A arte de expor palavras na rua: bancas resistem na Avenida Goiás
Redação
Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 22:08 | Atualizado há 3 meses
Avenida Goiás abriga banca que se mantém guardiã de ritual: leitores promovem pequenas assembleias
Eduardo Domingos, o cara da banca, cujo movimento diário diz ser constante, trabalha sete dias por semana na Avenida Goiás, no Centro, próximo ao cruzamento com a Rua Cinco. Acredita que a informação estimula nas pessoas a criticidade, desperta-lhes a consciência.
Por volta da uma e meia da tarde, os jornais de fora começam a chegar. Desembarcam no aeroporto Santa Genoveva e, naquele mesmo lugar, o motoboy os apanha, transportando-os para o Centro da capital goiana. Ficam expostos ali. Dezenas se achegam para comprá-los ou telefonam para reservá-los. Mas há quem, gorjeando, prefira obtê-los a partir do tête-à-tête.
Todas as manhãs, das oito às onze, todos os dias da semana, os cidadãos leem os jornais. Como dizia o filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), a leitura matutina de artigos e reportagens é a oração do homem moderno. Um ritual afetivo, talvez religioso.
Sentado no meio-fio, o economista Carlos Custódio, 79, segura o exemplar. É onze e meia de um sábado: lê como se as palavras lhe fossem uma calçada. Diante dele, a rua entoa sons urbanos, retumbando o ranger dos freios, as tampinhas pisoteadas, o BRT parado na estação e depois saindo de lá. No semáforo, ressoa a buzina urgente do descanso que se avista.
O repórter se achega e, de repente, agacha-se — quer a mesma altura de Carlos. “Confio mais no jornal do que na rede social”, declara o senhor, sorrindo. Ei-lo consciente de seu hábito, já condenado à extinção pelos profetas da tempestade. “Ainda tenho esse vício.”
Vício bom, concordemos. Os números, no entanto, engendram preocupação. Segundo a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita entre abril e julho de 2024 pelo Instituto Pró-Livro, em parceria com Fundação Itaú e o IPEC, Goiânia apodera-se da última posição dentre as 27 capitais brasileiras no que compete à prática cotidiana de leitura.

Pasme: apenas 40% da população com cinco anos ou mais confessou ter lido ao menos um livro (impresso ou digital) nos três meses anteriores à entrevista. Além das descobertas estatísticas, esse cenário revela inconteste desleixo com a formação leitora no Brasil.
“A leitura é uma ferramenta de emancipação humana, social, cultural e profissional. A ausência desse hábito compromete o pensamento crítico, o exercício da cidadania e o acesso a oportunidades educacionais”, afirma a Universidade Federal de Goiás (UFG), em nota.
Detrás do balcão, Eduardo Domingos, 49, arqueia a sobrancelha, como se pensasse em desistir e tal hipótese lhe soasse consequência da virtualização. “Seria prudente continuar? Haveria saída?” Eduardo, há anos à frente da banca, na Avenida Goiás, conjectura que sim.
Enquanto conversa com a freguesia, o comerciante conta que o movimento está alto, embora precisasse se adaptar ao novo mundo. “A gente começou a vender apostilas para concurso”, relata Eduardo, informando que seu público é composto por pessoas entre 30 e 60 anos.
Publicações
Eis o flâneur-jornalista, evocando o filme “O Acossado”, de Jean-Luc Godard. Ele enquadra os jornais e revistas expostos na banca. Publicações estrangeiras, como “The New Yorker”, “Esquire” e “The Atlantic”, mantêm seu público. Até mesmo no Brasil, país com déficit de leitores, os apreciadores pausam a vida lendo “Quatro Cinco Um”, “Cult” e “Placar”.
No “Le Monde Diplomatique”, em editorial publicado em janeiro, os jornalistas franceses Benoît Bréville e Pierre Rimbert refletem sobre o jornalismo impresso na pós-modernidade. Para eles, o produto gutemberguiano simboliza a reconquista da curiosidade, o domínio da concentração, a resistência ao furto de informações pessoais e às invasões da vida privada.
“Na era da informação algorítmica, o papel não controla seu leitor, não captura seu tempo, não pirateia suas emoções. Ele não traça um caminho estatístico contra nossa vontade: exige, ao contrário, um esforço — seu manuseio por vezes exige até mesmo algumas contorções”, afirmam Bréville e Rimbert, em texto ensaístico que abre a edição de janeiro do periódico.

Professor declara que livro físico desacelera leitura
Professor de língua inglesa, Jean Leal Filho, 32, participa de clubes de leitura. Preza por obras físicas, pois entende que apreciá-las de tal forma implica em melhor degustação livresca. “Os formatos digitais, muitas vezes, apressam a degustação do texto”, diz Jean à reportagem.
Morto em 2016, aos 84 anos, o filósofo Umberto Eco percebia a leitura como garantia de democracia e de liberdade. Para ele, a pluralidade dos jornais impressos exerce função de controle. “Mas o jornal tem que saber mudar e se adaptar”, disse ao “El País”, em 2015.
Aqui está a cidade e a palavra impressa. Goiânia se ergue de forma acelerada, líquida, como que sob a fragmentação capitalista da mercadoria na pós-modernidade. Nas gazetas, a esfera pública se revela da primeira à última linha, no que diz respeito às presunções, à probidade e ao progresso civilizatório — sem esquecer, todavia, da vida cultural e de seu ecossistema.
Preocupante e distópico, o prognóstico do sumiço dos jornais, livros e revistas robotizaria a sociedade, como no pesadelo narrado por George Orwell em seus romances. Mas, apesar de tudo, sempre haverá pessoas para ler no papel, segundo Mario Vargas Llosa, morto aos 89 anos, em 2025. Para ele, basta evitar que a cultura da tela seja mero entretenimento.
Palavras
O escritor peruano, conhecido por sua ficção e seus ensaios, dedicou a vida à palavra. Liberal, ele escandalizava-se ao afirmar que, se o mundo seguisse substituindo a escrita pela imagem, haveria o risco de desaparecimento da liberdade, da capacidade reflexiva e da imaginação, bem como das garantias civis, a exemplo da democracia — herança dos gregos antigos.
Do outro lado da Avenida Goiás, um sebo reúne aos sábados pela manhã dezenas de literatos. Entre vinhos e livros, discutem escritores, debatem tendências e, satisfeitos, vão para suas casas. “Virou um ponto de encontro”, disse o dono. “Todo fim de semana é assim: cheio.”
Eduardo Domingos, o cara da banca, caminha contra o vento das fake news. “Outro dia, veio uma pessoa aqui me perguntando se tal capa da ‘Veja’ já havia chegado à banca”, diz, rindo. “Detalhe: tratava-se de mentira das redes sociais.” Às vezes, revela, acontece isso.

Fotos: Andréia Pires