Cotidiano

A última provocação de Charb sai em livro

Redação DM

Publicado em 28 de novembro de 2015 às 05:05 | Atualizado há 11 anos

RIO – No dia 5 de janeiro deste ano, o cartunista francês Stéphane Charbonnier, mais conhecido como Charb, pôs o ponto final num texto que, mal sabia ele, seria sua última provocação aos racistas e aos fundamentalistas. Diretor do jornal satírico “Charlie Hebdo”, Charb foi um dos 12 mortos dois dias depois, quando os irmãos Saïd e Chérif Kouachi invadiram a redação e abriram fogo. O libelo em defesa da liberdade de expressão “Carta aos escroques da islamofobia que fazem o jogo dos racistas” (LeYa/Casa da Palavra), publicado postumamente, sai agora no Brasil em meio a uma nova série de atentados e ameaças na França e na Europa.

Para Marika Bret, diretora de Recursos Humanos do “Charlie” e porta-voz da publicação, mais do que nunca a defesa da liberdade de expressão feita por Charb é válida, depois que a França foi atacada por um grupo que defende o estabelecimento de um califado.

— O texto de Charb é essencial porque a liberdade de expressão se exerce numa democracia, nunca numa teocracia ou numa ditadura que utiliza a religião para impor o obscurantismo e o silêncio — diz Marika ao GLOBO por e-mail.

O texto ácido do manifesto atira para todos os lados: critica religiosos, defensores do multiculturalismo, políticos franceses e imprensa. O argumento de Charb é que muitos dos que militam contra a islamofobia, na verdade, não o fazem para defender os muçulmanos, mas antes para defender o Islã. O cartunista dá um exemplo: quando um skinhead ataca uma mulher muçulmana de véu, o anti-islamófobo defende a vítima por sua condição de representante da religião, não por ser uma mulher que tem o direito de se vestir como quiser. Na sua opinião, o termo islamofobia só serve para encobrir o racismo e a xenofobia que vêm crescendo no país, dos quais ele era um crítico implacável.

Perguntada sobre qual seria a posição de Charb em relação à atual crise de refugiados na Europa, que também vem alimentando o discurso da extrema-direita, e à política externa francesa, a diretora do “Charlie” lembrou que o colega sempre defendeu a igualdade de todos os cidadãos franceses.

— Quem vive na França tem direitos garantidos pela República Francesa. Não há cidadãos de segunda classe.

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