Cidade francesa e distrito belga sob suspeita
Redação DM
Publicado em 17 de novembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anosPARIS — A França faz uma caça sem precedentes aos radicais. Policiais fazem em todo o país mais de 160 buscas sem autorização judicial, o que só pode ser feito num estado de emergência. Mas as ações ligadas às investigações dos ataques terroristas se concentraram em um lugar: Bobigny. Esta cidade da periferia pobre de Paris é o novo retrato de uma França multicultural: quase 50 mil habitantes, mais de cem nacionalidades. Mas é o rosto de uma França precária. Metade dos habitantes estão isentos de imposto – o que significa que são pobres demais para serem taxados.
Hoje, moradores da cidade dizem estar sofrendo duplamente o trauma do maior ataque terrorista da História recente da França. Primeiro, porque um de seus habitantes — Kheirdine Sahbe — morreu no ataque. Didine, como era conhecido, era um jovem argelino, violinista, que estudava música na Universidade de Sorbonne. Morreu na casa de espetáculos Bataclan.
O segundo trauma vem do estigma social. A suspeita de que terroristas estiveram na cidade e conhecem gente de lá reforça a imagem que muitos rejeitam: a de que as chamadas “banlieues” pobres parisienses são um antro de jovens delinquentes ou radicais.
Nesta segunda-feira, um grupo de jovens comunistas se reuniu em Bobigny para decidir o que fazer:
— Dizem agora: “Precisamos recuperar as banlieues.” Ora, desde quando estamos perdidos? — pergunta, indignada, Emma Gabrelle, 21 anos, estudante de História.
Estudante de ciência política, Gokham, também de 21 anos, cresceu na cidade de Drancy, vizinha de Bobigny:
— Queremos combater o discurso dominante, este que diz que as banlieues são governadas por delinquentes, radicais e terroristas. A maioria dos franceses que partem para a Síria é da província, e é branca. Não vêm daqui.
Para os dois, a solução para evitar que jovens da periferia sejam cooptados pelos radicias é simples: acabar com a austeridade econômica, com a discriminação contra filhos da imigração, e “parar com guerras imperialistas” (intervenções francesas no Iraque, Síria e na África).
Esta cidade também vai ficar marcada pelos atentados: foi o lugar onde morou Samy Aminour, 28 anos, um dos kamikazes do ataque no Bataclan. Na segunda-feira, às 6h, a vizinhança de um pequeno prédio de Drancy acordou com o barulho de policiais que entraram à força no apartamento onde o terrorista morou. Três pessoas ligadas à família foram detidas. A porta de entrada foi derrubada.
Aminour era conhecido dos serviços secretos. Havia sido detido em outubro de 2012 por associação com terrorismo. Mas escapou do controle judiciário. Teria partido para a Síria em 2014.
Para Amar Walid, 53 anos, ex-funcionário de um hotel, Bobigny, por ser um bairro da periferia pobre, é um terreno fértil para os radicais islamistas:
— Radicais islâmicos frequentam aqui. São conhecidos em Bobigny. Espero que desmontem todas as células dos radicais. É a vida de todo mundo, inclusive daqui, que está em perigo.
Já Youssef Rezzoug, jornalista argelino radicado em Bobigny, os mais suscetíveis à radicalização não são os imigrantes árabes que chegam agora, mas os franceses filhos da imigração:
— Estes não conhecem nem o país de origem, nem o verdadeiro Islã, e caem no fantasma de um sonho do paraíso com 73 virgens. O que não podem ter na vida real, querem ter neste paraíso: uma ilusão.
MOLENBEEK, O ‘NINHO DE TERRORISTAS’
Nas investigações sobre os ataques em Paris, nenhum outro lugar recebeu tanta atenção da mídia como o distrito belga de Molenbeek-Saint-Jean. O noticiário o classifica como desde uma região “pobre” a “miserável”, “lar dos imigrantes muçulmanos” na Grande Bruxelas, “distrito de classe trabalhadora” e uma “vizinhança multiétnica e descuidada”. E, agora, Molenbeek recebeu do ministro do Interior do país, Jan Jambon, a alcunha de “ninho de terroristas”:
— Molenbeek tornou-se a capital do Islã político na Europa continental — afirmou Jambon, um nacionalista flamengo. — Nós vamos fazer uma faxina em Molenbeek.
A afirmação vem após a constatação de que três acusados pelos atentados, que deixaram, pelo menos, 129 mortos na capital francesa, viviam em Molenbeek. Abdelhamid Abaaoud, filho de imigrantes marroquinos e considerado o mentor intelectual dos ataques, e Salah Abdeslam, acusado de ser um dos executores, estão foragidos. E Brahim Abdeslam, irmão de Salah, explodiu-se após atacar a tiros cafés e restaurantes parisienses. No sábado, a polícia encontrou no distrito um dos carros utilizados em alguns dos ataques.
Além dos atuais acusados de terrorismo, o marroquino Hassan El Haski, um dos mandantes dos atentados de 2004 à rede ferroviária de Madri, reivindicado pela al-Qaeda e que deixou 191 mortos e quase 2.000 feridos, também morou em Molenbeek. Assim como Nemmouche Mehdi, que matou quatro pessoas no Museu Judaico em Bruxelas, em maio de 2014. Também vivia no distrito o marroquino Ayoub El-Khazzani, que tentou cometer um atentado a um trem Thalys, que ia de Amsterdã a Paris, em agosto passado, e foi impedido por militares americanos.
A imigração árabe para Molenbeek teve seu auge na década de 1970, tempo de prosperidade industrial no distrito. Ao longo dos anos, um ex-prefeito, o socialista Philippe Moureaux, permitiu a abertura de 22 mesquitas. Hoje, 80% dos cerca de 95 mil habitantes de Molenbeek é de origem árabe: um em cada quatro não tem o passaporte belga. A taxa de desemprego na região chega a 30%.
— Os jovens têm baixo nível educacional e são atraídos pelo crime, que leva à repressão pela polícia. Há um círculo vicioso, que leva ao recrutamento por grupos radicais — afirma Brice De Ruyver, que, durante oito anos, foi conselheiro de segurança do Gabinete do primeiro-ministro do país.
Após os atentados na sexta-feira, várias batidas policiais foram feitas em Molenbeek, a última delas ontem. Dezenas de policiais, fortemente armados, foram mobilizados, com auxílio do esquadrão antibombas e bombeiros: sete pessoas foram presas, suspeitas de envolvimento com os ataques em Paris. “No total, cinco pessoas foram liberadas e duas continuam em detenção provisória”, informou, em nota, a Procuradoria Federal belga. Mas a atual prefeita de Molenbeek, Françoise Schepmans, afirmou que a ações policiais devem, agora, fazer parte da rotina do distrito:
— É possível que haja outras operações.