Cotidiano

O estigma das favelas

Preconceito de morar em favelas e falta de estrutura são problemas mais comuns enfrentados por moradores de Goiânia. Com duas décadas sem investimentos em moradias, Goiás subiu posições em números de bairros subnormais

diario da manha
uebra Caixote, visível a partir da região leste de Goiânia: IBGE e Nações Unidas (ONU) a considera a maior favela da Capital

Goiânia tem cerca de 50 favelas, apesar de o tema ser ignorado e mesmo se tornado indigesto para parte considerável dos agentes públicos – afinal, diz respeito ao problema da falta de moradias e de eficiência dos representantes em encarar a carência.

Para a Central Única das Favelas (Cufa-GO), as favelas não são necessariamente as construções semelhantes ao que se vê no Rio de Janeiro ou São Paulo. Elas estão espalhadas pelos bairros e cidades goianas. Em Goiás seriam 247; a Capital teria pelo menos 50. O Entorno do Distrito Federal vive uma ebulição de aglomerados. E Aparecida de Goiânia enfrenta um crescimento exponencial.

Existe uma dissonância, portanto, sobre a definição. Poderes públicos, técnicos, pesquisadores e entidades representativas, caso da Cufa, não entram em consenso.

Mas a imagem das favelas costuma impactar de diversas formas os moradores – vergonha, medo, indignação, sensação de abandono, falta de representatividade. Eles sabem o que é experimentar as “favelas” no dia a dia. E talvez a mais grave das experiências seja a estigmatização. “É este o ponto central deste debate: gera estigma? Aqui temos algo mais grave, reflexivo, que foge do aspecto cultural. Não podemos romantizar a favela. O que fica de pior é o estigma. E nisto existe proximidade com a ideia de gueto, que surgiu primeiro na diáspora judaica, mas que tão bem acabou compreendido nas capitais fordistas dos EUA, nas décadas de 1930, 1940”, diz o sociólogo José Alcântara.

Para ele, o mais urgente é resolver o problema do estigma. Mas para resolver é necessário entender que favela é um furacão de necessidades. Políticas públicas, explica o sociólogo, devem ser canalizadas para estes núcleos urbanos. Em seguida, uma forte atuação dos poderes públicos para “recuperar a dignidade do morador”.

Grande parte das favelas de Goiás se encontra às margens de córregos e rodovias, contornando, as cidades. Moram ali os “expulsos” da cidade antidemocrática, que festeja as riquezas nos bairros centrais.

É esta a característica de Goiânia, que também tem a formação padrão, nos morros, semelhante ao que “Os Simpsons” encontraram no Brasil em um programa dedicado a “entender” – com humor e preconceito – o povo brasileiro.

A perda

Quando começa a temporada de chuvas, moradores da Vila Lobó [invasão localizada no Jardim Goiás] temem perder seus bens. O desnível dos terrenos são as principais causas do receio físico. Um deles disse para a reportagem do DM que “enquanto o povo teme o calor de setembro, eu e minha família tememos mesmo é a chuva que chega destruindo tudo”.

Outro “aglomerado subnormal”, como gosta de definir parcela dos técnicos filiados ao IBGE, é a Quebra Caixote, visível a partir da região leste de Goiânia. O IBGE e Nações Unidas (ONU) considera a Quebra Caixote como a maior favela da Capital. Está localizada próxima do Leste Universitário e bem às margens da BR-153. É um fluxo de vida, com comércio, vida financeira própria e capacidade de “enfrentar o estigma”.

Mas o poder público precisa reagir e colaborar. Estudo da Secretaria de Planejamento (Segplan), de 2011, mostrava Goiás como o Estado com o menor índice de populares que residem em aglomerados subnormais. Mas a realidade é outra agora. Segundo o IBGE, o Estado escalou dez posições nos últimos 20 anos exatamente pela falta de política de moradia digna, agravada pela inépcia das políticas públicas e grande fluxo migratório para as cidades do Entorno do DF.

Há dez anos, o estudo “Situação dos aglomerados subnormais em Goiás (2011), indicava moradias anormais nos bairros Emílio Póvoa, Jardim Botânico I, Jardim Botânico II, Jardim Goiás, Jardim Guanabara, Quebra Caixote e Rocinha. Agora são 50 localidades com as características básicas que a levam ser taxadas de favelas.

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