diario da manha

Um ensinamento cristão diz que além da fé precisamos de boas obras para conquistar a salvação. Tal axioma bíblico tornou-se uma polêmica a ponto do protestantismo surgir após superdimensionar a fé e reduzir a realização de obras – um dos dogmas da medieval Igreja Católica.

Quem passou ontem  de manhã pela Avenida C,  Residencial Florença, um dos bairros de Goianira, testemunhou uma obra e um milagre que ainda nos faz ter fé acima de tudo na solidariedade humana. A obra começou às 6h da manhã e seguiu até às 18h.

Cerca de 40 homens estavam empenhados em realizar o sonho da manicure Regina Ribeiro. Mãe de três filhos, após o fim de dois relacionamentos, essa baiana acabou sozinha na árdua tarefa de se defender do mundo. Aos trancos e barrancos, conseguiu comprar um lote. E a partir dele no próximo final de semana terá uma casa. Neste sábado, os homens (e algumas mulheres) da Pastoral da Moradia levantaram as paredes de sua futura casa.

A reportagem acompanhou sua emoção ao ver tijolo por tijolo tornar sonho em realidade. Integrantes da Paróquia Santo Inácio de Loyola, do Conjunto Riviera, os colaboradores se uniram para bancar a construção o mais rápido possível.

Engenheiros, mestres de obras, pedreiros, contadores, professores, servidores públicos, dentre outros, se revezavam para fazer valer a promessa de que a manicure e seus três filhos teriam, enfim, uma casa própria ainda em 2016.

De acordo com Lindomar Emídio, eletricista, a obra começou na semana passada quando um grupo de componentes da igreja resolveu levantar a base da moradia.  Do alicerce foi um pulo. Ontem, a casa surgiu na paisagem.

Meses antes, a pastoral realizou uma triagem e selecionou aquela pessoa que mais precisava de ajuda. “Não olhamos religião, raça ou profissão. Observamos a necessidade”, diz o professor Jerônimo, um geógrafo que participa do grupo e atua na triagem.

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Pastoral realiza triagem e seleciona aquela pessoa que mais precisa de ajuda: integrante diz que não olham religião, raça ou profissão, mas necessidade Foto: Sinésio Dioliveira

O mais interessante da história de Regina é que ela integra a Assembleia de Deus, uma igreja pentecostal e evangélica de Aparecida de Goiânia – na teoria, diferente em vários dogmas da Igreja Católica.  Professor Jerônimo diz que  atua como geógrafo, tendo um olhar social e que conhece bem a realidade da população goiana. Daí não separar as pessoas por religião. Mas por necessidade. “Sabemos a distribuição por religião, classe social, raça, mas no caso da pastoral procuramos os mais necessitados, as minorias, os carentes que sofrem mais para conseguir o que desejam e precisam”.

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Mãe de três filhos, após o fim de dois relacionamentos, Regina Ribeiro acabou sozinha na tarefa de encontrar uma casa para a família: manicure viu casa surgir no sábado Foto: Sinésio Dioliveira

O professor diz que a pastoral é católica, mas sem qualquer comprometimento em auxiliar apenas ‘irmãos’. Ele afirma que entre 40% e 60% dos atendidos até agora são evangélicos. Ou seja, existiria um equilíbrio, mas motivado por conta da estratificação religiosa das comunidades.

O integrante da pastoral afirma que o maior problema das ações do grupo é a falta de doações de material para construção e recursos financeiros que auxiliam em eventuais acabamentos e regularizações. “Temos a mão de obra, essa gente toda aqui, que está disposta a trabalhar pelo próximo, a fazer o bem sem olhar a quem”, diz, ao lado de homens suados e marcados pelo sol de sábado.

A pastoral contabiliza 159 unidades já construídas na região metropolitana.  Mas quer muito mais.  Cada integrante veste com  alma a camisa dos ensinamentos cristãos e toca os corações de quem os observa trabalhando.

