Cotidiano

As ruas onduladas do Setor Progresso

Redação DM

Publicado em 21 de dezembro de 2015 às 22:21 | Atualizado há 1 ano

Detentor de uma paisagem atípica, comparando-se com o formato predominantemente plano da maioria dos bairros da capital, o Setor Progresso, na Região Norte de Goiânia, chama a atenção principalmente pelo formato ondulado de suas ruas. Essa característica é comum a vários bairros que rodeiam o leito do Ribeirão Anicuns, e é ainda mais sinuosa em bairros vizinhos como o Setor Perim e o Setor Gentil Meirelles. O Morro do Além, ponto mais alto dessa região, se faz visível em vários locais do setor. Nessa matéria o leitor poderá familiarizar-se com as peculiaridades do bairro e saber mais sobre a atual situação do Ribeirão Anicuns, um dos mais importantes da cidade.

A principal via de acesso ao setor é a Avenida Leste-Oeste, que há algumas décadas ainda era apenas um projeto. No local onde se encontra hoje a avenida existia uma ferrovia que encarregava-se de fazer a ligação entre a região Central de Goiânia e a antiga cidade de Campinas, nos primórdios da nova capital. A linha iniciava-se na Praça do Trabalhador, e ia até a estação da Vila Abajá. A Avenida João Damasceno, principal via do Setor Progresso, cruza com a Leste-Oeste na altura do Córrego Cascavel, um dos afluentes do Anicuns. Do outro lado do cruzamento encontra-se o Setor São José.

O Setor Progresso é predominantemente habitacional. A sinuosa Igreja de São Geraldo Magela chama a atenção de quem passa pela avenida principal, mas apesar de sua altura contrastante, acaba perdendo-se em meio às subidas e descidas acentuadas que caracterizam o setor. A religiosidade marca presença no setor através de várias Igrejas protestantes, como a Assembleia de Deus, a Profética – Igreja segundo o coração de Jesus e várias outras.

O aspecto de vila pode ser observado em algumas ruas do setor. Portões de grade permitem visualizar fachadas de casas mais antigas. Algumas delas possuem bancos na porta, que promovem o convívio entre a vizinhança. A praça Irani Andrade Ferreira e a quadra pública de esportes representam a parte destinada ao lazer no projeto do Setor. A segurança ainda é uma das principais preocupações dos moradores, tendo em vista os constantes assaltos a comerciantes e pedestres. Neste ano dois suspeitos de tentativa de roubo morreram em troca de tiros com a polícia no Setor.

Anicuns

A poluição do Ribeirão, que extende-se por quase dez quilômetros, é preocupante e assusta aqueles que foram criados em momentos de menor degradação aos mananciais do estado. Em conversa com moradores mais velhos a tradicional história nostálgica dos banhos de rio surge naturalmente. Em levantamento de Daniel Mathias Caixeta, no artigo científico ‘Mapeamento, Identificação e Monitoramento das Áreas de Proteção Permanente ao longo do Ribeirão Anicuns no Município de Goiânia’, de 2009, alguns dados sobre o Ribeirão são levantados.

Segundo o autor, “o Ribeirão Anicuns é o segundo mais poluído da Capital. Os dados são da Agência Municipal de Meio Ambiente. Com 9,7 quilômetros de extensão, o córrego sobrevive atualmente graças ao projeto Macambira/Anicuns. Os córregos Pindaíba, Quebra Anzol, Cavalo Morto, Salinas, da Cruz e a nascente do Taquaral, afluentes do ribeirão, estão inclusos em um projeto ambiental de recuperação dos mananciais, articulado junto aos chacareiros que residem em suas nascentes e margens”. Ele estima ainda que 70% da população da capital habita a região das sub-bacias que alimentam o Ribeirão.

Segundo Agnaldo Rocha, que morava próximo à região ainda na década de 1960, a área ocupada pelo Ribeirão era bem maior, e foi estreitando-se à medida que o processo de urbanização da cidade acelerava-se. Isso também pode ser comprovado na dissertação de mestrado de Gisele Silveira de Brito, intitulada ‘Alterações ambientais decorrentes da presença de depósitos tecnogênicos na bacia hidrográfica do Ribeirão Anicuns’, defendida em 2011 na Universidade Estadual de São Paulo.

O trabalho analisa a progressiva degradação do leito do rio devido ao despejo de rejeitos de construção civil ao longo das décadas. Segundo a autora, “o processo de urbanização resultou na substituição de grande parte das planícies de inundação pelo progressivo aterramento, visando à expansão urbana principalmente durante as décadas de 1970 e 1980”. O aspecto do rio também não engana. A água possui coloração estranha, e apesar de tudo ainda acolhe fauna. Como foi mostrado em reportagem do dia 26 de novembro, no DmRevista, tartarugas e peixes sofrem com os despejos indesejados, motivados pela ganância industrial e imobiliária.

 


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