Artigo: Um triunfo que enterra o isolamento argentino
Redação DM
Publicado em 24 de novembro de 2015 às 05:05 | Atualizado há 11 anosNa eleição não só ganhou Mauricio Macri e perdeu Daniel Scioli. O significativo triunfo de Macri também foi uma derrota considerável para Cristina Kirchner, para o seu modelo econômico e político e sua forma de governar.
Mais de 50% do país enterraram ontem um estilo de permanente confrontação interna, de fracassados desafios às leis da economia, de isolamento internacional e de impunidade judicial. Trata-se de uma notável guinada da sociedade, o que significa deixar para trás a excepcionalidade argentina que durou 12 anos e distanciar o país do eixo bolivariano na América Latina.
Macri não é o único autor de sua vitória. Ele recebeu o apoio involuntário e decisivo de Cristina e Scioli. A presidente saiu mal em quatro das cinco eleições enfrentadas como chefe de Estado (em 2009, 2013 e as duas de 2015). Ela ganhou amplamente apenas na sua reeleição em 2011, logo após a morte inesperada de seu marido.
O próprio Scioli correu em busca do eleitorado preso às saias (e ao discurso) do kirchnerismo mais rançoso, exasperado e difamador. Ele foi perdendo votos a cada semana, insistiu com essa estratégia e não aceitou nenhum conselho sensato. Somente anteontem à noite, quando tinha perdido as eleições, Scioli voltou a ser Scioli. E o peronismo caiu numa derrota profunda: perdeu no país e quase perdeu novamente a província de Buenos Aires.
Esse fim é dramático para qualquer projeto de sobrevivência kirchnerista, mas a realidade que Macri herdará é extremamente complexa e crítica. O presidente eleito repetiu a história conhecida por qualquer cronista de política dos últimos 30 anos: contou que a situação econômica que receberá é muito pior que a imaginada por ele.
Macri foi visto como um político ousado e inteligente quando descartou conselhos do que ele chama de “círculo vermelho” — formado por importantes empresários no país — para fazer um acordo com o candidato Sergio Massa. O acordo não era necessário e teria causado confusão no eleitorado sobre a opção entre mudança e continuidade.
As eleições, no entanto, foram uma coisa, e o governo será outra. Macri não terá maioria no Congresso. A partir de 10 de dezembro, serão necessários amplos acordos políticos e sociais. Basta citar quatro das muitas obrigações do próximo presidente: resolver o conflito da pobreza; reduzir o monumental deficit fiscal; esclarecer a taxa de câmbio; e rever o descontrole de um Estado assistencialista.
Macri disse que negociação e acordo não são sinais de fraqueza, mas uma exigência da prática democrática — o inverso dos Kirchner, para quem todas as negociações foram uma deserção política e uma derrota ideológica.
O principal desafio é transformar a Argentina, o quanto antes, num país aprovado pelo mundo para que se esqueça a excepcionalidade kirchnerista. Macri já antecipou sua política externa: vai se aproximar de Uruguai, Chile, Peru e Colômbia; e ficará longe de Venezuela, Equador e, em menor medida, por questões de vizinhança, da Bolívia. O Brasil é um caso especial. Tanto Dilma Rousseff como o ex-presidente Lula fizeram de tudo para Scioli ganhar. Porém, Macri está disposto a esquecer essas parcialidades, e o Brasil continuará sendo uma das prioridades.
Ex-dirigente esportivo, líder de um partido quase provinciano até há quase quatro anos e um candidato presidencial ousado devolveu aos argentinos a liberdade plena perdida nos anos kirchneristas. Para além dos acertos e erros que estão por vir, ele já tem um parágrafo escrito nas páginas da História.