Cotidiano

Estagiária com microcefalia fala sobre limitações, dificuldades e preconceito

Ela conta que escolheu o jornalismo como profissão por ser muito comunicativa e também porque sempre achou interessante dar oportunidade aos grupos que não têm voz, falar de assuntos que muitas vezes não são lembrados e para poder conscientizar a sociedade

diario da manha
Foto: Arquivo pessoal

A microcefalia é uma malformação congênita em que o cérebro não se desenvolve de maneira adequada. Dentre vários fatores que podem causá-la estão:

  • Infecções perinatais maternas, incluindo rubéola e zika vírus;
  • Alterações cromossômicas;
  • Craniossinostose, uma malformação de nascença identificada pelo fechamento prematuro de uma ou mais juntas entre os ossos do crânio antes do completo crescimento cerebral;
  • Meningite bacteriana;
  • Uso abusivo de drogas e álcool durante a gravidez;
  • Exposição química ou à radiação.

Aos 4 meses de vida, a estudante de jornalismo Eliade Costa da Silva, hoje com 21 anos, teve o diagnóstico de microcefalia associado a craniossinostose. Os médicos disseram que ela não iria andar, falar, se desenvolver e ficaria em estado vegetativo.

“Com o diagnóstico comprovado, a minha vida é da minha família foi impactada. Minha mãe teve que se dedicar em tempo integral a mim devido às limitações que eu tinha em questões motoras entre outras.
Além de deixar o trabalho e carreira de lado”, afirma Eliade.

Conforme a estudante, crescer com microcefalia foi um desafio que começou logo na escola. Ela teve dificuldades para acompanhar os conteúdos por conta do processo mais lento de aprendizagem e a falta de preparo dos profissionais complicou ainda mais essa etapa.

“Crescer com microcefalia foi um desafio e eu costumo dizer que vai ser um desafio para o resto da minha vida. Nem sempre a gente encontra atenção, tratamento e apoio adequados e isso dói bastante. Além de ter que lidar com minhas limitações e dificuldades e ter que superá-las, também tenho que enfrentar muito preconceito, falta de inclusão e muitas portas fechadas e isso é algo difícil de lidar, essas situações me deixam triste e desmotivada. Muitas vezes eu não encontrei o apoio necessário e adequado para me ajudar a desenvolver com minhas dificuldades diárias. Eu tive muita dificuldade nas escolas porque no início os professores não sabiam como lidar com a situação, como me ensinar e até hoje, estando na faculdade, ainda tenho essas dificuldades e enfrento esses problemas de apoio e atenção”, relata.

Segundo Eliade, não é só a dificuldade de limitações em si que ela enfrenta por ter deficiência, também há dificuldades pra se relacionar em sociedade, para ter uma vida, uma carreira, acreditar e alcançar os sonhos.

“Eu escuto muita frase do tipo ‘isso não é para você’. É como se eu não pertencesse e não pudesse estar ali. Isso machuca muito e as vezes me desmotiva. Lidar com os preconceitos não é nada fácil é um desafio diário e constante. Há dias que enfrento com mais facilidade e há dias que machuca bastante, mas eu tento lidar todos os dias com muita força, fé e esperança, acreditando nos meus sonhos e projetos e acreditando que Deus é o centro da minha história que escreve o meu caminho e que tudo dará certo”, diz.

Ela conta que escolheu o jornalismo como profissão por ser muito comunicativa e também porque sempre achou interessante dar oportunidade aos grupos que não têm voz, falar de assuntos que muitas vezes não são lembrados e para poder conscientizar a sociedade e contribuir todos os dias um pouquinho para tornar o mundo cada vez melhor.

“Além de ter o sonho de me realizar tanto profissionalmente e enquanto pessoa, eu tenho um sonho de que com minha história eu possa contribuir para modificar a vida de outras pessoas. Seria algo muito gratificante ver que com minha história eu consegui ajudar alguém, mudar a vida dela para melhor, isso me deixaria muito feliz. Todos os dias a gente enfrenta dificuldades, não é fácil, temos desafios, mas é possível”, afirma a estudante.

Eliade ressalta que também ficaria muito feliz se outras pessoas não passassem pelos mesmos preconceitos que ela tem passado e finaliza pedindo mais empatia para podermos construir um mundo mais acessível e sem preconceitos.

“Somos seres únicos. Cada um de nós temos nossa história, temos dificuldades e enfrentamos problemas ao longo da vida. Muitas vezes esses problemas são necessários para que nós possamos alcançar os nossos objetivos, para compor a nossa história e para que possamos ser quem nos tornamos. Então, não devemos julgar o outro pelo que a gente vê ou pelo pouco que sabemos. Devemos ter empatia, amar o próximo como ele é, sem preconceito e assim contribuir para um mundo melhor”, pontua.

Eliade lembra que são poucas as oportunidades como a que ela está tendo enquanto jornalista e ter esse lugar de fala é fundamental para que as pessoas possam falar de seus problemas e dificuldades.

“Muitas vezes outras pessoas não têm esse lugar e não conseguem contar suas histórias. Vejo que são poucas as oportunidades dadas às pessoa com deficiência, tanto no mercado de trabalho, como em outras facetas da vida, para que elas possam construir sua vida profissional e correr atrás de seus sonhos. Essa oportunidade que estou tendo como estagiária do DM e de poder falar sobre a microcefalia e dificuldade enfrentadas é fundamental”, explica a estudante.

Para o psicólogo Adriano Gualberto quanto mais diversos forem os ambientes, mais propícios eles vão ser à ampliação de conhecimento, debate e saberes.

“Se tenho pessoas diferentes, jeitos e culturas diversas, tenho mais possibilidades de chegar em outros lugares que não pensaria conversando com os mesmos. Novos estímulos produzem novos saberes, produzem a possibilidade de olhar o outro para além daquilo que conseguiria olhar quando só penso em mim mesmo. Pessoas diversas, ampliam o olhar para além daquilo que eu daria conta de fazer sozinho”, afirma.

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