Cotidiano

‘Atentados indicam que o plano era maior’, diz cientista político

Redação DM

Publicado em 15 de novembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anos

BERLIM — O atentado de Paris deve pôr toda a Europa em estado de alerta, para o cientista político Rolf Tophoven, do Instituto de Pesquisa do Terrorismo e Segurança, e é provável que atentados ocorram também em outras grandes cidades europeias. “Os terroristas já foram infiltrados nos diversos países, onde a qualquer momento, como em Paris, alguma célula pode pôr em ação o seu plano”, afirmou.

O atentado de Paris é um caso isolado ou precisamos recear que a tragédia se repita em outras metrópoles?

Para o ataque em Paris, os terroristas tinham um motivo atual, que é a luta do Exército francês na Síria. Mas, por trás do plano dos terroristas está não apenas o desejo de vingança, mas sim uma estratégia pérfida de fazer o conflito escalar, provocar nos governos uma forte reação contra o Islamismo e ódio das populações locais contra os muçulmanos, para assim reforçar a propaganda e atrair novos adeptos. Em resumo, o EI quer exportar a guerra da Síria e do Iraque para a Europa.

Até agora, dizia-se que a al-Qaeda era mais perigosa para o Ocidente, enquanto que o EI preferia se concentrar na Síria e no Iraque. Houve uma mudança súbita de estratégia?

O EI teve a sua inspiração inicial na al-Qaeda, mas cresceu rapidamente e tornou-se muito mais perigoso. A sua capacidade de arregimentar “soldados” e simpatizantes é muito maior. O EI consegue atrair até não muçulmanos europeus que se convertem e deixam a vida na Europa para lutar na Síria ou no Iraque. Na Europa, o EI já tem muitas células dispostas a seguir ordens e praticar uma chacina a qualquer momento.

Na sua opinião, o homem de Montenegro preso na última quinta feira, ao cruzar a fronteira da Baviera num carro com explosivos, granadas e metralhadoras, pretendia atacar na Alemanha?

Não podemos excluir a possibilidade de que os terroristas queriam fazer muito mais na noite de sexta-feira, como um atentado simultâneo na França, na Alemanha ou em outro país. Os atentados suicidas fora do estádio também indicam que o plano era bem maior, de atacar dentro do estádio, onde o presidente francês François Hollande e o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank Walter Steinmeier, viam a partida. As bombas explodiram fora, provavelmente porque o plano de entrar no estádio não deu certo. É muito provável que o plano fosse atingir as duas seleções e o número maior possível de torcedores.

É verdade que as diversas células do EI espalhadas pela Europa são autônomas e agem por conta própria?

Não há relacionamento entre as células para evitar que sejam descobertas pelas autoridades de segurança. O ele de ligação entre elas é a ideologia comum, o ódio ao Ocidente. O planejamento foi profissional e a sua execução também traz a assinatura do EI. Mas as células do EI são treinadas também para ações próprias, não coordenadas.

Há poucos dias, alguns jornais divulgaram a suspeita de que milhares de terroristas estariam a caminho da Europa, infiltrados entre os fugitivos. O senhor acha isso provável?

Há fortes indícios porque o cruzamento da fronteira junto com a massa de fugitivos é muito mais fácil do que através do controle nos aeroportos. O fato de que muitos desapareceram depois de chegar à Alemanha reforça a hipótese de que vários podem ser terroristas. Mas um método muito usado é arregimentar jovens muçulmanos já residentes na Europa.

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