Cotidiano

Cassinos de Macau sofrem com problemas trabalhistas e financeiros

Redação DM

Publicado em 18 de dezembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anos

MACAU – O novo palácio do jogo de Macau tem muito para atrair os visitantes chineses ricos em busca de diversão. O Studio City, complexo hoteleiro de US$3,2 bilhões, possui a usual coleção de restaurantes, bares e lojas de relógios e roupas de luxo. Oferece atrações para as famílias como um simulador de voo do Batman e uma área de brinquedos baseados em desenhos da Warner Bros. e personagens de histórias em quadrinhos. Tem até uma roda-gigante em forma de oito construída dentro da fachada do hotel estilo art deco – parte de um efeito maior que o desenvolvedor chama “Gothan City cortada por asteroides”. Uma atração, no entanto, está em falta: mesas de jogo.

Poucas semanas antes de abrir as portas em outubro, o governo local anunciou que o cassino poderia ter apenas 200 mesas – metade do que os donos do Studio City tinham planejado. A decisão abalou as certezas financeiras dos desenvolvedores do projeto, forçando-os a negociar com seus credores uma dispensa nos requisitos para o tamanho do cassino.

O governo local começou a regular o número de mesas de jogo anos atrás, para diminuir o crescimento, quando o mercado de Macau estava prosperando. Mas agora, a lei força os operadores de cassinos a refazerem seus cálculos, já que esta ex-colônia portuguesa está em dificuldades.

Como o lucro do jogo caiu no ano passado, os operadores de cassinos de Macau estão fazendo uma grande aposta no turismo de massa, com investimentos altos em quartos de hotel, lojas, espaços para shows e atrações para famílias.

Esses projetos receberam financiamento e começaram a ser construídos alguns anos atrás, quando Macau ainda estava crescendo rapidamente. Incluindo o Studio City, os desenvolvedores gastaram coletivamente cerca de US$20 bilhões em uma onda de resorts gigantes agendados para abrir no próximo ano ou em 2017 em Cotai Strip, uma faixa de terra recuperada que se tornou o principal distrito de cassinos.

O problema é que os desenvolvedores contam com os lucros do jogo para compensar inicialmente esses investimentos. E o número de mesas é crucial em Macau. Os cassinos dependem de jogos de mesa para 95% de seus lucros, comparado com cerca de 50 por cento em Las Vegas, onde as máquinas têm um papel importante.

O Studio City não só vai ficar com menos mesas do que planejou, mas também será o primeiro cassino em mais de uma década sem salas privativas de jogo para os grandes apostadores – fazendo com que seja ainda mais importante que aquele simulador de voo e a roda gigante atraiam muitos hóspedes.

“O Studio City será o teste decisivo e absoluto para o mercado de massa”, afirma Ben Lee, sócio administrador da IGamiX Management and Consulting, que tem como foco a indústria do jogo.

Macau, uma região administrativa especial como Hong Kong, é o único lugar da China onde os cassinos são legalizados, e o negócio cresceu em ritmo assustador desde que o governo acabou com o monopólio de quatro décadas do bilionário Stanley Ho, de Hong Kong, em 2001.

Mas, no começo do ano passado, depois de chegar a um pico de quase US$5 bilhões, os lucros mensais dos cassinos caíram para cerca de metade e atingiram níveis de cinco anos atrás. A difícil repressão chinesa à corrupção oficial assustou os grandes jogadores de todos os tipos, mas outros fatores, incluindo o efeito adverso das leis do governo local, também pesaram no resultado.

“Até o governo de Macau acreditou por um tempo que a indústria do jogo era indestrutível, que você poderia pegar uma metralhadora ou uma bazuca e atirar nela e ela iria continuar crescendo”, diz Lawrence Ho, executivo chefe da Melco Crown Entertainment, principal desenvolvedora do Studio City.

Lawrence Ho é um dos 17 filhos (de quatro mulheres) de Stanley Ho, que hoje tem 94 anos e está doente. Uma das filhas mais velhas de Stanley Ho, Pansy, é uma das presidentes da MGM China e possui 27 por cento da empresa, uma sociedade controlada pela companhia de cassinos de Las Vegas. Mas os irmãos estão tendo que lidar com um desafio diferente e talvez mais complexo do que os que seu pai encarou.

Foram-se os dias do final dos anos 90 em que membros de gangues, envolvidos em guerras territoriais, atiravam em autoridades portuguesas e uns nos outros. Ao invés disso, as batalhas mais difíceis estão sendo travadas em Cotai Strip, onde os seis operadores de cassinos da cidade – incluindo as unidades locais de empresas de Las Vegas controladas por Sheldon Adelson e Stephen A. Wynn, assim como a MGM – competem para terminar o mais novo e maior hotel, mesmo nquanto a economia tropeça.

