Cotidiano

Antiga livraria deixa marcas profundas em Islamabad

Redação DM

Publicado em 11 de dezembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anos

ISLAMABAD — Após a morte de seu pai, Ahmad Saeed passou a ocupar o escritório no primeiro andar da livraria da família na cidade, a Saeed Book Bank. Então, os idosos começaram a vir até o local, desejando saldar velhas dívidas. Em cinco ocasiões esses homens se aproximaram com o chapéu em mãos, não apenas para apresentar condolências ao filho e à família, mas também para dizer que gostariam de pagar pelos livros que roubaram quando eram crianças.

— Eles se desculparam e disseram que tentaram ver meu pai enquanto ele ainda estava vivo, mas o escritório sempre estava muito cheio e eles tinham vergonha — afirmou Saeed.

Saeed contou que seu pai, Saeed Jan Qureshi, que morreu de um ataque do coração em setembro, teria se divertido: ele sempre viu os livros roubados por crianças como um investimento em um futuro no qual as pessoas ainda leriam e, portanto, se tornariam seus clientes.

O pai acabou se convertendo em uma espécie de oráculo para quem quisesse uma boa indicação, reservando tempo para estabelecer uma relação pessoal com o cliente e recomendar seus livros prediletos aos visitantes. A abordagem ajudou Qureshi a criar um futuro extraordinário para a Saeed Book Bank, especialmente em uma era em que as vendas pela internet levaram muitas livrarias independentes à falência e em uma região em que a pirataria é mais um dos problemas enfrentados pelos comerciantes.

Com sua paixão pelos livros, Qureshi construiu uma das maiores livrarias do mundo — vendendo em sua grande maioria livros em inglês, em um país onde essa costuma ser a segunda língua da maioria das pessoas. A Saeed Book Bank tem 3.900 metros quadrados distribuídos por três andares, onde estão organizados mais de 200 mil títulos, com mais de 4 milhões de livros estocados em cinco galpões — tudo isso “fruto da graça de Deus todo-poderoso”, de acordo com Ahmad Saeed.

Saeed Jan Qureshi veio de uma família que trabalhou para um senhor feudal chamado Mir Banda Ali. Suas terras na província de Sindh eram tão vastas que cinco estações de trem foram construídas nas linhas que passavam por elas. A biblioteca do senhor era igualmente grande e, aos nove anos de idade, Qureshi começou a trabalhar tirando a poeira das prateleiras. Um dia, Ali o encontrou lendo, ao invés de fazer seu trabalho, e disse para o garoto voltar imediatamente a suas funções — mas acrescentou que ele poderia levar um livro para casa todas as noites, desde que ele fosse devolvido em perfeitas condições.

Qureshi nunca foi além do ensino médio, mas tinha uma cultura invejável e, depois da escola, conseguiu um emprego como vendedor de livros em uma empresa que o enviou para trabalhar em Peshawar. Mais tarde, nos anos 1950, abriu a própria livraria nessa cidade.

Durante os anos da Guerra Fria, o Paquistão era um dos postos avançados dos EUA em seu conflito com a União Soviética, e Peshawar tornou-se uma importante base militar, além de uma base fundamental para as operações da CIA na região, especialmente durante a ocupação soviética do Afeganistão. Diga o que quiser dos espiões, eles adoravam ler e Qureshi construiu seu negócio em torno do gosto literário desses leitores.

Mais tarde, o crescimento do terrorismo e do fundamentalismo islâmico transformou Peshawar, a capital das fronteiras paquistanesas, em um lugar perigoso para os livreiros — especialmente para aqueles que insistiam em vender cópias de revistas como a “Cosmopolitan” e a “Heavy Metal”, livros de Karen Armstrong sobre o Islã, ou mesmo cópias de “Deus – Um Delírio”, o tratado ateu do cientista Richard Dawkins.

— Você não faz ideia de como esse livro vende bem. Nós compramos milhares de cópias da Random House todos os anos.

Por outro lado, afirmou, outro campeão de vendas é “The Message of the Qur’an”, a tradução inglesa do livro sagrado de Muhammad Asad, o diplomata e pesquisador judeu europeu que se converteu ao islamismo.

LONGE DOS EXTREMISTAS

Forçado a fechar a loja em Peshawar, Qureshi concentrou seus esforços em Islamabad, a capital do Paquistão, um lugar isolado dos elementos mais extremistas do país. Os tempos ficaram ainda mais difíceis, à medida que até mesmo Islamabad se tornou um local para onde diplomatas e organizações de ajuda internacional deixaram de levar suas famílias, mas a livraria já havia crescido tanto que conseguia sobreviver pelo simples fato de muitos paquistaneses serem leitores de inglês.

— Outras livrarias riam da gente porque nunca vendemos livros piratas — afirmou Saeed. — Mas os únicos livros pirateados são os best-sellers e nós vendemos de tudo.

O resultado é uma livraria com um escopo impressionante, curioso e variado. Campeão de vendas, um volume chamativo de “Moda Islâmica” disputa espaço na prateleira com uma edição de “Estudos Queer”. Um caderno grosso de condolências para Qureshi, o terceiro até agora, fica em cima de um balcão, pressionado pelo peso de algumas centenas de livros em miniatura. Algumas estantes depois, uma prateleira inteira é dedicada à obra de Noam Chomsky, 26 títulos no total, provavelmente mais do que qualquer outra livraria do mundo tem para oferecer do linguista e filósofo radical.

— Sinceramente, Chomsky vende bem aqui.

Qureshi garantiu que os filhos tivessem acesso à educação que ele não teve. Ahmad Saeed é mestre em administração de empresas, com planos ambiciosos de digitalizar todo o estoque da loja e melhorar a loja virtual, que atualmente é pesada e desajeitada. Ainda assim, esta vende cerca de US$1 mil por dia, isso em um país onde os cartões de crédito ainda são uma novidade.

Para seu pai, os livros eram mais do que apenas um negócio, contou Saeed. Um dos ladrões de livros que passou pela loja para pagar sua dívida era Suleman Khan, vice-chanceler da Universidade de Iqra, em Islamabad.

— Ele veio para dizer que quando era criança, aos seis anos de idade, ele roubou um gibi do Archie e meu pai viu tudo. Ele disse que ficou com medo de apanhar, mas que meu pai disse: “Que bom que você gosta de livros. Então, todo dia você pode vir até aqui e pegar um livro, desde que o devolva em perfeitas condições, para que eu ainda possa vendê-lo”.

Então, o vice-chanceler disse:

— Tudo que sou agora, eu devo ao seu pai.

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