A agonia da caridade
Redação DM
Publicado em 15 de novembro de 2016 às 00:28 | Atualizado há 2 anosO Hospital Espírita Eurípedes Barsanulfo, chamado Casa de Eurípedes, pede socorro. A instituição existe desde 1942 prestando serviços de assistência hospitalar em saúde mental para pessoas portadoras de transtornos mentais de diferentes naturezas e realiza também atividades educacionais com o Colégio Allan Kardec. O impressionante volume de cerca de 1.200 atendimentos realizados todos os meses soa como milagre em se tratando dos recursos alocados para a Casa e que sempre fica à míngua, dependendo da caridade comprometida de terceiros e das parcas entradas vindas do Poder Público sempre com os atrasos de praxe.
A situação se agravou nos últimos meses, em que os repasses do Sistema Único de Saúde se atrasaram, além de estarem defasados há mais de cinco anos sem aumento e com a Secretaria Municipal de Saúde não completando sua contrapartida desde julho desse ano, acumulando um volume de mais de R$ 1,5 milhão que não chegam para a ação desempenhada pela Casa de Eurípedes. “A solução tem sido buscarmos na comunidade ajuda inestimável para superar essas dificuldades e dar conta de manter o atendimento que nos propomos a fazer”, comenta Isabel Arantes.
A forma de buscar ajuda da comunidade tem sido variada em todos os sentidos para facilitar quem quer colaborar e precisa flexibilizar a modalidade dentro de suas possibilidades. “Criamos o ‘Programa Amigo’, que se destina a arrecadar donativos em dinheiro para as obras que tradicionalmente desenvolvemos aqui de acordo com o planejamento. A mais recente prioridade é concluir o campo de futebol para interação e terapia dos nossos internos e cobrirmos a quadra poliesportiva onde também são realizadas atividades esportivas terapêuticas”, explica Isabel. Quem deseja procurar a Casa de Eurípedes para dar sua contribuição pode fazer pelo telefone 3236-1310 e se tornar um colaborador. Há uma outra modalidade de colaboração que são os voluntários atuando em suas diversas áreas de trabalho ou vocação, como terapeutas, enfermeiros, auxiliares e tantas almas bondosas que buscam apenas dar um pouco do melhor de si para aplacar a dor de outros.
Hospital
A Casa de Eurípedes atende mensalmente cerca de 1.200 pessoas em suas diversas modalidades, principalmente pessoas com transtornos mentais e dependência química em álcool e drogas. Há indivíduos que ficam transitoriamente ou os familiares os levam para uma espécie de cuidados durante o dia. Há quem não possa ficar sozinho em casa por seus problemas mentais e psiquiátricos e que são levados para passar o dia, como se fosse uma espécie de “creche” para quem tem transtornos variados. Lá eles recebem refeições, interação com outros pacientes, atenção integral para superar as crises e ainda passam por assistência espiritual kardecista.
Há um segmento que precisa de maior atenção e que por isto ficam internados para se livrar da dependência das drogas e álcool ou por transtornos mentais. Para a assistência desses é que a dificuldade é ainda maior, porque os recursos públicos para a manutenção desse atendimento sempre precário que o Poder Público dispensa são insuficientes e chegam sempre com atraso.
O Sistema Único de Saúde paga por paciente parcos R$ 49,00 mensais, a Secretaria Municipal de Saúde dá um complemento que está atrasado desde julho e o custo de cada paciente fica em torno de R$ 95,00, com suas cinco refeições diárias, alojamento, roupas, lavanderia e medicamentos para driblar a síndrome de abstinência ou para conter os surtos psicóticos.

Efeitos
A paciente Viviane Silva Assis fica internada por alguns períodos para conter as crises psicológicas que tem em virtude de um trauma. Sorridente e com vontade de viver, ela diz ter 48 primaveras e que se sente muito bem com o atendimento que recebe na Casa de Eurípedes. “Meus dias são mais alegres quando vivo a tranquilidade daqui, com paz de espírito e convivência boa com as pessoas”, comenta ela.
Igual a Viviane há outros pacientes que se interagem com os demais internos e com as pessoas que trabalham para lhes dar paz de espírito. Aliás, a ênfase é justamente a doutrina espírita condensada pelo médium francês Allan Kardek e difundida por almas iluminadas como o educador e jornalista Eurípedes Barsanulfo, que viveu em Sacramento, Minas Gerais entre os anos de 1880 e 1918. Eles recebem medicação específica prescrita por médicos que dão assistência na Casa, fazem ginástica e todos os tipos possíveis de terapia ocupacional como marcenaria, leituras e recebem atendimento espiritual.
Wanderson da Conceição é um jovem de 22 anos que já tem muita história em sua curta existência. Casado e com dois filhos, ele viu sua vida desmoronar quando se envolveu com drogas (maconha e álcool). Baiano de Correntina, ele trabalhava como operador de moinho e conta que chegou a pegar coisas de casa para vender e sustentar a compra de drogas. “Aqui sei que vou conseguir ficar livre desse inferno que são as drogas e vou poder viver para minha família”, sonha.
A operária Lindalva Antônia Pereira da Silva, 57 anos, tem uma história de vida mais sofrida. Foi apresentada para o mundo das drogas ainda criança, com 10 anos, e experimentou todo tipo de porcaria que entorpece e vicia: maconha, merla, crack, cocaína, cola de sapateiro, cachaça, optalidon (remédio), tinner. “Desci ao inferno com as drogas, mas graças a Deus consegui sair e viver”, comemora ela. Lindalva conta que viveu na rua, praticou furtos, roubos, tráfico e toda sorte de crimes a que foi exposta. Suas irmãs morreram de overdose e ela ficou órfã de pai e mãe sem conseguir deixar a vida louca que levava.
Hoje, recuperada e longe das drogas, ela conta que foi interna da Casa de Eurípedes e que foi nessa instituição que conseguiu apoio para deixar a vida desgraçada que levava. O resultado positivo se expandiu e Lindalva hoje ajuda jovens e adultos próximos de sua casa em Aparecida de Goiânia a não entrarem no mundo das drogas, ajuda quem já entrou a sair e trabalha de forma remunerada na Casa de Eurípedes. “Quero mostrar para todos que eu consegui sair com ajuda certa como a que encontrei na Casa de Eurípedes e sonho em ajudar mais irmãos a deixarem essa vida porque eles não podem ser fracos e deixar o vício ser mais forte que eles”, finaliza.

