Cotidiano

A selva dos outros monstros

Redação DM

Publicado em 10 de dezembro de 2016 às 23:55 | Atualizado há 2 anos

O Brasil movimenta um valor equivalente a 3 bilhões de reais no mundo com o tráfico de animais silvestres, retirando do habitat natural quase 40 milhões de espécimes. Hoje, o país está entre os dez países que mais contrabandeiam animais silvestres no mundo, contribuindo com, pelo menos, 20% da participação mundial no mercado negro.

O Centro-Oeste é a segunda rota de escoamento do tráfico mais importante no Brasil, além de ser uma rica fonte para caçadores e traficantes de animais bastante apreciados em outros estados e no exterior. Entre 2014 e 2015, mais de 2.300 animais foram apreendidos pelo Ibama em Goiás, entretanto, somente quatro espécimes foram confiscados pela Polícia Rodoviária Federal no mesmo período.

A Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (RENCTAS) publicou, em 2002, o Relatório Nacional Sobre o Comércio Ilegal da Fauna Silvestre. Até então, é o único trabalho que analisa a atividade ilegal no país, e o único registro oficial que evidencia a importância do assunto, tendo em vista a pouca conscientização da população, a ineficiência ou extrema dificuldade no trabalho de fiscalização, e o rendimento exorbitante dos traficantes. Tais pontos  estimulam a atividade que apresenta poucos riscos e muito lucro, um dos aspectos bastante explorados pelo relatório, que também não deixou de analisar os danos causados ao meio ambiente, e o descaso praticado por algumas instituições responsáveis pela fiscalização e repressão ao contrabando de animais silvestres.

Compreender a dimensão do tráfico é muito difícil, senão impossível, segundo o relatório divulgado pelo RENCTAS. Por se tratar de uma atividade ilegal, a única forma de levantar dados e registrar números  relacionados ao contrabando é se basear no número de prisões efetuadas, analisar as rotas de escoamento e os relatórios feitos pela Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, IBAMA e Comandos de Polícia Militar Ambiental de cada estado do país. Ainda que os números relacionados ao tráfico sejam especulativos, a probabilidade é que os valores sejam muito maiores e a tendência é de que o contrabando continue crescendo a níveis assustadores.

Números

O Brasil tem enorme participação no tráfico, segundo números do Ministério do Meio Ambiente e do Ibama. Estima-se que o Brasil movimente 3,48 bilhões de reais anualmente, o que equivale a bem mais da metade da produção de renda bruta nacional. Quase 40 milhões de vidas silvestres são retirados todo os anos no país, e o número de animais comercializados seria muito maior se o índice de perdas não fosse tão grande. Segundo o relatório do RENCTAS, é estimado que para cada produto animal (pele, dentes, penas) são mortos pelo menos três espécimes, enquanto para o comércio de animais vivos esse índice é ainda maior: a cada dez animais retirados do seu habitat para o tráfico, apenas um sobrevive.

O estresse emocional e as precárias condições oferecidas durante todo o processo de captura, transporte e comercialização é o principal fator que contribui para a alta taxa de mortalidade de animais vítimas do contrabando. Outros fatores que contribuem para a mortalidade são os casos em que os animais escapam feridos e acabam morrendo mais tarde, os que por causa das peles danificadas e os animais “fora do padrão” são descartados, e casos de fêmeas que são sacrificadas durante a captura de filhotes, que na maioria das vezes também morrem. No caso das Saíras, por exemplo, as fêmeas são sacrificadas por não terem valor comercial.

O contrabando de animais silvestres é a terceira atividade ilegal mais rentável ao mundo do crime, perdendo apenas para o tráfico de drogas e para o tráfico de armas, que também acabam se ligando ao tráfico de animais. Na América Latina, os animais silvestres são vistos como sendo lucrativos de duas maneiras para os cartéis de drogas: o próprio animal e as drogas que podem transportar. Em 1993, por exemplo, foram descobertos cerca de 36 kg de cocaína numa jiboia apreendida nos Estados Unidos, oriunda da Colômbia. No Rio de Janeiro, também, foram encontrados 1,37 toneladas de maconha junto a 300 tartarugas apreendidas em 1998. Até hoje são enviadas peles de jacaré, enviadas de países sul-americanos para a Europa, impregnadas de cocaína pura, disfarçada de conservante.

As Regiões Sul e Centro-Oeste são as que menos participam do comércio ilegal de animais, mas ainda assim não estão isentas das estatísticas. Em Goiás, 2301 espécimes foram apreendidos entre 2014 e 2015, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Desse número, 1659 puderam ser salvos e enviados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS), sendo que alguns já foram soltos. O campeão é o Canário-da-terra (898 espécimes confiscados), apreciado pela bela coloração das penas, seguido pelo papagaio e pelo pássaro-preto (145 animais confiscados de cada espécie).

No entanto, os números referentes a detenções, multas, e animais, armas, veículos e pessoas apreendidos, são irrisórios, senão, lamentavelmente ridículos diante da tamanha atividade criminosa em Goiás. Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), foram apreendidos 10 rifles usados para a caça, sendo 3 carabinas e 7 espingardas, 5 animais mortos e 263 espécimes vivos, 1,25 toneladas de pescados e 34 pessoas detidas por cometer crimes ambientais.

Para se ter uma ideia da participação do Brasil no comércio ilegal, o contrabando de animais movimenta mais de 20 bilhões de dólares em todo o mundo. Os valores que o Brasil circula já supera 1 bilhão de dólares, o que equivale a 20% de todo o comércio mundial.

Dificuldades para combater o crime

No Brasil, as maiores dificuldades em combater o contrabando de animais silvestres no Brasil são a falta de contingente, falta de veículos, falta de equipamentos e falta de treinamento adequado, segundo relatório do RENCTAS. Em Goiás, a maior dificuldade é a falta de treinamento adequado, seguida da falta de veículos e de equipamentos.

