Os iguais

Renato Dias, Da editoria de Política&Justiça

diario da manha
  • Daniel Aarão Reis Filho diz que resistência francesa nunca ameaçou nazistas
  • Historiador frisa que guerra foi vencida por URSS e China contra Alemanha e Japão
  • Mussolini emergiu para o poder no seio de uma grande crise, de múltiplos aspectos, relata
  • Brasil encontrava-se rachado sobre entrada na Segunda Guerra, conta escritor

 

O historiador Daniel Aarão Reis Filho, em entrevista exclusiva ao Diário da Manhã, diz que documentação secreta revelada pós-glasnost e perestroika mostra que havia um suposto acordo secreto entre Josef Stálin e Adolf Hitler para uma divisão de áreas de influência na Europa Central. O que facultaria então à URSS a invasão da Polônia, dos estados bálticos e da Finlândia, aponta. Por um intercâmbio crescente de matérias-primas; e, finalmente, mas não menos importante, pela suspensão da propaganda soviética antinazista, destaca. “Stálin ainda daria um brinde a Hitler: a entrega de dezenas de comunistas alemães, refugiados ou atuantes na URSS, às prisões nazistas”, denuncia. Daniel Aarão Reis conta ainda que o historiador soviético A. Nekritch (O exército vermelho assassinado) que foi por ter acreditado nas cláusulas secretas do Acordo Ribentropp-Molotov que Stálin não se preparou convenientemente para sustentar o impacto inicial da máquina de guerra nazista. “A rigor, o ditador soviético custou a acreditar que a ofensiva nazista tinha realmente começado quando ela, efetivamente, teve início, em junho de 1941”, dispara.

CONFIRA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA

Diário da Manhã – Qual contexto possibilitou a ascensão de Adolf Hitler?

Daniel Aarão Reis Filho – O contexto de uma profunda crise política, econômica e moral que assolava a chamada República de Weimar (do nome da cidade onde se aprovou a Constituição de 1919, que formularia os parâmetros constitucionais desta República). Iniciada à sombra da derrota da Primeira Grande Guerra, injustamente responsabilizada pela derrota, e também à sombra da derrota de uma revolução social, a que ameaçou a República em seu nascedouro, em 1918, a República viveu em meio a crises e à desconfiança de parcelas expressivas da sociedade alemã. Quando veio a crise de 1929, seu impacto na Alemanha foi devastador, gerando inflação descontrolada e altas taxas de desemprego, favorecendo propostas extremistas de direita (nazistas) e de esquerda (comunistas). Acabaram vencendo os nazistas, por terem sabido congregar em torno de suas propostas a opinião conservadora e também uma parte dos centristas, assustados com o perigo comunista.

 

DM – O que levou Benito Mussolini ao poder?

Daniel Aarão Reis Filho – Também Mussolini emergiu para o poder no seio de uma grande crise, de múltiplos aspectos,  que, na Itália, se seguiu à Primeira Grande Guerra. Foi decisiva para o seu ascenso a derrota política do movimento operário do norte da Itália. Mussolini foi uma espécie de “professor” para Hitler. Ele igualmente soube agregar em torno da proposta fascista grande parte dos conservadores e da Igreja Católica, muito forte no país. O medo do comunismo desempenhou igualmente um papel central, mobilizando conservadores de todos os bordos.

 

DM – O que queria Josef Stálin ao celebrar pacto com a Alemanha?

