Artigo: Estados Unidos, país dos tiros indiscriminados e do medo
Redação DM
Publicado em 9 de dezembro de 2015 às 05:05 | Atualizado há 11 anosRIVERSIDE, CALIFÓRNIA — No início do ano, me pediram para escrever uma história chamada “Bang or whimper” (“Bater ou lamentar”, em tradução literal), sobre o fim do mundo. E pensei nela, na última quarta-feira, enquanto assistia pela TV à verdadeira operação de guerra montada nas ruas de San Bernardino, na Califórnia, a 16 quilômetros da minha casa, aqui em Riverside. Até minha filha mais velha me ligar, assustada e chorosa. Na tela, pais lamentando pelos filhos que participavam da fatídica confraternização. Até que, ao vivo, no canal local de notícias, veio a chamada de que um casal de jovens inexplicavelmente partiu para uma batalha em estilo militar em um bairro residencial, onde trocaram centenas de tiros com os policiais. E um homem foi morto antes que o helicóptero da TV pudesse se afastar, mostrando a poça de sangue e a arma a seus pés.
Durante a hora seguinte, o repórter que sobrevoava a cena descreveu os veículos oficiais que cercaram o utilitário dirigido pelos atiradores — e que parecia mais saída de um filme ou videogame — até que um braço mecânico se esticou pela janela estilhaçada e retirou um corpo imóvel, que caiu, sem jeito, na rua. Dois seres humanos tinham sido mortos — duas pessoas que, mais tarde, saberíamos ter atirado em mais de 30 outros seres humanos, deixando a filhinha órfã.
Minha filha tinha me ligado na noite anterior, a voz tremendo, para me contar do caso que acabara de ouvir: uma garçonete de 52 anos que fora morta porque pedira ao cliente que não fumasse:
— Ela era como você, mãe: uma mulher normal, trabalhando no turno da noite na Waffle House! O trabalho já é superdesgastante e ela ainda toma um tiro na cara porque o cliente não pôde acender o cigarro!
Em agosto, em um dia em que a temperatura chegou a 42°C, e praticamente o quarteirão inteiro onde moro estava na rua, um vizinho chegou, correndo e gritando:
— Entra todo mundo! Tem alguém atirando!
Na quadra ao lado, um homem com um fuzil atirava contra o genro do vizinho, com quem supostamente brigara por causa do comportamento dos respectivos cães. As balas perfuraram a parede da varanda de outra casa. Grupos da Swat chegaram em vans pretas, sem identificação, e estacionaram nos nossos gramados. Delas, saíram pelo menos 20 homens, todos fortemente armados. Ficamos presos em casa, durante horas, e todo o tempo fiquei conversando com a minha filha para alguém saber que eu estava viva.
O autor dos disparos, como descobri depois, era um professor casado que tinha um filho pequeno e munição para mais de 200 tiros. Ele se rendeu, passou um tempinho preso e voltou para casa. Não tenho a mínima ideia de sua aparência, mas não passeio com meu cachorro pela rua desde então — o que não é solução.
Na quarta-feira, o convidado do noticiário de uma TV a cabo disse que o centro de conferências de San Bernardino era um “alvo fácil”. Uma confraternização de fim de ano não pode ser considerada um alvo fácil a menos que estejamos em guerra. Nem o meu jardim.
A impressão é a de que começaram a surgir soldados no meio de nós, escondidos como pés de milho no meio da plantação que, de repente, se transformam. É gente defendendo tanta coisa diferente que parece até que recebe sinais de outro universo e escolhe como alvo escolas primárias, escolas secundárias, faculdades comunitárias, universidades, cinemas e festas natalinas, grêmios universitários e festas de formatura. Lugares que conhece e que não conhece.
Talvez o detalhe comum a todos seja o de escolherem a si mesmos. Ego e fúria. O desejo de bater e não lamentar. Muitos usam fuzis, para operações maiores, mas qualquer um que tenha recebido um telefonema avisando que uma pessoa querida foi ferida à bala sabe que uma pistola é suficiente para matar uma pessoa e representar o fim do mundo.
Desde que minha filha mais velha nasceu, há 26 anos, nossa família perdeu 57 membros, amigos e vizinhos para a violência armada. Meu sobrinho, que tem a mesma idade, fez um testamento quando tinha 13, depois que dois amiguinhos da mesma idade foram perseguidos por membros de uma gangue e alvejados, um em uma varanda e o outro, em um carro a poucas quadras de casa. No depoimento, os atiradores teriam se referido ao episódio como uma “caça às lesmas”.
Um amigo que estudou comigo perdeu o filho em Rancho Cucamonga, perto de San Bernardino, quando um carro lotado de meninos chegou atirando em uma festa de formatura a que lhe foi negado acesso. Sem proteção, o corpo humano é o alvo mais fácil de todos. Criei minhas filhas para servir aos outros, e não para viver com medo, que é o que a minha mais velha está sentindo agora.
Depois de outro ataque, o de Isla Vista — outro caso de ego e fúria, de bater e não lamentar, o pai de uma das vítimas chorou e implorou ao país que não deixasse aquilo se repetir.
Só que, naquela quarta-feira, vi outro massacre se desenrolar na rua onde, há pouco tempo, minha mãe passara por uma cirurgia cardíaca, onde os jardins e as cercas parecem tão familiares vistos de cima. É um lugar que eu conheço. Agora, gente de longe vai examiná-lo, da mesma forma que fizeram em Umpqua, no Oregon, Sandy Hook, em Connecticut, e Columbine, no Colorado, nomes que foram imortalizados como campos de batalha, como Gettysburg, Shiloh, Antietam.
Conforme os tiros foram sendo disparados, as pessoas se escondiam atrás das mesas, nos banheiros, ligavam para as pessoas queridas, ou mandavam mensagens para dizer que estavam vivas. Isso também já virou parte do ritual.
Cinco anos atrás, meu ex-marido me ligou de uma esquina em San Bernardino. Ele entregava carros para as concessionárias e estava esperando a van da empresa pegá-lo. Disse:
— Fiquei com medo. Queria que você soubesse onde eu estou, caso tome um tiro. Estando na rua, nunca se sabe. Se um negro achar que sou de gangue, um latino achar que sou de gangue, um policial achar que fiz alguma coisa. Pode ser também um branco que não vai com a minha cara.
Ele tem 1,93 metro de altura e pesa 136 quilos, é um ex-carcereiro de pele escura e cabelo grisalho, cada vez mais branco. E completou:
— Aí entro na van e tenho que ouvir o Rush Limbaugh (conhecido comentarista nos EUA que defende posições de direita e republicanas) no rádio e ter certeza de que ele me odeia.
Fiquei um tempão ouvindo o que ele dizia, o som dos carros e das pessoas passando enquanto ele continuava ali, naquela tarde, querendo que eu soubesse que estava vivo.
Susan Straight é escritora. Seu livro mais recente é “Between heaven and here” (“Entre o paraíso e aqui”, na tradução literal)