“Arendt é mais atual do que nunca”, diz jornalista e filósofa Rosângela Chaves
Redação DM
Publicado em 21 de março de 2022 às 22:59 | Atualizado há 4 anos
Hannah Arendt chegou a colaborar com a imprensa e na revista
The New Yorker, uma das mais prestigiadas do mundo. Como ela pode nos ajudar a
compreender o jornalismo neste século 21?
De fato, Arendt foi uma assídua colaboradora de revistas e
jornais ao longo de sua trajetória, escrevendo ensaios, artigos, resenhas,
cartas. Dois ensaios que Arendt escreveu, em particular, são muito elucidativos
para pensarmos o papel do jornalismo hoje. Em “Verdade e política”, do livro Entre o passado e o futuro, ela discute a questão da verdade factual, que
é a matéria-prima do jornalismo, e mostra como ela é frágil, porque depende de
testemunhas , de comprovação, e muitas vezes parece ser contraditória, obscura,
incoerente – uma vez que a própria realidade é assim. Diante do uso em larga escala do que ela
chama de “mentira organizada”, ou seja, a mentira como instrumento para
governar as massas, o que se tornou
rotina nos governos totalitários do século XX, a verdade factual se torna muito
frágil. Outro perigo que ela aponta no texto é que se tornou algo corriqueiro
hoje é confundir verdade factual com opinião, ou seja, a verdade histórica,
factual, torna-se um mero ponto de vista, um “acho que…”, como se eu pudesse
dizer que “eu acho que” ou “eu não acho que”
houve uma ditadura militar implementada no Brasil com o golpe de 1964.
Ou seja, como se as pessoas pudessem escolher os seus próprios fatos, assim
como emitem as suas opiniões. Outro
texto importante é “A mentira na política – considerações sobre os Documentos
do Pentágono”, de Crises na república, em
que ela retoma a questão do uso político da mentira, no caso pelo governo
norte-americano durante a Guerra do Vietnã, e reforça a importância do
jornalismo independente para o estabelecimento da verdade factual. Mas veja só, para assumir esse papel, o
jornalismo deve estar livre de pressões políticas e econômicas e este é o nosso
grande desafio hoje, com a oligopolização da informação.
Nos textos publicados na prestigiada revista
norte-americana, Arendt relata o julgamento de Adolf Eichmann e disserta a
respeito do que ela chamou de “Banalidade do Mal”. É possível se
utilizar da teoria para analisar governos com viés autoritário, como o de Jair
Bolsonaro?
O termo “banalidade do mal” foi usado por Arendt para se
referir a Eichmann, um oficial nazista
que foi capturado por agentes secretos de Israel no início da década de 1960 na
Argentina, onde ele estava escondido desde o final da Segunda Guerra, para ser
levado a julgamento em Israel por seus crimes contra o povo judeu. Eichmann era
o responsável por toda a logística do transporte ferroviário que levava os
prisioneiros para o campo de concentração. Durante o julgamento, Arendt se
espantou como Eichmann não era um monstro, mas um sujeito ordinário, que se
orgulhava de ser um funcionário exemplar, embora a eficiência dele no trabalho fosse
providenciar a morte de milhões de pessoas. Ele se dizia um cidadão do bem e respeitador das leis, no
caso, as leis do regime de Hitler. Quando ela fala em banalidade, isso não diz
respeito ao mal praticado por Eichmann, que era imenso e aterrador, mas à sua
personalidade, porque ele era incapaz de profundidade, de refletir (no sentido
de se colocar no lugar do outro) sobre o que estava fazendo. Esse sujeito
banal, supérfluo, no entanto, foi capaz de praticar crimes contra a humanidade.
Talvez nesse sentido esse conceito possa nos ajudar a pensar o momento em que
vivemos, como pessoas que se dizem cidadãs do “bem”, respeitadoras da lei,
podem se tornar agentes de forças políticas profundamente destruidoras.
Arendt também escreveu uma obra seminal para o entendimento
do antissemismo e do autoritarismo, “Origens do Totalitarismo”. Qual
a importância de lermos e estudarmos a filósofa numa época em que as
democracias liberais estão se esfacelando?
De fato, essa obra de Arendt é mais atual do que nunca. Arendt
foi pioneira ao demostrar que os regimes totalitários constituíam um novo tipo
de regime político, desconhecido na história, que não poderiam ser confudidos
com meras ditaduras ou autocracias. O que os governos totalitários almejam,
como o nome já indica, é o controle total dos indivíduos, tanto na sua vida
pública quanto na sua vida privada. O facismo tem como objetivo controlar não
só os corpos, mas também as mentes, daí a importância da ideologia. Em épocas
como a nossa, de profunda crise política e econômica, as ideologias
totalitárias — com o seu poder de construir uma realidade paralela, dotada de
uma lógica interna, que pode aparecer absurda para quem olha de fora, mas é
incrivelmente sedutora para as pessoas que se deixam aprisionar por ela – podem
exercer um perigoso apelo para as massas de indivíduos que se sentem
supérfluos, em um mundo que para eles deixou de fazer sentido.
