Cotidiano

Artigo: Regiões vazias da Itália oferecem nova vida a refugiados

Redação DM

Publicado em 6 de novembro de 2015 às 07:05 | Atualizado há 11 anos

MILÃO, Itália – Enquanto a Europa se apavora e tenta saber o que fazer com os milhares de refugiados que continuam chegando ao continente, me ocorreu que os antigos romanos, como tantas vezes acontece, podem oferecer uma solução.

Eles costumavam recompensar os legionários com terrenos, através de um sistema conhecido como “centuriação”, adotado no século IV a.C., quando Roma ainda era uma república vibrante – e que durou algumas centenas de anos, envolvendo antigos soldados por todo o império.

Foram várias as vantagens que trouxe: a primeira, obviamente, estratégica, já que criou uma presença militar permanente. A segunda, econômica, pois os veteranos passaram a cultivar áreas abandonadas, produzir uma riqueza que retornava à comunidade e a cuidar de si mesmos. A terceira foi demográfica: esses pioneiros e suas famílias povoaram vastas regiões da Itália e de outras nações.

Um defensor particularmente agressivo do método foi Septímio Severo, que governou de 192 a 211 d.C. e cujo exército de 400 mil homens se espalhou por um império de 70 milhões de pessoas, que ia do Atlântico às margens orientais do Mar Morto, do norte da Inglaterra ao sul do Egito. O imperador não queria deixar seus veteranos à toa e, por isso, quando se aposentavam, lhes dava um terreno abandonado ou não cultivado, muitas vezes de graça ou por um preço irrisório.

Traços da centuriação romana ainda são encontrados no sul da França e em partes da Espanha, mas a maioria desses soldados transformados em pioneiros desenvolveu também áreas vastas e pouco povoadas da Itália. A distribuição típica de lotes quadrados, que incluíam estradas, canais e áreas agrícolas, ainda pode ser vista na Lombardia, perto de Bergamo; na Toscana, ao redor de Florença; na Emília-Romanha e na Campânia. Perto de Pádua, na região do Vêneto, um espaço enorme ainda é conhecido como “Graticolato Romano”, ou Traçado Romano.

Por que não tentamos algo semelhante com os imigrantes modernos?

É bem verdade que eles não travaram guerras em nome da Itália; na verdade, estão fugindo delas, em locais como a Síria, ou da pobreza subsaariana e de regimes totalitários – mas têm as habilidades necessárias. Enquanto os mais categorizados vão para a Alemanha e o norte da Europa, quem fica na Itália geralmente é agricultor, operário, artesão. A maioria é jovem e está acostumada ao trabalho pesado. E muitas partes de nosso país, do sul rural aos vilarejos montanhosos da região central, estão se esvaziando rapidamente. A Itália está envelhecendo. Precisa de gente nova.

Claro, pode haver alguns diabos nos detalhes. Será que os italianos que ainda vivem nessas áreas vão recebê-los bem? Aliás, será que os imigrantes vão querer ir para lá? Quem vai pagar pelas acomodações e os equipamentos para essa gente, além de lhes oferecer uma renda inicial para começarem a vida? As vantagens, contudo, são óbvias.

Para início de conversa, para os recém-chegados. Instalar-se em um vilarejo italiano tranquilo, sem ninguém para lhes ameaçar ou atacar, é uma boa maneira de recomeçar a vida.

A Itália também teria a ganhar, já que nas áreas montanhosas em Abruzzo e Molise a população vem minguando rapidamente, inclusive com algumas aldeias já totalmente desertas. Na Sardenha – sem dúvida a ilha mais bela do Mediterrâneo – 83 por cento dos habitantes vivem em assentamentos pequenos, com menos de cinco mil pessoas, que também estão se esvaziando; a previsão é a de que 33 desapareçam nas próximas décadas. Com gente nova, o território italiano – belo, mas fragilizado – continuaria sendo cuidado.

A centuriação moderna traria uma terceira vantagem: o grande número de italianos preocupados com a imigração – e os que pendem para a xenofobia – veriam os recém-chegados sob um novo prisma. Gente que precisa de uma assistência inicial, sim, mas também com algo a oferecer em troca. Não são estrangeiros exigindo benefícios, mas trabalhadores contribuindo com suas habilidades para ajudar a criar e reparar as coisas na nova pátria.

Sim, as diferenças culturais terão que ser superadas, mas a Itália é mais diversa do que imaginamos: há minorias linguísticas albanesas e gregas no sul; o francês é falado no noroeste, o alemão, no Tirol do Sul e os idiomas eslávicos, no nordeste. Ouve-se o árabe no sul da Sicília.

E, de qualquer forma, quando se precisa de imigrantes, tudo fica mais fácil. Os donos de laticínios ricos no Vale do Pó – que não compõem exatamente o grupo mais aberto da sociedade italiana – ficaram bem felizes quando os indianos, principalmente os sikhs, se estabeleceram ali recentemente, para cuidar de seu gado. Se partissem hoje, o setor inteiro entraria em colapso.

A centuriação antiga como modelo de gestão para a imigração moderna – será que daria certo? A história, a economia e o bom senso apontam na mesma direção, mas claro que isso não basta. É preciso também uma liderança política de visão. Os antigos romanos a tinham. Será que a versão moderna também tem?

(Beppe Severgnini escreve para o ‘Corriere della Sera’, é autor de “La Bella Figura: A Field Guide to the Italian Mind” e contribui ocasionalmente com a coluna.)

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