Cotidiano

Apoio dos EUA a gays na África causou prejuízos econômicos

Redação DM

Publicado em 13 de janeiro de 2016 às 06:05 | Atualizado há 11 anos

LAGOS – Senhorios e vizinhos bisbilhotando. Chantagistas procurando vítimas nas redes sociais usadas para conhecer outras pessoas do mesmo sexo. Policiais dando batidas rotineiras em busca de imagens e conversas incriminadoras no celular. Desde que uma lei antigay entrou em vigor em 2014, muitos nigerianos homossexuais dizem estar sendo submetidos a novos níveis de assédio, até mesmo violência. Eles culpam a lei, as autoridades e a intolerância social por seus problemas, mas também um defensor inabalável, cujo compromisso com sua causa sempre foi inquestionável e evidente por toda a África: o governo dos EUA.

“O apoio dos Estados Unidos está piorando a situação. Há mais resistência agora porque acionou um mecanismo de defesa das pessoas”, disse Mike, de 24 anos, universitário que estuda Biologia em Minna, cidade no centro da Nigéria, e que pediu que seu nome completo não fosse utilizado por motivos de segurança.

Há quatro anos, o governo dos EUA embarcou em uma ambiciosa campanha para expandir os direitos civis de gays no exterior, engajando seus diplomatas, direcionando sua ajuda externa e fazendo o presidente Barack Obama discursar perante um público hostil.

Desde 2012, o governo americano investiu mais de US$ 700 milhões para apoiar grupos de direitos e causas gays no mundo todo, sendo que mais da metade desse dinheiro foi para a África Subsaariana, o que mostra a importância do continente para a nova política.

O dinheiro e a diplomacia pública dos EUA abriram diálogos e oportunidades nas sociedades onde o tema era tabu há apenas alguns anos, mas também puseram gays e lésbicas em evidência, deixando-os mais vulneráveis à violência e ao assédio, afirmam pessoas de ambos os lados da questão.

A campanha dos EUA gerou dúvidas entre muitos ativistas africanos, que dizem que precisam confiar no apoio do Ocidente, apesar de muitas vezes discordar de suas estratégias.

Na Nigéria, nação mais populosa da África, a aprovação final da lei de 2014 contra a homossexualidade – que determinou que relações homossexuais podem ser punidas com até 14 anos de prisão e criminalizou a organização ou participação em qualquer tipo de movimento gay – é amplamente vista por apoiadores e opositores dos direitos gays como uma reação à pressão americana na Nigéria e em outras nações africanas para abraçar os direitos dos homossexuais.

“A lei nigeriana foi um tiro pela culatra. Agora temos casos de homens gays agredidos ou insultados nas ruas. Tudo isso poderia ser evitável”, disse Chidi Odinkalu, presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos na Nigéria e autoridade legal do Programa Africano da Iniciativa de Justiça e Sociedade Aberta, que apoia os direitos dos homossexuais no continente.

“Eu disse a diplomatas dos Estados Unidos em particular que o risco seria causar mais mal do que bem. Você não quer que sua boa vontade prejudique a comunidade que acha que está protegendo”, acrescentou.

A postura contra os gays é muito difundida em toda a África. Relações entre pessoas do mesmo sexo permanecem ilegais na maioria dos países, legado das leis coloniais que haviam sido basicamente esquecidas até que a iniciativa ocidental tentou combatê-las nos últimos anos.

Uma oposição feroz veio de organizações privadas e governos africanos, que acusam os Estados Unidos de imperialismo cultural. Exigir os direitos de homossexuais em um continente sem vontade, dizem, é a última tentativa de nações ocidentais para impor seus valores na África.

“Da mesma forma que não tentamos impor nossa cultura a ninguém, esperamos que, por sua vez, as pessoas a respeitem”, disse Theresa Okafor, nigeriana ativa no lobby contra os direitos gays.

Autoridades dos EUA defendem seus esforços, dizendo estar conscientes dos muitos riscos que os gays africanos enfrentam.

“Se discrição for importante para o avanço dos direitos humanos e o desenvolvimento desses povos, essa é uma posição com a qual estamos concordamos plenamente. Nosso objetivo é apoiá-los em seus esforços, e não necessariamente tomar a dianteira, principalmente quando esse suporte pode pôr nossos parceiros em perigo”, disse Todd Larson, coordenador LGBT da Agência Americana de Desenvolvimento Internacional.

Pouco depois que a lei nigeriana entrou em vigor, Animashaun Azeez, estudante universitário de 24 anos, combinou de se encontrar com alguém com quem conversara no Manjam, uma rede social para gays. A pessoa apareceu, juntamente com três policiais à paisana. Azeez disse que passou três dias na cadeia e foi liberado somente depois que seu pai, temendo a publicidade, pagou US$900 à polícia.

“Muitas pessoas LGBT estão tendo problemas no dia a dia”, disse Azeez, que após o episódio se tornou um voluntário da Iniciativa pela Igualdade de Direitos, grupo homossexual em Lagos.

A violência contra gays nigerianos tem aumentado significativamente, de acordo com a Comissão Nacional de Direitos Humanos do país. A maioria é atacada a céu aberto por bandos de homens, alguns dos quais se intitulam “limpadores”.

Mas as vítimas muitas vezes não dão queixa dos ataques por medo de se expor. Até mesmo homens infectados com HIV muitas vezes relutam em procurar tratamento em hospitais, com medo que as autoridades sejam chamadas, disse Stella Iwuagwu, diretora executiva do Centro para o Direito à Saúde, grupo de direitos e de pacientes de HIV baseado em Lagos.

“Antes, levavam suas vidas tranquilamente e ninguém prestava atenção neles. Muitos nem imaginavam que existisse alguém que fosse gay, mas agora sabem e estão indignados. Ouvem dizer que os EUA estão trazendo esse estilo de vida estrangeiro. E são encorajados pela lei. Não tem como reverter o processo”, disse Stella.

O papel dos Estados Unidos é o de um inimigo de longa data em sua guerra cultural que chega à África. Muita gente que defende os direitos iguais nos EUA, depois de obter sucesso em nível nacional, aumenta o financiamento das causas gays no exterior, especialmente na África.

Grupos conservadores e cristãos dos EUA também se voltaram para o continente, onde a grande maioria das pessoas ainda compartilha sua oposição às relações e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

“Há um esforço intencional para se coordenar com a África porque não queremos que cometam os erros que ocorreram aqui nos EUA”, disse Larry Jacobs, diretor do Congresso Mundial das Famílias, uma organização que engloba grupos sociais conservadores e religiosos.

Os gays africanos estão se envolvendo cada vez mais nas batalhas culturais americanas sendo travadas na África, disse o Reverendo Kapya Kaoma, pastor anglicano na Zâmbia e pesquisador do Political Research Associates, baseado em Massachusetts.

Kaoma, que documentou os laços entre evangélicos americanos e o movimento antigay na África, disse: “Quando dois elefantes brigam, a grama sofre. Isso é o que está acontecendo na África. Os africanos LGBT são apenas efeitos colaterais da política dos EUA dos dois lados.”

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