Cotidiano

O casal que a memória esqueceu

Idosos improvisam moradia para sobreviver em Trindade. Grupo de pessoas se organiza para arrecadar dinheiro para construir casa para eles

diario da manha

Já passava das seis da tarde. O casal Nelson Souza Lima, 64, e Maria da Cruz Prata, 64, se preparava para mais uma noite sem energia elétrica, em sua casa, no setor Samarah, em Trindade. “Mas essa lua está bonita, os postes ali iluminam um pouco”, diz Maria, que usa uma lanterna a pilha para poder se locomover no escuro.

O casal vive ali a cerca de 20 dias, desde que saíram de uma chácara, onde moraram de favor por mais de dez anos. Nelson veio de Carinhanha, na Bahia, quando ainda era criança, e sempre morou no campo, trabalhando para fazendeiros. Tirava leite, colhia cana, capinava e vigiava o terreno à noite.

Ele anda devagar e com dificuldade, desde que sofreu um acidente de trabalho.  “Uma vez ele escorregou e deslocou a perna. Deu trabalho, mas levaram ele no hospital”, conta a mulher. O médico pediu um retorno do paciente, que nunca voltou.

A nova casa foi construída por Nelson com um amontoado de materiais: Pedaços de madeiras, telhas de amianto, alumínio e lonas de plástico formam paredes e o teto de um único cômodo, que serve de sala, cozinha e quarto. A cama de solteiro faz papel de sofá, enfeitada com um urso de pelúcia e uma boneca de pano. Na cabeceira da cama de casal, um quadro surrado estampa a imagem de Jesus e Maria.

Ao falar de Nossa Senhora, Nelson tirou o chapéu em reverência e olhando para o céu, disse: “É a melhor coisa para a gente. Nós sem Deus, a gente não é nada”.

Família  

Os filhos foram criados no mesmo lote onde moram hoje. Restos de tijolos marcam o lugar onde existia a antiga casa. O casal não se lembra exatamente a quantidade de netos e bisnetos. Nelson arrisca entre nove e dez netos.

Um dos filhos faz visitas constantes, mas trabalha o dia todo em uma cerâmica e cuida da mulher, que tem problemas graves de saúde. “Eles têm o serviço deles e obrigação. Vem só ver a gente e vai embora”, diz Maria.

Vários cachorros dividem o quintal. Pretinha, Titoco e Valente são mais novos. Lili, que acabou de ter filhotinhos, tem o privilégio de ficar em uma casinha improvisada no meio do lote. Eles são alimentados com arroz e sobras de carne do açougue.

Em um puxado da casa, cercado de tela de arame, vivem as galinhas. Os ovos, poucos, ajudam no orçamento. Mas o que realmente garante a sobrevivência do casal são as doações de vizinhos. “Eles ficam sem comer, mas não tem coragem de pedir. Tudo que eu quis dar [de doação] foi eu que ofereci”, conta a artista plástica Maria Luzía Carvalhaes, de 49 anos. Ela contou sobre a situação do casal para um professor, que publicou a história no Facebook.

De acordo com Maria Luzía, desde a publicação na internet, muitas pessoas tem se oferecido para ajudar. Quatro advogados já entraram em contato para tentar conseguir a aposentadoria do casal. Eles não recebem nenhum tipo de bolsa ou auxílio do poder público.

Uma brigada animal, grupo de apoio a animais de rua, está pedindo dinheiro nas redes sociais para construir uma casa para o casal.

Para ajudar:

Lorena Rodrigues: (62) 9295-9368

Arivaldo Arraes: (62) 9995-0844

Mirleia Santos: (62) 8127-1754

 

O casal mora ali há cerca de 20 dias, desde que saíram da chácara onde moraram de favor por dez anos

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