Mais de 40% dos animais contrabandeados são destinados à exportação, fazendo com que o tráfico usufrua de um dos pontos fracos do Brasil: a medíocre vigilância nas fronteiras. São 17 mil quilômetros de fronteira, guarnecidos por apenas 23 postos oficiais de fiscalização da Polícia Federal, da Receita Federal e do Ministério da Saúde, somados.

A falta de capacitação dos agentes também é outro referencial, tendo em vista que a PF envia os agentes recém-formados para esses pontos de fiscalização, ou seja, agentes pouco preparados e com pouco conhecimento estratégico sobre a forma de atuação do tráfico, seja de animais silvestres, seja de armas e drogas.

A falta de cooperação internacional é outro grande obstáculo no combate ao crime, não só na América do Sul, mas em todo o mundo. O intercâmbio entre os países fronteiriços e o Brasil, sobre o contrabando de animais, é inexistente, e até o momento, não existe nenhuma lei internacional contra o tráfico de animais silvestres. O sucesso do combate ao tráfico de animais silvestres vai depender diretamente da cooperação internacional entre os países, que deve ser feita entre as polícias de cada país e a Interpol e dos serviços alfandegários.

Consequências

O comércio ilegal converge em uma pressão de exploração quase impossível de as espécies suportarem, pois é realizada sem critério algum. A captura de pássaros canoros é quase sempre realizada no período reprodutivo, quando os animais defendem seus territórios e demonstram, na mentalidade do caçador, a potencialidade a ser explorada nas disputas de canto. A retirada da natureza desses espécimes mais privilegiados é altamente nociva, já que impede a transmissão de genes superiores, propiciando uma redução na qualidade genética das espécies envolvidas

Não apenas a eliminação total da espécie, mas também a redução de sua abundância, acarreta consequências ecológicas. A caça excessiva, em algumas regiões da Amazônia Central, levou ao declínio das populações de jacarés, o que acarretou uma redução nas populações de espécies de invertebrados que se alimentavam dos excrementos desses animais. Como consequência, ocorreu uma redução das populações das espécies de peixes que se alimentavam desses invertebrados, levando à carência de alguns peixes que são valiosos recursos alimentares para a população local.

Além dos próprios danos ecológicos, outra consequência grave provocada pelo tráfico e captura indiscriminada dos animais silvestres são os problemas sanitários. Quando os animais são comercializados ilegalmente, não passam por nenhum controle sanitário, podendo transmitir doenças graves, inclusive desconhecidas, para o homem e também para as criações domésticas, chamadas de zoonoses.

As zoonoses mais comuns transmitidas pelos primatas, por exemplo, são a febre amarela, hepatite A, raiva e tuberculose. Os répteis quelônios, que são os jabutis, os cágados e as tartarugas, podem transmitir doenças enterobacterianas por salmonelose, enquanto os psitacídeos, representados pela arara e pelo papagaio, podem infectar indivíduos ou ambientes com a toxoplasmose. Grande parte dessas doenças podem ser letais, já que a maioria são bacterianas, e a esmagadora maioria dessas bactérias apresentam mutações bacterianas ainda desconhecidas por determinadas populações de alguns países, ou até mesmo pela farmacologia. Um surto epidêmico de alguma grave doença pode facilmente ser desencadeado pelo tráfico de animais silvestres.

Já são conhecidos mais de 180 tipos de doenças que podem ser transmitidas dos animais para os seres humanos, e comprar um animal comercializado ilegalmente traz uma série de riscos. A situação de estresse que eles passam durante a comercialização pode levar à queda de resistência imunológica e desenvolvimento de doenças transmitidas por outros animais infectados com tais doenças, tornando-os portadores de agentes infecciosos dentro das residências.

Espécies em extinção

Os números, por si só, já mostram o quanto o contrabando degrada o meio ambiente. Em outros países, onde a atividade é muito mais intensa, principalmente no continente africano, os chimpanzés foram extintos na Gâmbia, na Burkina Faso, no Benin e em Togo. No Brasil, embora seja o país com a fauna mais rica do mundo, a ararinha-azul, por exemplo, que era unicamente encontrada na amazônia brasileira,  já foi extinta, restando apenas 70 indivíduos que estão em cativeiro. Hoje, mais de mil espécies estão em extinção no Brasil, como o mico-leão-dourado, espécie só encontrada no Brasil (endêmica) e o tamanduá-bandeira e a jaguatirica, espécies bastante comuns no cerrado goiano.

O Brasil é o país com a maior biodiversidade de flora e fauna do planeta, e calcula-se que todas as espécies de plantas e animais daqui, conhecidas e catalogadas pela ciência, não chegam a representar 12% do número obtido até agora, segundo estimativas do Ministério do Meio Ambiente e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade ( ICMBio). Na Mata Atlântica, por exemplo, 39% dos mamíferos são endêmicos, acompanhados de 15% dos primatas, 160 espécies de aves e 183 de anfíbios, segundo apontamento de pesquisas de organizações não governamentais.

No Cerrado existem 1.366 espécies de animais, sendo 199 espécies de mamíferos, 837 de aves, 180 de répteis e 150 de anfíbios. O número de animais endêmicos no bioma também é bastante expressivo, totalizando 3,4% das aves, 11% dos mamíferos, 20% dos répteis e 30% dos anfíbios, de acordo com a Rede Cerrado, organização especializada na região. Entre os animais, estão o Beija-flor-de-gravata-verde, a Gralha do Cerrado, Rato-de-espinho, Rolinha-do-planalto e Morceguinho-do-cerrado.

 

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