Daniel Aarão Reis Filho – Há controvérsias, que até hoje subsistem. Para uma certa historiografia comunista, Stálin queria apenas ganhar tempo, explorando as contradições entre os países capitalistas da Europa ocidental (França e Inglaterra). Era visível nas opiniões conservadoras destes países o desejo de “jogar o nazismo” contra a União Soviética. De sorte que, com o pacto de agosto de 1939, Stálin teria invertido os termos da equação, “jogando o nazismo” contra os capitalismos europeus. A documentação secreta concernente ao pacto, entretanto, não publicada na época, mas conhecida parcialmente desde os anos da chamada desestalinização, iniciada em 1956, e sobretudo desde os anos 1980 (perestroika/glasnost) evidencia uma outra história. A de uma proposta a longo prazo elaborada entre a URSS e a Alemanha Nazista. Esta proposta passava por uma divisão de áreas de influência na Europa Central, facultando à URSS a invasão da Polônia, dos estados bálticos e da Finlândia; por um intercâmbio crescente de matérias primas; e, finalmente, mas não menos importante, pela suspensão da propaganda soviética antinazista. Stálin ainda daria um brinde a Hitler: a entrega de dezenas de comunistas alemães, refugiados ou atuantes na URSS, às prisões nazistas. Segundo o historiador soviético A. Nekritch (O exército vermelho assassinado), foi por ter acreditado nas cláusulas secretas do Acordo que Stálin não se preparou convenientemente para sustentar o impacto inicial da máquina de guerra nazista. A rigor, o ditador soviético custou a acreditar que a ofensiva nazista tinha realmente começado quando ela, efetivamente, teve início, em junho de 1941.

 

DM – O que queria Adolf Hitler com a Segunda Gguerra Mundial?

Daniel Aarão Reis Filho – Era um megalomaníaco. Queria dominar o mundo. Para ele a “raça” alemã estava destinada a mandar na humanidade…

 

DM – O que provocou a derrota da Alemanha, Itália e Japão?

Daniel Aarão Reis Filho – A poderosa aliança que se formou contra eles, encabeçada pelos EUA e pela URSS, as duas maiores economias mundiais na época. A desproporção de forças era colossal, superando inclusive erros cometidos por chefes civis e militares. É de se destacar também, quase no mesmo nível, a decisão e a bravura com que russos e chineses combateram alemães e japoneses, respectivamente. Foram estes dois povos – os russos e os chineses – que quebraram os dentes das Bestas nazifascistas na Europa e do militarismo japonês na Ásia.

 

DM – Qual a explicação para a capitulação vergonhosa da França?

Daniel Aarão Reis Filho – A França saiu devastada da Primeira Grande Guerra. Cresceu em sua opinião pública a ideia de que uma nova guerra deveria ser evitada a qualquer custo. Por outro lado, a opinião conservadora na França, em suas várias vertentes, analisava o nazismo como um mal menor, ou como um bem, capaz de afastar da França uma eventual vitória das esquerdas. A grande maioria dos franceses apoiaria a capitulação – preferiram não lutar, ou observar indiferentes à derrota do seu país. Colaboraram com os nazistas durante quase toda a ocupação. A resistência nacional francesa, tão decantada, foi sempre muito pequena e nunca ameaçou a ocupação nazista. A França só foi libertada graças aos exércitos anglo-norte-americanos.

 

DM – Quando o Brasil entrou na guerra e o que motivou a sua entrada no conflito?

Daniel Aarão Reis Filho – De um lado, havia uma tendência a favor da aliança com os EUA. No governo, era capitaneada por Osvaldo Aranha e tinha também apoio de alguns chefes militares. No entanto, o Ministro da Guerra, Eurico Dutra, e o condestável do Estado Novo, Gois Monteiro, eram simpatizantes da Alemanha nazista. Dutra, em 1940, chegou a propor que o Brasil declarasse guerra à França e à Inglaterra. Com a virada da Guerra, principalmente a partir de fins de 1942, com a batalha de Stalingrado, cresceram no Brasil as tendências antinazistas, mesmo no interior do governo. Elas seriam apoiadas pelas pressões norte-americanas que desejavam estabelecer uma cabeça de ponte no nordeste brasileiro, figurado, em certo momento, como base para um eventual desembarque no norte da África. A partir de um certo momento, se o Brasil não entrasse na guerra, teria que se haver com um desembarque norte-americano. Vargas preferiu evitá-lo, barganhando a entrada na guerra contra promessas de apoio econômico dos EUA. Mas a má vontade mútua, entre Brasil e EUA, ficou evidente na morosidade com que foi conduzida a organização da Força Expedicionária Brasileira/FEB à Itália. Nem o governo norte-americano nem o brasileiro viram com muito entusiasmo esta aventura militar.

