Alvo de vaias, Cunha vai a congresso após ameaçar desistência
Redação DM
Publicado em 16 de novembro de 2015 às 23:15 | Atualizado há 11 anosBRASÍLIA – O Congresso do PMBD patrocinado pela Fundação Ulysses Guimarães começou nesta terça-feira. Concebido como uma espécie de marco pelo rompimento simbólico com o governo Dilma Rousseff, o evento acabará, no entanto, sendo um encontro esvaziado politicamente e recheado de discussões técnicas com algumas alfinetadas na presidente. Ministros peemedebistas declinaram do convite temendo atritos com Dilma, assim como o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, e o líder da bancada do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (RJ), que até o fim da tarde de ontem consultava correligionários para saber da pertinência de sua presença, decidiu comparecer, mas modulou o discurso. .
Ele vinha defendendo quase que diariamente que no congresso se apresentasse moção pelo rompimento com o governo, mas baixou o tom, justificando que o foro não é o mais adequado para tratar do assunto. Ao passar pelos correligionários, Cunha recebeu poucos aplausos e chegou a ser vaiado por alguns presentes que gritaram “Fora Cunha”.
Perguntado se participa do congresso para pedir apoio ao partido, o presidente da Câmara respondeu:
— Não vim pedir apoio porque não preciso disso. Vim porque sou do PMDB.
Novamente, ao começar a discursar, Cunha recebeu algumas vaias. Ele baixou o tom mantido nos últimos meses a favor do rompimento com Dilma.
— Minha posição é a mesma, não mudou nada, mas hoje não é foro apropriado para isso, não vai se decidir nada. Eu defendi que esse momento (rompimento) fosse já direto numa convenção, mas infelizmente não tive sucesso. Vamos ver o que vai dar (no Congresso do PMDB). Aqueles que gostariam de sair do governo gostariam que fosse uma convenção para poder decidir, aqueles que não querem sair do governo preferiram ficar do jeito que está. Isso é da política — afirmou Cunha.
Ministros petistas sondaram o vice-presidente Michel Temer, na reunião da coordenação de governo, ontem, pela manhã, sobre o clima previsto para o evento. Entre as cobranças, queriam saber sobre o tamanho da dissidência e o quanto ela pode prejudicar as votações de interesse do governo no Congresso. Temer tranquilizou os colegas, dizendo que o evento terá um caráter mais técnico, de mudanças no estatuto do partido e de um programa a ser defendido pelo partido. Ele e o ministro Eliseu Padilha (Aviação Civil) informaram que o congresso não tem caráter deliberativo. Mas admitiram que críticas serão feitas à presidente e à condução do governo. Os dois peemedebistas pontuaram que se trata apenas de uma reunião de caráter partidário, cujo foco é apresentar oficialmente o documento com propostas para o país.
— Padilha e Temer aplicaram hoje uma espécie de vacina no governo, preveniram o governo sobre o que acontecerá amanhã no congresso. Para que o governo encare com naturalidade as manifestações de descontentamento que surgirão lá — afirmou um assessor palaciano.
‘UM PONTE PARA O FUTURO’
O documento lançado na semana passada pelo vice e pelo presidente da Fundação Ulysses Guimarães, Moreira Franco, elenca uma série de medidas antagônicas ao que vem fazendo o governo. Entre elas, estão a defesa do fim das indexações de qualquer benefício, inclusive o previdenciário, ao salário mínimo; a definição de uma idade mínima para a aposentadoria de, no mínimo, 60 anos para mulheres e 65 anos para homens; o fim dos gastos mínimos constitucionais com saúde e educação; e o retorno ao regime de concessão na área de petróleo, dando apenas preferência à Petrobras.
Fiador da aliança com o PT mas colocado por Dilma à margem da gestão, Temer fará um discurso brando, sem ataques, e partirá para outros compromissos oficiais deixando que os rebeldes do partido se digladiem. De um lado, o grupo pró-rompimento, mesmo sendo uma situação inexequível objetivamente, já que o PMDB e o PT se elegeram juntos e não há como desfazer a chapa até 2018. De outro lado, o grupo sulista, liderado pelo senador Roberto Requião (PR), contrário ao programa elaborado por Temer e Moreira Franco.
Em um contradocumento distribuído aos correligionários, Requião os acusa de quererem enterrar as ideias de Ulysses.
“Meu Velho PMDB de guerra não se reconhece no documento que, na realidade, tenta marcar uma total ruptura do partido com as propostas voltadas para o âmbito social. Ulysses morreu. Querem agora enterrar suas ideias”, escreve Requião, acompanhado do filho, o deputado estadual Requião Filho.
Responsável pela finalização do programa de governo do PMDB, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) diz que o congresso desta terça-feira vai ser o primeiro passo da construção de uma identidade para o partido perante a população e ocupar um espaço revelado pelas pesquisas que mostram rejeição as atuais legendas partidárias. Além do discurso de Michel Temer, devem falar também o presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), Moreira, e outras lideranças do partido, sempre na linha da necessidade de fortalecimento do partido que pode vir a suceder a presidente Dilma Rousseff, agora ou no futuro.
Segundo Jucá, a ala mais oposicionista do partido vai centrar fogo em críticas ao governo e na necessidade de rompimento da aliança com o PT, mas tudo será canalizado para a convenção de março.
— Vão ter muitas críticas e posicionamentos mais radicais em relação ao governo da presidente Dilma. Mas o Congresso não é o foro mais adequado para discutir isso — disse Jucá.