Sem qualquer apoio público, a ação visa unicamente fazer o bem. Convenhamos que em um país tomado pela corrupção, por nefastos conluios, por espaços na mídia comprados para divulgar ‘boas ações’ com dinheiro da sociedade, a atuação dos integrantes da pastoral é uma lição de moral que dignifica e limpa a angustia dos tempos pós-modernos. Apesar de chamar atenção de quem passa no local, poucos conhecem o trabalho maravilhoso do grupo.

Em vez de novas igrejas, a pastoral quer cumprir o artigo 6º da Constituição Federal que inclui a moradia como um direito social.  Regina disse emocionada que desde o primeiro minuto acreditou que sua casa seria construída. “Demorou apenas seis meses. Fiz a inscrição e logo começou o processo todo. Hoje estou aqui, sem palavras, vendo um sonho acontecer”, diz ao Diário da Manhã.

DESAFIO

A ideia da moradia não é uma consciência religiosa de que a salvação será obtida através de boas obras. Cada integrante, na verdade, encara, a entrega das chaves da residência como um desafio. “A Pastoral da Moradia têm a consciência de que a ideia de fazer o bem aos outros não está associada ao dogma de uma salvação pelas obras, mas, sim, no sentimento de alegria e felicidade, encontrados a cada mutirão, com a emoção de encontrar em meio as lágrimas incontidas uma resposta maior do que um muito obrigado”, diz um comunicado dos religiosos.

Quanto custa cada moradia

Através do endereço eletrônico pastoraldamoradia.com.br é possível o interessado procurar os religiosos e pedir que seja avaliada sua condição de sem moradia.  Lindomar Emídio, que participava da construção da casa de Regina Ribeiro no sábado, diz que o interessado precisa ter o lote. “Infelizmente não temos condições de arcar como local para a construção. Conseguimos a nossa mão de obra e o material de construção”.

Cada residência custa em torno de R$ 14 mil, recurso gasto na compra do material de construção. Os participantes da pastoral acham o valor razoável, se levar em conta o custo quando se tem interesse de lucro. Uma casa como a que será construída chega a custar R$ 30 mil quando se objetiva o lucro. No caso da pastoral o desejo é apenas entregar a moradia sem custo nenhum para o futuro morador. No site da organização estão todas as casas doadas e a prestação de contas. A entidade tem hoje um caminhão amarelo com o nome da pastoral e que facilita o transporte das doações.

Cada doação é pública e visível por todos através da transparência da entidade. Quem acessar o site, no mês de setembro, por exemplo, poderá ver que a pastoral conseguiu arrecadar R$ 5.577, 60, de origens diversas, com  doações  de R$ 12 a R$ 1 mil, além de ofertas realizadas na missa da paróquia.

O site traz ainda um momento mais divertido: vídeos em que aparece o batalhão de ‘pedreiros’ atuando.  Todos de amarelo, eles chegam ao local e começam do zero a construção. Em ‘time lapse’, vídeos rápidos, é possível ver toda a engenhosidade humana para entregar a residência pronta.  Em um vídeo de 9 minutos, os produtores sintetizam todo o significado de atuação do grupo: dar dignidade e moradia aos necessitados.

A história de Regina já ocorreu com vários outros, como José Sobrinho,  Lucidalva Lima, Luciene Alves, Francisca de Souza, Ismael Pinto, Jailton Morais e tantos outros.

Interessados em auxiliar a pastoral podem procurar a igreja ou ligar para  José Nery, nos telefones 3229-1332 ou (62) 9976-7696.

 

[box title=”O que a pastoral gasta para fazer uma casa“]

Relação dos materiais básicos necessários para construção da casa da Pastoral da Moradia

  • 2.500 tijolos furados
  • 200 tijolos comuns
  • 1 metro de brita zero
  • 8 metros de areia média
  • 30 sacos de cimento
  • 16 telhas Eternit 3,66
  • 8 comunheiras
  • Kit banheiro
  • 4 portas de 80 cm
  • 1 porta de 60 cm
  • 4 janelas de 1,20 m
  • 1 janela para banheiro
  • 1 pia cozinha
  • 5 latas de tinta branca

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