 

DM – 111 goianos teriam participado da guerra: o senhor tem informações?

Daniel Aarão Reis Filho – Infelizmente, não tenho, mas elas poderão ser colhidas nos Arquivos das Associações de Ex-Combatentes, sediadas no Rio de Janeiro. Destaco recente tese de doutorado, de Patrícia Ribeiro, sobre a FEB, o melhor trabalho sobre o assunto.

 

DM – O que resta da divisão geopolítica que desenhada após o conflito?

Daniel Aarão Reis Filho –  Com o fim da Guerra Fria, os dispositivos do mundo socialista foram desarmados e liquidados. Mas os dispositivos e alianças no campo capitalista mantiveram-se vivos, como atesta o exemplo da Organização do Tratado do Atlântico Norte/OTAN, filha da guerra fria e que se mantém viva e faceira nos dias atuais. O mesmo se poderia dizer de organizações financeiras mundiais, como o FMI e o Banco Mundial, para não falar da ONU, que se estrutura até hoje segundo bases definidas no fim da II Guerra Mundial.

 

DM – 70 anos depois, qual a sua leitura sobre a Segunda Guerra Mundial?

Daniel Aarão Reis Filho –  Como todo processo histórico de grande amplitude, a II Guerra Mundial é suscetível de múltiplas leituras. Gosto de vê-la como uma guerra em que os povos – sobretudo o russo e o chinês – evidenciaram sua grande capacidade de resistência e de luta, derrotando as propostas de dominação da Alemanha, da Itália e do Japão.

 

DM – Quais os melhores livros publicados sobre o tema?

Daniel Aarão Reis Filho – A bibliografia sobre a IIª Guerra Mundial traduzida e vendida no Brasil tende a privilegiar a “história batalha” ou/e a guerra na Europa. Quanto tratam do Pacífico, são livros sobre a vitória norte-americana, quase não se fala da China. Sobre a guerra na Europa, eu destacaria o livro de Anthony Beevor, sobre a queda de Berlim; e o de Rupert Matthews, sobre Stalingrado. Sublinharia também a importância de duas histórias aparentemente despretensiosas mas que “contam” a guerra como poucas: o livro de Art Spiegelman: Maus, em quadrinhos; e, de Markus Zusek: A menina que roubava livros.

 

DM – Projeto de novo livro? Qual tema?

Daniel Aarão Reis Filho – Estou dedicado, juntamente com a professora Keila Grinberg, à publicação dos resultados de um Seminário Internacional, organizado em 2014 na Casa Rui Barbosa, e que teve com objeto o estudo comparativo da emancipação de servos e escravos nos EUA, na Rússia tsarista e no Brasil imperial. Reunimos especialistas de várias partes do mundo, e dos três países citados, naturalmente. É possível que o livro seja publicado em 2015. No mais, dedico-me ao estudo dos encantos e desencantos que cercam as tradições revolucionárias russas e soviéticas. Vem aí o centenário da grande revolução russa de 1917, a ver se conseguimos avançar na compreensão da maior revolução do século XX.

Perfil

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Nome completo: Daniel Aarão Reis

Idade: 69

Formação: Doutor pela USP. Pós-doutorado na EHHSS

Instituição que leciona: professor titular de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense/UFF

Livros publicados: Prestes, um revolucionário entre dois mundos (Companhia das Letras, 2014); Ditadura e Democracia no Brasil (Zahar, 2014); A Ditadura que mudou o Brasil (Zahar, 2014, com Marcelo Ridenti e Rodrigo Patto Sá Motta.

 

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