando encontravam a parte arrancada. Mas a dificuldade de achar a outra parte estava exatamente na multidão. E a vida seria curta para encontrarmos a outra parte que foi arrancada. Por isso nem todos, ao longo da vida, conseguem encontrar quem verdadeiramente se encaixava a sua forma e conteúdo.

Relacionamentos das redes sociais representam efemeridade

Em sua obra – Amor Líquido – o sociólogo Bauman expõe sua avaliação de maneira mais simples e próxima do cotidiano, analisando as relações amorosas e algumas particularidades da “modernidade líquida”.

Conforme ele, a sociedade carece de um referencial moral, um lado a seguir (como na época da divisão do mundo entre o Bloco Capitalista e o Bloco Comunista), estão todos jogados à responsabilidade e risco de seguirem e construírem suas vidas sem porto seguro nenhum.

De acordo com o sociólogo, vivemos em um mundo de incertezas, cada um por si. Temos relacionamentos instáveis, pois as relações humanas estão cada vez mais flexíveis. Acostumados com o mundo virtual e com a facilidade de “desconectar-se”. Assim, as pessoas não conseguem mais manter um relacionamento de longo prazo.

“Para ser feliz, há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis. Um é segurança e o outro é liberdade. Você não consegue ser feliz e ter uma vida digna na ausência de um deles. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos. Você precisa dos dois. Cada vez que você tem mais segurança, você entrega um pouco da sua liberdade. Cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte da segurança. Então, você ganha algo e você perde algo”, afirma Bauman.

 

A escolha entre duas paixões

Wu Hsia, 21 anos, terminou com Jun Tang, 20 anos, para iniciar o romance com Rong Tsao de 22 anos(Foto:divulgação)
Wu Hsia, 21 anos, terminou com Jun Tang, 20 anos, para iniciar o romance com Rong Tsao de 22 anos(Foto:divulgação)

Nesta semana, um caso de fim de relacionamento não desapegado, em Ningbo, na China, ganhou repercussão internacional. O jovem Wu Hsia, 21 anos, havia terminado com a namorada de longa data Jun Tang, 20 anos, para dar início a uma nova história de amor.

Contudo, durante três meses, após o término da relação, sua ex relutava insistentemente para que o rapaz reatasse com ela. A mulher chegou a pressionar Rong Tsao, 22 anos, “concorrente forte”, a deixar Wu.

Diante da difícil missão da escolha, entre o passado e o presente, o jovem galã tentou conversar com ambas as mulheres ao mesmo tempo, já que ele se sentia muito pressionado por elas. No entanto, como esperado, o encontro não foi lá tão simples assim.

Combinado o local de encontro do trio, por Wu, em parque próximo a um rio da cidade, a tentativa foi por água abaixo, literalmente. As jovens começaram a discutir e resolveram colocar o sentimento do rapaz em ‘xeque’.

Ex-namorada e atual decidiram pular em rio para ver quem o Wu salvaria. O galã contou a imprensa local, conforme o jornal The Mirror, Jun foi a primeira a pular da ponte direta para a água. “Ela estava pedindo ajuda, mas Rong também se jogou, clamando que era ela ou a minha ex. Fiquei completamente sem saber o que estava acontecendo. Foi quando percebi que tinha que fazer algo então pulei e salvei Rong (a atual namorada)”, disse.

Enquanto a ex-namorada do jovem, Jun Tang, ignorada, precisou ser levada para um hospital, mas logo recebeu alta. “Me colocaram em uma difícil situação e eu tive que fazer uma escolha entre o certo e o errado. E eu escolhi o certo”, acredita o disputado galã.

SAIBA MAIS

Quando o amor acaba

Sentimento nobre, o amor é pouco conhecido pelas pessoas, que apenas “amam” sem saber o que, de fato, é “amar”.

 

Visão moderna do amor

Uma passagem bíblica (1 Cor 13:4-8) sugere que o “amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera e tudo suporta. O amor jamais passará”.

 

Espécies de amor

A palavra amor (do latim amor) tem vários significados: afeição, compaixão, misericórdia, querer bem, satisfação, etc. É uma formação de um vínculo emocional com alguém que produz estímulos sensoriais e psicológicos necessários para a manutenção de um relacionamento. Susan Hendrick e Clyde Hendrick  desenvolveram uma Escala de Atitudes Amorosas.

– Amor pragma

Existe o amor pragma (originado do grego “prática” e “negócio”, é uma forma de amor que prioriza o lado prático das coisas).

 

– Amor Philia

O amor philia (caracterizado pelo altruísmo e generosidade) e o amor storge (ocorre com a valorização da confiança mútua, entrosamento de ideias e projetos compartilhados).

 

– Amor eros

O amor eros é considerado a paixão – espécie de relacionamento amoroso. É a apreciação da beleza. Quando termina, pode ocorrer a separação.

 

– Amor sforge

Neste estilo de amor existe a valorização da confiança mútua, entrosamento de ideias e projetos compartilhados.

 

O fim do amor

– A maioria das pessoas confunde o fim da paixão com o fim do amor. No caso da paixão, não se deve relutar muito, pois dificilmente existe remediação.

– Conforme Izadora Barros, é preciso, no campo dos relacionamentos, não depender de ninguém: “O tempo de consertar a relação e de conviver é enquanto o casal está junto. Depois que ela (a relação) acaba, é hora de se conectar consigo mesmo e viver a sua vida. Precisamos aprender a não depender de um grande amor para sermos felizes. Caso contrário, ficamos dependentes dele, querendo sua permanência”.

 

– Especialistas relatam que é possível amar sem passar pela fase da paixão. É um caso típico dos relacionamentos entre amigos de longa duração que acabam se relacionando em algum momento. Pesquisa realizada em Pisa, na Itália, mostra que 85% dos relacionamentos entre amigos são duradouros, contra apenas 15% dos relacionamentos entre desconhecidos.

 

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