Um revés recente para esses desenvolvedores tem sido a derrota brutal da indústria de viagens pagas com o dinheiro do contribuinte, resultado do ataque à corrupção e da diminuição do crescimento da China. Os operadores dessa indústria de viagens, tanto individuais quanto em empresas, são os atravessadores que trazem os grandes jogadores do continente para os cassinos de Macau, aumentam seu crédito e coletam os débitos.

Os cassinos daqui, ao contrário dos de Las Vegas, não emprestam muito aos jogadores da China porque as leis do continente não reconhecem dívidas de jogo. Ao invés disso, eles se voltam para os operadores de jogo que não são muito regulamentados, e algumas vezes têm passados e fontes de financiamento nebulosos.

Os efeitos da corrida anticorrupção juntaram-se à crise econômica mais ampla do país. O lucro gerado pelos grandes jogadores dos cassinos de Macau caiu mais de 50 por cento, de um pico de cerca de US$30 bilhões em 2013.

O aperto em seus maiores clientes mudou radicalmente o ambiente para operadores de cassinos e tornou as restrições locais de operação, incluindo o limite de mesas, mais importantes.

Lawrence Ho diz que a decisão do Studio City de não ter salas de jogo privadas e mesas VIP foi, em parte, forçada pelo fato de terem permissão para operar apenas 200 mesas, com a possibilidade de adicionar mais 50 no ano que vem.

Ele e os outros investidores do projeto do Studio City, as empresas de capital privado americanas Oaktree Capital Management e Silver Point Capital, arriscaram-se a violar uma cláusula de seu acordo de empréstimo de US$1,4 bilhão. Porém, em meados de novembro, a Melco Crown Entertainment anunciou que os credores haviam concordado com o número reduzido de mesas no cassino.

Wynn, o presidente do Wynn Resorts, tem criticado abertamente esse limite imposto pelo governo local. A razão pela qual as extraordinárias atrações que não têm a ver com o jogo existem, disse ele em uma reunião à distância com os investidores no mês passado, é que o cassino “é a caixa registradora”.

“Aqui nos EUA, nunca veríamos uma Las Vegas com tanta diversidade se a cidade tivesse nos dito quantas mesas poderíamos ter. O bloqueio de mesas é a decisão mais contraintuitiva e irracional que já foi tomada”, afirma Wynn.

Em um anúncio no mês passado, Lionel Leong, secretário de Economia e Finanças de Macau, explicou que “um controle moderado do ritmo do desenvolvimento para o setor do jogo” havia tido “o apoio consensual da sociedade de Macau”.

O conjunto de desafios forçaram os operadores a serem criativos na hora de procurar onde diminuir os custos de operação.

Há uma oposição política imensa em Macau contra as demissões de moradores locais, já que os cassinos e os hotéis empregam mais de 100 mil pessoas, ou um quarto da força de trabalho. Por isso, as empresas de jogo têm cortado trabalhadores migrantes, enquanto mantêm milhares de funcionários locais em suas folhas de pagamento até que possam ser transferidos para os novos negócios que estão abrindo em Cotai Strip.

Outro desafio tem sido a proibição de fumar dentro dos cassinos. Os executivos da indústria estimam que a maioria dos clientes que jogam é fumante. No começo deste ano, o governo local propôs uma proibição total do fumo dentro dos cassinos, um movimento que levou à queda nos lucros do jogo em outros locais. Mas a indústria pressionou, propondo a permissão de se fumar apenas em locais designados dentro da área do cassino. As conversas com o governo continuam.

Com a economia de Macau agora em profunda recessão, e o governo rico precisando encarar uma rara perspectiva de cortes no orçamento, Lawrence Ho detecta sinais de que as autoridades locais devem reconsiderar sua linha dura quanto ao limite de mesas.

“Acho que agora eles estão percebendo, ‘Espere um pouco, precisamos do apoio da indústria também’”, explica ele.

O que está claro é que o crescimento aparentemente inexorável de Macau, impulsionado pelos grandes jogadores do continente, em geral chamados de VIPs, terminou.

E Vitaly Umansky, analista de jogo da Sanford C. Bernstein, de Hong Kong, afirma: “É uma mudança de paradigma. Todo mundo percebe hoje que o negócio dos VIPs entrou em um declínio estrutural. Não vai voltar e, definitivamente, nunca mais vai ser do jeito que era antes”.

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