Cotidiano

Adonis: ‘É preciso combater o EI também com a cultura’

Redação DM

Publicado em 18 de novembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anos

MADRI – Adonis, poeta sírio radicado em Paris e eterno candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, não hesita em oferecer sua própria visão do Oriente Médio: “Não pode haver uma revolução árabe sem uma separação total e radical entre a religião e a cultura, a sociedade e a política”, diz, cujo nome verdadeiro é Ali Ahmad Said Esber.

Como o senhor se sentiu quando a guerra da Síria chegou ao coração de Paris?

Não me surpreendeu. A vocação do Daesh (Estado Islâmico, na sigla em árabe) e do terrorismo é ser internacional para demonstrar que estão aí, que são fortes.

Por que o discurso do Estado Islâmico fala tão profundamente a alguns jovens?

Esse discurso está influindo nas mentalidades. Há uma memória histórica em relação ao Ocidente e, ao mesmo tempo, existe um estado psicológico: a frustração dos árabes em todos os planos. Por isso, o Daesh consegue influenciar tanta gente. Conseguiu encontrar um espaço na mentalidade de alguns árabes, que vivem num clima de niilismo. É necessário buscar as raízes dessa influência, combater o Daesh também com a cultura. O Exército pode eliminar, mas não consegue muito. Não se pode vencer a violência com mais violência, há que buscar outro caminho.

Existe uma saída para o conflito sírio?

Sempre há que se esperar que exista uma saída, um povo sempre poderá encontrar uma. Não podemos nos desesperar. A esperança faz parte da personalidade de todos os povos.

Mas as feridas da guerra civil síria parecem profundas…

As feridas de uma guerra civil são sempre profundas. Uma guerra civil é uma ferida em si mesma, mas continuo sendo otimista quanto aos povos, e pessimista em relação aos regimes. Eles não podem fazer nada. Não há nenhuma diferença entre os regimes árabes, são todos tirânicos. Só há pequenas variações, diferenças de grau, não de natureza. Nenhum regime árabe é democrático, em nossa História, não conhecemos a democracia. Não há direitos humanos, as mulheres estão presas à lei corânica, a sharia. Ainda que na Tunísia tenha havido alguns progressos, as mulheres não existem nem têm o destino em suas próprias mãos. E o que é mais surpreendente ainda: seus opositores são feitos do mesmo material. Representam a outra face da mesma moeda. Porque a maioria dos opositores não tem qualquer projeto para romper com a religião, com as tradições. Concentram-se apenas no poder, em fazer cair um regime encarnado por uma pessoa. Mudar uma pessoa e substituí-la por outra não muda nada.

O que o senhor sentiu na sexta-feira?

Foi horrível. As pessoas que combatem ao lado do Daesh são de 80 países, degolam pessoas, prendem mulheres em jaulas e as vendem como se fossem mercadorias.

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia