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Prostituta brasileira na Alemanha relata maus- tratos e abuso

Legalizada há 17 anos na Alemanha, prostituição ainda está ligada a marginalidade

diario da manha
Foto: Reprodução/DPA

Texto: Mariana Lacerda

Essa reportagem é a primeira parte de uma série que aborda variados aspectos sociais da prostituição na Alemanha.

Há 17 anos que bordéis e prostitutas da Alemanha estão sob o guarda-chuva
de benefícios da lei que legalizou a profissão: plano de saúde, seguro desemprego, seguro contra acidentes e regulamentação dos prostíbulos — exigem que o local não viole as normas sanitárias e de segurança. E ainda assim, as quase 200 mil prostitutas do país (número calculado em pesquisa do jornal Die Welt, em 2013) trabalham em condições desfavoráveis, beirando ao subemprego. Enquanto isso, os mais de 5 mil bordéis do país renderam 5,475 bilhões de euros no mesmo ano.

Cecíle* é goianiense e há 1 ano se prostitui em Stuttgart, capital do estado de Baden-Württemberg no sudoeste da Alemanha, para ela a legalização não está surtindo o efeito esperado: “Se levassem a lei a cabo até seria bom, mas não levam. […] Nós continuamos sendo escravizadas. Muitas se calam porque se denunciar não conseguem trabalhar mais. Eu mesma já me calei muitas vezes”.

Sozinha e com medo de ser enganada, ela recorreu a ajuda da carioca Karina Finke, que mora na Alemanha há 8 anos e escreve para o portal Brasileiras Pelo Mundo. No meio das inúmeras mensagens de internautas que a chamam para agradecê-la ou tirar dúvidas sobre as dicas que dá em sua coluna sobre viver em terras germânicas, uma lhe chamou atenção: “Cecíle me contatou pedindo ajuda.

Ela contou que os bordéis exigiam 50% do que as prostitutas ganham. Em alguns locais, esse valor chegava a 60%. Ainda assim, exigiam uma taxa extra de 30 euros por dia para impostos, fora a publicidade de 50 a 70 euros por semana, que também deve ser paga por elas.” Ao pesquisar sobre a legislação, Karina descobriu que as cobranças são ilegais.

Karina Finke, especialista em comércio exterior e –colaboradora do portal Brasileiras Pelo Mundo. Foto/Reprodução: Facebook

O que levou Cecíle à prostituição na Alemanha foi o fim de um relacionamento longo e conturbado. Aos 23 anos se casou com um Capitão Coronel da Marinha espanhola e se mudou para a Espanha. A união durou 20 anos e foi marcada por abusos e violência doméstica. Aos 43 anos, Cecíle pediu divórcio e passou a ser perseguida pelo ex-marido que não aceitou o fim da relação.

Tentou trabalhar e seguir uma vida independente na Espanha, mas teve que deixar o país por medo das ameaças e perseguições do ex. Foi dessa forma que chegou na Alemanha: ‘’Eu tô nisso por tudo o que aconteceu no meu casamento e porque não tive outra oportunidade e nenhum apoio’’, afirma.

A prostituição na Alemanha também acaba sendo o destino de muitas mulheres imigrantes vítimas de tráfico sexual. Um relatório da Fundação Scelles estima que 75% das vítimas são da Bulgária e da Romênia.

Cecíle conta a experiência que teve com algumas dessas imigrantes: “Já fui em uma casa de prostituição com muitas romenas e achei um absurdo, as meninas ficavam chorando, o chulo [cafetão] batia nas garotas, era muito ruim, não volto lá nunca mais. Quando a casa fecha o chulo recolhe todo o dinheiro do trabalho delas’’.

A carga horária de trabalho para essas mulheres é longa, Cecíle conta que as casas de prostituição abrem às 10 horas da manhã e fecham meia noite durante a semana. Aos finais de semana fecham por volta as 2 da manhã.

Além disso, suas saídas são controladas: “É muito difícil deixarem você sair da casa. Se deixam sair tem que voltar logo. Eles acham que se você sair, vai atender cliente e ganhar dinheiro por fora”. Cecíle deixou na Espanha sua casa e seu dois filhos, todo mês ela reserva uma semana para ir visitá-los. Divide-se entre os dois países, mas sonha em voltar a viver onde está seu verdadeiro lar e sua família.

Enquanto está na Alemanha vive em apartamentos alugados semanalmente e em quartos de bordéis. Para ela, a atividade que exerce é análoga a escravidão: ‘’A prostituição é uma escravidão, todavia. Até aqui na Alemanha que é um país de primeiro mundo é escravidão. […] Se você acha ruim ou não está de acordo com algo na casa eles te jogam na rua na hora’’.

*Cecíle é um nome fictício usado para preservar a entrevistada

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