Sua obra mostra um inédito estudo comparativo entre Hannah
Arendt e Alexis de Tocqueville. Mesmo vivendo em épocas diferentes, os dois
possuem bastantes semelhanças. Qual é o principal legado deles para a nossa
compreensão da democracia?
Arendt e Tocqueville viveram em momentos também de profunda
crise política, social, econômica. Tocqueville teve parte de sua família
devastada durante o Terror na Revolução Francesa e, no seu tempo de vida, na
primeira metade do século XIX, a França, sua terra natal, foi palco de várias
revoluções. Arendt viveu as duas guerras mundiais. Para procurar entender a sua
época, eles não procuraram modelos ou categorias já estabelecidos, mas tentaram
refletir a partir do próprio acontecimento. Isso é fundamental porque, para
eles, não cabe ao filósofo (e nenhum deles se via como tal) ditar regras para a
política, mas tentar compreender a política a partir da experiência concreta.
Dito isso, em resumo, destaco que o que aproxima esses dois autores é a valorização
da vida pública, do espírito público, da participação popular, de uma
compreensão da liberdade não como liberdade individual, de fazer o que quero,
mas como sinônimo da participação na vida pública, de atuar em conjunto com os
outros no espaço da política. Essa valorização do coletivo, do espírito
público, da efetiva participação popular
na vida pública, das virtudes cívicas, ou seja, das virtudes do cidadão, os
aproxima – e este é o ponto central da minha pesquisa – de um tradição
republicana de pensar a política.
Sua trajetória acadêmica está ligada às universidades
públicas. Como foi a processo de publicação do livro?
De fato, minha graduação em Jornalismo e meu mestrado e
doutorado foram realizados em uma universidade pública, na Universidade Federal
de Goiás, embora eu tenha cursado Direito da PUC-GO (na minha época, era
Universidade Católica de Goiás) e mais recentemente me formei em Filosofia –
Licenciatura, por uma instituição privada, o Centro Universitário Claretiano,
de São Paulo. Meu livro foi selecionado
em um edital nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia
(Anpof), em parceria com as Edições 70/Editora Almedina, que é uma editora
portuguesa de enorme prestígio e que agora está atuando também no Brasil.
Concorreram trabalhos de todo o país e o meu foi um dos três escolhidos (os
outros foram uma dissertação de mestrado e um trabalho de um professor de
pós-graduação de uma universidade de São Paulo), que vão integrar a Coleção
Anpof, das Edições 70. O meu livro inaugura a coleção.
Como nasceu a ideia de estudar Arendt e Tocqueville?
Eu já tinha trabalhado com Arendt no meu mestrado, em
2005/2006, cuja dissertação foi transformada em livro e publicada em 2009 (A
capacidade de julgar/Cânone Editorial ; Editora da UCG). Comecei a estudar o
tema da opinião e da opinião pública em Arendt, particularmente as críticas que
ela faz a opinião pública, reduzida ao pensamento uniforme da massa em livros
como Sobre a revolução e A condição humana, já pensando em um projeto de doutorado. Mas aí
comecei a ler Tocqueville e vi uma enorme confluência de Arendt, na questão da
opinião pública, com o tema da “tirania da maioria” e também da homogeneização
do pensamento nas sociedades democráticas de massa, como ele aborda em A democracia na América. Mas à medida que minhas pesquisas foram
avançando, constatei muitas confluências dos dois em outros temas, por exemplo,
a forma como interpretam as Revoluções
Americana e Francesa, como eles concebem a liberdade, a aproximação deles com a
tradição republicana, como disse acima. Enfim, todo um conjunto de temas que
ampliaram muito a minha ideia inicial e que termiranam por abarcar vários
conceitos tratados por ambos os autores ao longo da obra de cada um.
Quais foram os desafios durante os anos de pesquisa?
Quando comecei o doutorado, eu era editora de Cultura do
jornal O Popular e realmente estava muito difícil conciliar os estudos e o
trabalho. Em 2015, eu saí do jornal e consegui uma bolsa da Capes, assim pude
me dedicar inteiramente à pesquisa. Também foi muito importante o período que
eu fiquei em Portugal, no estágio de doutorado sanduíche, na Universidade de
Coimbra e também na Universidade de Lisboa. Também passei uma temporada valiosa
em Paris, onde pude pesquisar na Biblioteca Nacional da França e no Centro de
Estudos Sociológios Raymond Aron. Isso me facilitou sobretudo para pesquisar
textos de Tocqueville (ensaios, artigos, cartas). Foi um ótimo período esse da pesquisa – muito
trabalho, é claro – mas sempre tive muito apoio da UFG, da minha orientadora
Helena Esser dos Reis, e dos demais professores. Só tenho a agradecer essa
oportunidade oferecida por uma universidade pública brasileira, infelizmente
tão atacada hoje, mas que é fundamental para o desenvolvimento do país.