Cotidiano

Avós da Praça de Maio entram na campanha de Scioli

Redação DM

Publicado em 18 de novembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anos

BUENOS AIRES – As mães e avós da Praça de Maio, que nunca esconderam sua simpatia e total adesão aos governos de Néstor e Cristina Kirchner, decidiram anunciar, publicamente, seu voto no candidato do kirchnerismo nas eleições presidenciais do próximo domingo, Daniel Scioli. E, ainda, fizeram um alerta: “Um eventual governo de Mauricio Macri significaria um retrocesso que poderia implicar, até mesmo, na libertação de militares condenados e presos por crimes da ditadura”. Assim explicou ao GLOBO a presidente das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, uma das promotoras do documento “Memória e justiça nas urnas”, que será divulgado hoje por várias organizações de defesa dos direitos humanos.

— Não vamos permitir um retrocesso. Já lutamos contra um ditador como Jorge Rafael Videla (que comandou o golpe de estado de março de 1976) e vamos continuar lutando a favor da democracia — assegurou Estela, de 85 anos.

O texto também foi assinado por uma ala das Mães da Praça de Maio, pela Associação de Familiares de Presos Políticos e Desaparecidos, pela organização Filhos (integrada por filhos de desaparecidos) e pelo Centro de Estudos Legais e Sociais (Cels). Na primeira etapa da campanha, estas ONGs manifestaram certa desconfiança em relação a Scioli (que iniciou sua carreira política no governo Carlos Menem, que indultou militares), e a própria Estela assegurou que o candidato do kirchnerismo seria “um presidente de transição”, até que Cristina pudesse retornar ao poder, em 2019. Mas hoje, com a disputa entre Scioli e Macri no primeiro segundo turno presidencial da História do país, as ONGs de direitos humanos decidiram ser mais enfáticas.

— Existem duas opções: uma que propõe esquecimento e retrocesso e outra que vai dar continuidade e fortalecer o que já conseguimos, além do que falta ser feito — frisou Estela, que no ano passado encontrou seu neto, o músico Ignácio Hurban, filho de Laura Carlotto, sequestrada e assassinada pelos militares.

As avós, mães e familiares de desaparecidos asseguram que Macri vai retirar benefícios obtidos nos últimos anos; libertar militares e civis presos; boicotar os julgamentos que ainda devem ser realizados e impedir o avanço de investigações judiciais, sobretudo no caso de civis (principalmente empresários), acusados de cumplicidade.

— Se procurar nos arquivos, verá que Macri disse coisas terríveis e chegou a cogitar abrir as prisões para “libertar esses pobres velhos que foram injustamente condenados” — assegurou a presidente das Avós.

A equipe do candidato da aliança opositora Mudemos nega que Macri tenha afirmado algo assim e que esteja pensando em liberar repressores da ditadura. O que o prefeito portenho disse, e pode ser encontrado em arquivos de jornais, é que em seu eventual governo acabaria “a roubalheira dos direitos humanos”, em referência a diversos benefícios obtidos por ONGs, como as Mães da Praça de Maio (o caso está sendo investigado pela Justiça). Macri também afirmou que “os direitos humanos não podem existir em termos de revanche”.

— Macri virá com a ideia de reconciliação e, para nós, isso é inadmissível. Vamos lutar com unhas e dentes pela memória e pela justiça — apontou a presidente da Associação de Familiares de Presos Políticos e Desaparecidos, Lita Boitano, de 84 anos, cujos dois filhos, Adriana e Miguel Angel, estão desaparecidos.

Lita esteve este ano em Roma e reuniu-se com o Papa Francisco para conversar sobre a abertura dos arquivos do Vaticano sobre a ditadura argentina. O processo, segundo ela, “está avançando, assim como, também, o diálogo com a Igreja argentina para que seja feita uma autocrítica sobre seu papel durante o regime militar”.

— Macri quer virar a página, e isso nós não vamos permitir — enfatizou Lita.

Sem receber representantes

O candidato da oposição, segundo os assessores dele, não pretende modificar o que foi feito nos últimos anos, como a anulação das chamadas leis do perdão, que permitiram a abertura de dezenas de processos judiciais. O que não está claro é se Macri impedirá projetos que permitam julgar civis.

— Em seus oito anos como prefeito, ele nunca nos recebeu e ainda eliminou um pequeno subsídio que nos ajudava. Foi uma ofensa. Já o governo nacional nos deu respostas e nos ajudou financeiramente, não podemos esquecer isso — insistiu Estela, que costuma frequentar atos políticos na Casa Rosada.

A presidente das Avós afirmou que “ainda resta muito a ser feito, principalmente na Justiça”.

— Todo aquele que cometeu um delito deve ser preso. Ainda nos falta encontrar cerca de 400 netos, desaparecidos e fortalecer nossos centros de memória. Não podemos falar em democracia sem isso — declarou Estela, que, como muitos defensores do kirchnerismo, acusou Macri de “representar o passado e querer desfazer tudo o que foi feito nos últimos 12 anos”.

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