Cotidiano

A conquista da educação de qualidade

Redação DM

Publicado em 8 de março de 2017 às 02:41 | Atualizado há 9 anos

Recebi da professora Raquel Teixeira, secretária de Educação, Cultura e Esporte do Estado de Goiás, um conjunto de 18 apostilas produzidas pelo governo do Estado de Goiás no âmbito do projeto Aprender +, ou, como seria o correto escrever “aprender mais”. O uso do sinal de adição em lugar do vocábulo “mais” é recurso de propaganda comercial que, infelizmente, vai se intrometendo no idioma para corrompê-lo. Mas há centenas de dissertações acadêmicas legitimando este e outros atentados ao idioma que levam à barbarização da última flor.

Fora isso, trata-se de um extraordinário projeto, de uma “ferramenta”, ou estratégia de ensino que deve ser louvada e estimulada. Houve um tempo, no Brasil, que a escola era boa, mas acessível a poucos. Depois de l964, construíram-se prédios escolares por toda parte, mas o ensino ficou ruim. Os que podem pagar, matriculam seus filhos em escolas particulares, presumidamente melhores do que as públicas só por serem particulares.

O grande desafio, hoje, não é disponibilizar prover mais vagas nas escolas públicas, mas prover ensino de qualidade aos que não podem estudar numa escola particular. Aliás, chega a ser questionável se o ensino particular tem mesmo toda a qualidade que lhe atribuem. Mas este não é o caso.

O conjunto de apostilas que a secretária me enviou – agradeço pela gentileza -, refere-se, apenas, a duas disciplinas: Língua Portuguesa e Matemática ( na verdade, Aritmética, um dos ramos em que a matemática se divide). São partes de apostilas para cada bimestre dos chamados “Ensino Fundamental” e “Ensino Fundamental”. Um para é para o professor; o outro, para o aluno. Trata-se, no entanto, de “material complementar”,

De acordo com os autores, trata-se de material a ser utilizado em sala de aula e também fora dela tanto por professores, alunos, coordenadores pedagógicos e até pelos gestores do estabelecimento escolar. “É um projeto que, sobretudo, vai apoiar os esforços de todos em prol da aquisição do conhecimento com sucesso”, afirma-se na “Apresentação”.

É, de fato, um projeto inovador. Professor e aluno interagindo a partir de um mesmo texto resulta em ganhos efetivos para ambos. O professor podendo orientar e corrigir mais eficazmente o processo de aprendizado. Para o aluno, o processo significa uma assimilação mais rápida e prazerosa do conteúdo ministrado.

As apostilas são muito bem feitas. São bonitas, do ponto de vista gráfico, contendo ilustrações de Jorge Braga. São simples e bastante funcionais. Há erros também, aqui e ali. Poucos. Errinhos de digitação, de pontuação e, ocasionalmente, de sintaxe. Nada, porém, que comprometa a qualidade do trabalho e venha tisnar o mérito dos autores. Poderão ser erradicados em edições vindouras.

As apostilas dedicadas à Língua Portuguesa envolvem leitura e discussão de textos. A 1° bimestre do 5° Ano, por exemplo, traz fábulas de Esopo, de Fedro, e de Monteiro Lobato, entre outros. Traz também poemas antológicos e boas crônicas de autores contemporâneos. Ou seja, literatura de qualidade destinada não apenas a informar, mas a formar, a ajudar o cultivo do bom gosto.

O Projeto já seria digno dos mais entusiásticos elogios se fosse apenas um dispensador de bons textos literários. Mas ele, o projeto, vai além disso. Aí entra o professor no papel de facilitador da aprendizagem. Aquele que ensina deve ser ensinado. É o que faz o projeto. O professor é ensinado – melhor dizendo, exortado – a instigar as habilidades do aluno a não apenas ler bem, mas compreender o que leu. Não é o caso de entrar aqui nas minudências técnico-pedagógicas do projeto. O professor deverá se servir de várias técnicas para levar o aluno a tirar o melhor proveito do texto.

O papel do professor, neste contexto, não é tanto o de uma autoridade a que os alunos devem prestar total obediência. Sua função agora não é sentenciar em última instância; é problematizar os casos. Na perspectiva de um ensino de qualidade, o professor se faz um praticante da maiêutica. Sócrates, lá na velha Atenas, já sustentava que seu ensino consistia em ajudar o aluno a chegar, por si mesmo, às consequências necessárias. Ele, Sócrates, era como um parteiro que facilita o parto. Seu método, a “maiêutica”, era justamente isto: trazer o conhecimento a luz. A propósito, a mãe dele era parteira.

O salto qualitativo está em que a escola já não é apenas um empório do conhecimento, onde cada um pega lá a informação que lhe convêm. Trata-se de levar o aluno ao patamar mais alto do saber. O conhecer sem a tutela do saber não tem valor, não pode ser chamado de Educação. Saber é capacidade de julgar, de manejar conscientemente as regras do entendimento e os princípios da Razão. Educação é o que ensina a refletir, a organizar as ideias, inferir. A pensar.

“Aprender +” é resultado de um trabalho de equipe. Mais de 40 profissionais da Educação Pública participaram da elaboração deste valioso material, que é fornecido gratuitamente a alunos e professores. Mereciam ser citados nominalmente, aqui, mas o espaço desta folha não comporta. Em todo caso, estão todos de parabéns. A secretária Raquel, grande maestrina dessa orquestra, confirma uma vez mais o acerto do governador Marconi Perillo em tê-la nomeado para o cargo.

 


O grande desafio, hoje, não é disponibilizar mais vagas nas escolas públicas, mas prover ensino de qualidade aos que não podem estudar numa escola particular”

Helvécio Cardoso

 

 

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