A ausência do forrozeiros
Redação DM
Publicado em 25 de junho de 2021 às 16:35 | Atualizado há 5 anos
Por mais um ano, a roda de pessoas na fogueira não será completa, a disputa para saber quem tem o melhor licor da região acontecerá de forma virtual e as bandeirolas não estarão penduradas como parte da decoração das arenas de forró. Estes espaços, inclusive, novamente não receberão milhares de “postulantes a dançarinos” e os músicos encontrarão seu público através de uma tela digital.
Contudo, longe dos circuitos televisivos, lives grandiosas e campanhas publicitárias, em que se encontram nomes como Wesley Safadão, Sol Almeida e Xand Avião, os “forrozeiros raízes” tentam driblar as limitações impostas pela pandemia da covid-19 no segundo ano consecutivo sem as festas de São João para arcar com as despesas ao final de cada mês.
No Nordeste, os festejos do mês junho – embalados pelos dias de Santo Antônio, 13, São João, 24, e São Pedro, 29, – mobilizam praticamente toda a cadeia produtiva da região. Cálculos feitos pelos Estados em 2020 apontaram prejuízo estimado em mais de R$ 1 bilhão e, segundo o Ministério do Turismo, a não realização este ano gerará uma perda de, pelo menos, R$ 950 milhões. Um dos nomes mais conhecidos da cena tradicional, o cantor Flávio José, costumava fazer uma média de 26 shows só neste mês. “Me sinto muito triste, impotente e sem esperança de quando iremos voltar. Para ser sincero, meu coração diz que no próximo ano ainda iremos ficar em casa. É o que eu sinto”, confessa.
Para o forrozeiro paraibano de 35 anos de carreira, o lento processo da vacinação em massa e o não cumprimento, por parte da população, das orientações dadas pelas organizações de saúde, como evitar aglomerações e a utilização constante das máscaras, retardarão o retorno dos eventos. O veterano conta que a última apresentação completa foi realizada em janeiro de 2020. “De lá para cá, não entrou renda de nada, mas as contas chegam toda hora”, pontua. Em Campina Grande, uma das maiores representantes do Estado, um circuito de lives culturais e artísticas foi montado. No último final de semana, por exemplo, a ação contou com show de Wesley Safadão e participação da paraibana Juliette Freire, campeã do Big Brother Brasil 21.
Vista como a capital do Forró há 40 anos, Caruaru, agreste de Pernambuco, anunciou a suspensão dos eventos ainda em maio. Na edição de 2019, cerca de 3 milhões de pessoas passaram pelo município e estima- -se que R$ 200 milhões tenham sido movimentados no período. Por lá, a Câmara de Vereadores aprovou o BEM São João, um benefício emergencial para contemplar artistas locais que participaram da festa há dois anos. O pagamento será uma parcela única em valores que variam de R$ 1 mil a R$ 3 mil. Além disso, as cidades Jaboatão, Olinda e Vitória de Santo Antão mantiveram os decretos de 2020 referentes a proibição de fogueiras e fogos de artifício durante as celebrações.
VIROU LIVRO
Buscando entender as consequências da não realização das tradições juninas no ano passado, as pesquisadoras e professoras universitárias Lúcia Maria Aquino de Queiroz e Carmen Lúcia Castro lançaram o livro “Impactos da Covid-19 nos Festejos Juninos da Bahia”. A obra procura mensurar as implicações para os agentes culturais que participam destes festejos, assim como municípios, associações comerciais e barraqueiros. Além disso, identificou as medidas de enfrentamento adotadas, sendo que algumas estão sendo reaplicadas este ano pelas autoridades públicas.
Lúcia Maria Aquino de Queiroz acredita que, para além dos prejuízos evidenciados, a pausa de dois anos nos festejos permitiram evidenciar uma série de problemas na forma como o movimento cultural acontece. “A gente incorpora o forró aqui na Bahia de forma sazonal. Precisamos cuidar dessa tradição o ano inteiro. Os quadrilheiros não estão conseguindo pagar nem as roupas; falta ampliação dos concursos daqui. Na comemoração do próprio São João, às vezes, o palco principal é ocupado por uma atração que nem tem relação com a festa e os que têm estão em palcos sem som e iluminação adequados”, critica.
Apesar dos dados catalogados, Lúcia se mostra positiva para a realização dos festejos assim que a pandemia fora controlada no Brasil. “Sem sombra de dúvidas, o próximo São João presencial será muito iluminado no sentido de que haverá uma procura intensa por parte do público. Contudo, espero que já seja fruto de uma série de reflexões e que venha com mudanças efetivas. A festa não precisa ser guiada pelo movimento midiático. A ideia é que tenha destaque de fato quem faz o São João acontecer”, reforça. ( Júnior Moreira Bordalo, especial para a Agência Estado)