Cotidiano

Goianidade: Como Bernardo Élis nos faz mais goianos

DM procura raízes da goianidade em autores, intelectuais e pensadores que ajudaram a construir o patrimônio imaterial de Goiás. Bernardo Élis foi essencial para o Estado conquistar respeito e dignidade

diario da manha

A busca pela identidade cultural e social do goiano cruza necessariamente a literatura de Bernardo Élis (Corumbá de Goiás/1915-1997). Considerado um dos principais autores brasileiros, o criador de “O Tronco” e do aclamado conto “A Enxada” contribui para o sentido da goianidade em duas frentes: expressividade da literatura produzida diante dos demais autores nacionais. E, sobretudo, quanto à construção das raízes realmente goianas. Bernardo por si só é um herói, já que “venceu” em seu campo e tornou-se imortal – diga-se, realmente detentor de um “cânone”. É um dos primeiros modernistas do Estado.  
Contribuições científicas mais recentes têm notado na obra de Bernardo o que era antes construto intuitivo: sua literatura fortalece nossas raízes com a natureza e denuncia a condição de vida nos grotões.
Árvores, raízes, plantas, matas, cerrados, enchentes e chuvas são recorrentes na obra do escritor que reelaborou suas visões a partir das paisagens formadas por igrejas, grandes extensões rurais e cidades interioranas. Sua obra é hoje amplamente investigada nas universidades e programas de pós-graduação.
O “DM” publica a partir de hoje uma série de ensaios e reportagens cuja reflexão principal é a goianidade no século 21. Como agente da cultura regional há mais de 40 anos, o “Diário da Manhã” tem como missão levar aos leitores deste século uma visão moderna sobre este autor seminal que pode ajudar a compreendermos a identidade e  importância social do goiano.  

Bernardo Élis: autor de “Ermos e gerais” (Reprodução)

Abordagem realista reforça natureza de Goiás e conflitos no interior  

O início da série por Bernardo Élis tem um motivo: o escritor sempre esteve intimamente relacionado ao Diário da Manhã. Como editor do “DMRevista” na década de 1990, abri para ele nossas páginas para se manifestar sobre variados assuntos.
O jornalista Batista Custódio, fundador do DM e do “Cinco de Março”, considera Élis o “maior contista do Brasil”. Amigo de grande convivência, relata que Bernardo era tímido e “gigante” em sua cultura. Foi um dos responsáveis por indicá-lo como secretário de Cultura na gestão do governador Maguito Vilela (1995-1998).
Nos anos 1990, como integrante na Academia Brasileira de Letras (ABL), Bernardo significava muito para Goiás e para o próprio DM, que tinha orgulho de publicar seus textos em primeira mão.
Pesquisas científicas recentes de história ambiental e geografia identificaram na literatura bernardiana grande aporte sobre nossa identidade geográfica – que, por presença ótica, permeia o social e afeta a produção cultural vivenciada por nós como goianidade. Bem resumido: a natureza que Bernardo Élis retrata reforça nossa identidade, essa energia social e cultural que transporta sentidos, imagens, sensações e estratégias sensíveis responsáveis  por nos ligar ao agroturismo, ao desejo imemorial de retornar para o interior e ver a calmaria dos pássaros, aos valores éticos da palavra cumprida, ao urbano desconfiado da cidade jardim, à religiosidade e, sobretudo, ao inconformismo sertanejo – a grande contribuição de Élis.
Bernardo nos surpreende com o drama vivido em sua literatura, afastando dele a ingenuidade da mera descrição natural. “A abordagem seca e realista da realidade dos pobres no interior de Goiás torna as narrativas de Élis documentos privilegiados de sua vida material, suas técnicas e práticas cotidianas, além de permitir vislumbrar as condições tecnológicas e os processos produtivos de um contexto socioeconômico específico”, dizem os pesquisadores Sandro Dutra e Silva e Aurea Marchetti Bandeira, na conclusão de “O cerrado goiano na literatura de Bernardo Élis sob o olhar da história ambiental”.  
No estudo desenvolvido pelos cientistas,  a relação do homem com a natureza, como analisado nas circunstâncias da morte da família dos Anjos,  diante da força das águas do rio Corumbá, escancara características que podem ser reinterpretadas: tanto a natureza quanto as relações sociais não foram diligentes para os goianos na luta pela sobrevivência. Ao contrário: os autores falam da “inserção subalterna na sociedade” destes goianos. E a natureza é tão violenta, atual e simbólica, que no Youtube é possível encontrar simulações adaptadas de histórias de Bernardo, elaboradas por crianças e adolescentes do século 21.  
Assim, sob este olhar do escritor, extrai-se que o século atual o recebe como goiano que nos ensina a olhar a natureza com precaução, a ter ciência de que algo não vai bem nas relações sociais padronizadas do campo e de que não podemos aceitar a falsa goianidade imposta à real identidade logo após o fim do ciclo aurífero: Bernardo refuta que nós, os goianos, somos “atrasados”, como tantos descreveram e tentaram reforçar ao longo dos séculos.
É justamente contra isso que se estabelece a goianidade, uma reflexão identitária proeminente desde as décadas de 1970 e 1980 e por fim intensificada neste novo século.

Aurélio selecionou expressões do escritor goiano

Em sua recepção na ABL, quando Bernardo Élis tomou posse, Aurélio Buarque de Holanda o retratou de forma bem humorada como alguém que veio para desmentir Euclídes da Cunha: “Certa vez, em Brasília, saímos a caminhar. Pouco depois, notei que não éreis nada velocípede; e a menos de um quilômetro de donde partíramos, melancolicamente destes o prego. Tamanha mesquinhez de capacidade ambulatória levou-me a dizer: “Mas, Seu Bernardo, como você desmente a Euclides da Cunha! A julgar por você, o sertanejo é, antes de tudo, um fraco”. Bernardo era, sim, intelectual e, como dizia, “notadamente sedentário”.
O grande dicionarista sublinha a força telúrica de Bernardo e ressalta a riqueza de seu vocabulário, responsável por expor o goianês no eixo das grandes capitais. Assim, Aurélio traz expressões como coresma, dozento (que tem dó), passação, xilada (= embriagado), amarelar o pé de (= matar), piar fino, ser duro nas embiras e várias outras expressões, reforçando uma identidade que ainda está em formação, mas que funde valores sertanejos ao moderno-cerebral cibercidadão, desvendando um homem que na infância mesclava a leitura de grandes autores com a liturgia da igreja e marotices do modernista “O Tico-tico” – publicação infantil que mudou o jeito de ser brasileiro nas décadas iniciais do século passado.

Resumo: a goianidade em Bernardo

– Expressões recorrentes usadas em sua literatura
– A força da natureza: chuvas, enchentes, vegetação
– A injustiça social: o sertanejo inconformado
–  Sua vitória pessoal como ‘sertanejo’ intelectual e a grande reprodução de sua obra em outros modais (cinema, internet, jornais, etc)
–  A religiosidade cabocla 

Welliton Carlos é mestre em Comunicação e Direito e doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG)

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